Entrevista: Greg Anderson (Goatsnake, Sunn) fala sobre o novo disco do Engine Kid

entrevista por Luiz Mazetto

Greg Anderson diz que é obcecado por música. E isso não é um exagero. Para comprovar essa afirmação, basta dar uma olhada rápida na lista de bandas e projetos do guitarrista norte-americano. Iniciado no meio dos anos 1980, o extenso currículo traz bandas de metal, como Thor’s Hammer, Burning Witch, Goatsnake e Sunn, de hardcore, incluindo nomes importantes da cena de Seattle, como Brotherhood e False Liberty, e até de noise rock, caso do Engine Kid, que acaba de lançar seu primeiro disco em mais de duas décadas.

Intitulado “Special Olympics” (2021), o novo EP da banda criada em Seattle em 1991 foi lançado no último mês de dezembro pela gravadora do próprio Greg, a lendária Southern Lord, que completa 25 anos de história em 2023. Ao longo de quatro músicas, que totalizam pouco mais de 10 minutos, o trio composto por Greg, Brian Kraft (baixo/vocal) e Jade Devitt (bateria) traz uma continuação perfeita ao último trabalho que tinham lançado juntos, o já clássico “Angel Wings” (1995).

Na entrevista abaixo, feita por telefone no início de janeiro, Greg fala sobre como foi voltar a tocar com o Engine Kid depois de tanto tempo, destaca a importância do Slint para a banda e para a sua vida, lembra como era a cena de Seattle no final dos anos 1980 e início dos 1990, revela como o Sepultura roubou a cena em um show com o Helmet e o Ministry na cidade, reflete sobre o legado da Southern Lord e fala como foi criar o seu próprio pedal de distorção, entre muitas outras coisas. Confira abaixo!

O que fez vocês decidirem reunir o Engine Kid após tanto tempo? Foi um lance da pandemia ou teve mais a ver com o fato de terem relançado os discos da banda em um box com seis vinis no ano passado?
É, nós começamos a trabalhar no box de vinis antes da pandemia. Durante esse processo, nós meio que nos reconectamos. O baterista, Jade, vive em Los Angeles e é um bom amigo, nos vemos com frequência. Tocamos juntos ao longo dos últimos anos e fizemos outros projetos. Mas o baixista, Brian, vive na região leste do estado de Washington, bem longe de nós. Por isso, não o víamos com tanta frequência, apenas falando por mensagens às vezes, mas não estávamos realmente em contato com ele. Mas nos falamos bastante durante o processo de montar o box de vinis e realmente curtimos muito a companhia um do outro. Então decidimos que seria legal nos reunirmos pessoalmente, para nos divertir e talvez tocar juntos. Então finalmente fizemos isso, o Brian dirigiu de Spokane até Los Angeles para encontrar eu e o Jade. E foi ótimo! Foi ótimo nos reunirmos de novo, ainda somos amigos e gostamos de sair juntos, isso foi ótimo. Quando nos reunimos na mesma sala para tocar, foi incrível. Parecia que não tinha passado tempo algum, mesmo já fazendo cerca de 25 anos desde a última vez que tínhamos tocado juntos na mesma sala. Realmente gostamos de tocar juntos. Mesmo tendo pouco tempo para fazer isso, muita coisa aconteceu e foi muito criativo em termos musicais. Por isso, decidimos que seria divertido ir para o estúdio e gravar algumas das músicas em que estávamos trabalhando. Algumas dessas músicas que gravamos são músicas que foram escritas originalmente na época em que a banda estava perto de acabar, no meio dos anos 1990. São músicas em que estávamos trabalhando, mas que nunca chegaram a ser gravadas em um estúdio. Esse foi meio que o nosso ponto de partida, começamos com essas músicas, meio que relembrando e reaprendendo a tocar esses riffs e músicas, e também houve algumas coisas que criamos na hora e gravamos no momento.

