Cinema: “Moonfall – Ameaça Lunar” e a representação exata do cinema picaretagem

texto de João Paulo Barreto

Quando o negacionista afirma cuspindo que “o homem nunca chegou realmente a ir à Lua nos anos 1960”, e que tudo aquilo “é um cenário com encenações dirigidas e efeitos cinematográficos”, recomenda o manual anti-imbecis que a maneira mais confiável para calar a boca dessa figura que desperdiça nosso oxigênio é com mais negacionismo. Assim, ainda seguindo o manual, o mais lógico para encerrar tal discussão sem mais desperdício do nosso precioso tempo é afirmar: “mas, cara, a Lua nem existe. Aquilo lá em cima é um holograma”. O resultado é aquele olhar confuso por parte do “cidadão de bem” e a sensação incerta de que está sendo zoado. Durante a sessão de “Moonfall: Ameaça Lunar” (2021), era recorrente essa mesma expressão facial e esse mesmo pensamento. A ideia de que estamos sendo enganados, vítimas de algum esquema que nos prendeu durante mais de duas horas à poltrona do cinema e que não há ironia que nos salve. Mas podemos tentar, claro.

É notório que Roland Emmerich não detém a melhor das credibilidades como roteirista e diretor há um tempo. Sua continuação de “Independence Day”, em 2016, (o primeiro, de 1996, não era lá esse primor, mas vá lá…) ou a tentativa de tachar Shakespeare como plagiador em “Anônimo”, filme de 2012, já o colocavam como a fraude descerebrada que até conseguia bons momentos em sequências de ação e destruição geral como aquelas vistas na sua versão do fim do mundo no longa “2012”, com John Cusack. Mas tire dele o orçamento necessário para encher a tela com o espetáculo visual que vai disfarçar o vazio de suas ideias na escrita e o que temos é um filme como “Moonfall”, no qual a lua não é mais um satélite natural, mas, sim, uma estrutura high-tech alienígena que atrai a fúria de uma inteligência artificial fantasma que lembra muito a fumaça de “Lost”. E em seus absurdos, “Moonfall” não para por aí.

Na trama, Patrick Wilson é Brian Harper, um ex-astronauta em decadência que não consegue pagar o próprio aluguel, mas tem grana suficiente para manter um carrão e uma moto de primeira na garagem. Meses após a tragédia que abre o filme, e que traz o ataque da tal criatura de inteligência artificial à estação espacial na qual operam ele e a colega de NASA, Jocinda Fowl (Halle Berry), Harper é enquadrado por negligência na morte de outro astronauta e acaba pagando o pato por todo acontecido. Nem mesmo o apoio da colega na sua defesa ele consegue, sendo que qualquer vídeo gerado pelas câmeras de seu traje especial poderiam provar sua inocência. Mas, sigamos.

Na premissa trazida por Emmerich, a lua, sendo não um rochedo natural, mas, sim, um equipamento tecnológico criado por ancestrais da humanidade, tem sua trajetória e estrutura física comprometidas pela “fumaça” (vamos chamar esse elemento assim aqui, ok?), causando, deste modo, seu colapso. A gravidade na Terra e as marés dos oceanos são afetados, algo que remete ao outro exemplar de catástrofe trazido pelo diretor em “O Dia Depois de Amanhã” (2004). Na ideia aqui, tal mudança de trajetória elíptica da lua é descoberta não por cientistas treinados, mas, sim, por alguém que assina o cartão de visita como “doutor” mesmo sem deter tal título. E o filme defende isso tranquilamente. No caso, trata-se de John Bradley, famoso por “Game of Thrones” e que, em “Moonfall”, volta a investir no aspecto cômico apelativo de sua forma física.

E o roteiro de Emmerich, escrito ao lado de Harald Closer, com quem já havia co-assinado o texto de dois de seus longas anteriores, não se esforça em parecer menos preguiçoso em reciclar ideias. Deste modo, se faz presente a necessidade de trazer de volta o veterano astronauta (quase na linha “Space Cowboys”, do Clint, mas sem a pegada cômica) de Wilson uma vez que o equipamento necessário para lidar com a fumaça de “Lost” não detectará o arcaico ônibus espacial por questões puramente elétricas/magnéticas. Friso: apenas 1 (um!) astronauta em toda NASA pode fazer isso e ele é alguém que já não opera circuitos de naves espaciais há dez anos. E ainda levará consigo o “doutor” em teorias da conspiração sem qualquer treinamento. Suspiro…

Enquanto isso, na Terra, a subtrama de “Moonfall” se prende na tentativa falha de pintar Harper como um pai fracassado, mas que se esforça em tentar reconquistar o amor do seu filho deliquente, além da ideia de colocar a astronauta de Halle Berry como alguém divorciada de um militar interno da Casa Branca (Eme Ikwuakor se esforçando no semblante “cara de mau” com suas sobrancelhas franzidas), mas que se beneficia de todas as vantagens que aquela relação ainda pode lhe trazer naquela situação. Ah, sim, não poderia faltar, também, o personagem do veterano da NASA que sabe segredos demais e vive seus dias de decadência ruminando informações em seu escritório de luz baixa nos confins empoeirados dos arquivos da agência espacial. E quem pode ser melhor que o veterano Donald Sutherland neste papel? Que saudade de “M.A.S.H.”

Quando os créditos finais sobem, a ideia que melhor nos conforta é saber que houve uma época em que os filmes dirigidos por Roland Emmerich eram espaçados por intervalos que chegavam a quatro anos entre uma produção e outra.

Quem sabe não é o caso do alívio que teremos entre este desastre e o próximo?

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

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