E as versões finais dessas músicas antigas, vamos dizer, são muito diferentes em relação às versões originais delas? Pensa que as suas outras experiências musicais ao longo das últimas décadas te influenciaram de alguma maneira no sentido de repensar essas músicas?
Sim, definitivamente. Tanto tempo passou e todos nós fizemos tanta coisa musicalmente e passamos por tantas coisas na vida que não tinha como isso não acontecer. E não era nossa intenção, não somos o tipo de pessoa que vai dizer “Nós deveríamos tentar emular isso, exatamente como era”. Parecia um pouco bobo fazer dessa maneira (risos). Então definitivamente houve… Quer dizer, tanta coisa aconteceu nas nossas vidas que certamente impacta e influencia o que você faz. Isso me parece algo natural – e é legal. Porque nós todos meio que estamos na mesma página, ainda curtimos muitas das mesmas bandas e também das coisas que tocamos. Eu ainda adoro o estilo do Brian de tocar baixo e ainda adoro a forma como Jade toca bateria. Mesmo tendo feito tantas coisas diferentes nas nossas vidas, e também em termos musicais, ainda havia aquele estilo de cada um como músico que todos gostamos. E tudo também funcionou muito bem junto. A química entre nós três ainda estava lá, o que foi muito excitante – e também afirmativo para tudo isso, algo como “Ahh, nós ainda gostamos de tocar juntos, e ainda temos química.” Então foi divertido voltar a tocar com esses caras e ter essa experiência.

E vocês estão planejando fazer um show especial ou algo assim no futuro?
Não, na verdade não. Apenas queríamos nos juntar no mesmo lugar, como amigos. Não havia nenhum tipo de aspiração ou objetivo. Falamos um pouco sobre talvez nos reunirmos para escrever músicas novas e gravar de novo. Mas eu não sei, não parece algo necessariamente confortável ou correto fazer shows com essa banda (risos). Eu não sei…e não tenho nada contra isso. Para nós, sendo honesto com você, foi apenas algo pela gente, algo como “Ok, vamos fazer isso apenas porque é o que gostaríamos de fazer, tocar juntos mais uma vez”. Não estávamos necessariamente tentando fazer uma “reunião” ou tocar para outras pessoas. Lançar essas músicas novas foi algo totalmente não planejado, nem de longe. Foi apenas algo que aconteceu porque pensamos “Isso acabou ficando bem legal e realmente gostamos, então vamos compartilhar com outras pessoas”. Não havia um objetivo do tipo “Ok, nós vamos voltar”, “Vamos tocar nesses festivais” ou “A banda está de volta”. Não é assim que isso está acontecendo, ou como nós queremos que isso aconteça. Só queríamos reunir três amigos pela primeira vez em muito tempo. Pensamos que seria muito interessante já que passou tanto tempo. Nós estávamos curiosos, como “Isso ainda vai ser legal? Ainda vamos nos divertir? E será que vai soar bem?” E nós realmente gostamos, então decidimos documentar isso e compartilhar com o pequeno grupo de pessoas que poderia se interessar.

Falando sobre o novo EP, “Special Olympics” (2021), já que você o mencionou agora pouco. Gostaria de saber se há algum significado especial para o título e a capa do disco, “Special Olympics”. É algo que você já pensava de alguma forma desde aquela época, nos anos 1990, ou é algo que surgiu mais recentemente?
Bom, a música “Special Olympics” é uma das faixas que já estavam escritas. Logo antes de a banda acabar, já a tocávamos. E a estrutura da música segue bem de perto de onde paramos em 1995. Mas não há necessariamente um significado profundo, filosófico, especial ou algo assim por trás do título (risos). Usávamos a analogia das “Special Olympics” (“Olímpiadas Especiais”) mais sobre como os desafios que aparecem ao longo da nossa vida, e basicamente superá-los e perseverar. É mais em um sentido mais abstrato, não era algo como um hino profundo ou significativo nem nada desse tipo. Era algo mais abstrato. E muito tinha a ver com a parte fonética, sendo honesto com você, a forma como as palavras se encaixam com o ritmo e as notas da música. Na época, éramos – e continuamos a ser – influenciados por bandas como o Melvins, em que muitas vezes as letras são apenas coisas sem nexo. E são apenas coisas que soam bem com a música, mas são apresentadas de uma maneira bastante abstrata e vaga, quase como um outro instrumento adicionado à bagunça sonora. E muitas letras do Engine Kid são meio abstratas, um pouco introspectivas, mas mais abstratas em vez de algo mais direto e com um significado profundo e filosófico por trás delas. E as letras de outras faixas do disco, como “Burban on Bladez”, também são muito abstratas.

O Engine Kid foi uma das suas primeiras bandas, depois do Brotherhood e outras bandas mais hardcore que você tocou antes, e essas experiências de formação costumam ter bastante impacto nas nossas vidas. Por isso, gostaria de saber qual foi o impacto da banda (Engine Kid) na sua vida. Pensa que ela influenciou ou impactou de alguma maneira as suas outras bandas e experiências musicais que vieram depois na sua vida?
Com certeza. O Engine Kid sempre foi sobre experimentação, especialmente em termos de som, volume e dinâmica também, obviamente. Entre 1985 e 1990 mais ou menos, as bandas em que toquei eram basicamente bandas de hardcore e elas eram muito “formulaicas”. Havia um padrão tradicional definido e um “template” para a música que fazíamos. O Engine Kid foi a primeira banda em que estive envolvido que não estava interessada em seguir aquelas regras que tínhamos seguido no passado. E meio que quebrar os limites, musicalmente e liricamente. As letras das bandas em que eu tinha tocado antes eram bastante diretas – e muitas delas eram como “hinos”, especialmente no Brotherhood. Então (o Engine Kid) era sobre fazer algo diferente em relação ao que tínhamos feito no passado. Se há uma forma de resumir, então seria isso: tentar fazer algo diferente do que tínhamos feito antes. E todas as bandas e projetos musicais em que participei desde então também meio que tem sido sobre isso: tentar criar algo único com cada uma das bandas. Às vezes é mais aparente e às vezes não é. Mas é sobre seguir em frente, progredir. O Engine Kid foi muito importante para a minha vida como músico, no sentido que foi meio que o primeiro passo fazendo isso. E é um passo corajoso de se dar, porque tudo o que eu tinha feito antes, e meus amigos, colegas e as bandas que eu gostava, eles tinham sido bem-sucedidos fazendo o que faziam com base em uma fórmula. Então foi realmente um pouco assustador sair disso e fazer algo que você não sabia o que iria acontecer. Era o desconhecido, entrar no desconhecido com a sua música. E o Engine Kid foi a minha primeira banda a fazer isso. Foi algo muito importante para mim, e que continuo tentando fazer musicalmente até hoje – e continuarei tentando.

E como era quando a banda começou, no início dos anos 1990, vocês se sentiam parte da cena de Seattle? Ou vocês eram mais como “estranhos” na cidade já que faziam um som mais experimental e diferente do que as bandas locais sobre as quais a imprensa falava mais na época?
Bom, todos nós viemos da cena punk/hardcore que eu mencionei. Na verdade, nós éramos um pouco mais jovens do que as bandas mais conhecidas de Seattle, tipo as bandas grunge, como Mudhoney, Nirvana, TAD e Soundgarden. Os caras dessas bandas eram quatro ou cinco anos mais velhos do que a gente. Nós também éramos parte de um tipo de comunidade diferente de pessoas. Todos gostávamos dessas bandas e íamos ver shows delas. Mas os nossos amigos eram de uma cena diferente, vinham mais da cena underground do punk/hardcore e do metal. Então a música que decidimos fazer com o Engine Kid, como já mencionei, era realmente diferente daquela cena punk/hardcore e metal. Por isso, nós éramos como espécies de párias. Não apenas éramos párias da cena da qual viemos – e fazendo uma música diferente daquela, mas também não nos encaixávamos com o que estava acontecendo musicalmente em Seattle na época. Porque também era uma cena diferente. E musicalmente nós queríamos fazer algo diferente, tínhamos algo diferente em mente. Nós gostávamos daquela música – eu amava o Soundgarden, amava o TAD. Mas queríamos fazer algo que fosse nosso, e buscar influências diferentes também. Mas esse tipo de posição…era a mesma coisa com o Brotherhood. Não havia bandas de hardcore em Seattle, definitivamente não havia bandas straight-edge (risos). Ou mesmo de bandas de hardcore mais acelerado. Havia uma cena muito pequena na época. Então qualquer banda em que toquei…E antes disso, toquei em uma banda chamada False Liberty, que era uma banda de hardcore acelerado, na pegada do D.R.I. e do Die Kreuzen. E, de novo, não havia nada desse tipo acontecendo em Seattle na época. Então a música que toquei na minha vida, eu sinto que prospero, cresço nesse tipo de situação, em que não há muita gente que curta aquilo ou em que não tenha mais ninguém fazendo o que você está fazendo. Gosto de estar nessa posição. E o Engine Kid foi meio que uma continuação disso, como o que fizemos com o Brotherhood. Com o Brotherhood, nós basicamente criamos a nossa própria cena, porque não havia basicamente nada acontecendo, então criamos a nossa própria cena. E o Engine Kid fez algo similar, de alguma maneira, no sentido que criamos nossa própria cena e comunidade porque não havia mais nada desse tipo naquela região.

E havia alguma banda local da qual vocês eram mais próximos na época, com o Engine Kid, talvez da geração de vocês?
Durante a época do Engine Kid, havia uma banda com quem fizemos muitas coisas e que considerávamos como nossos irmãos mais velhos, que era o Silkworm. Mesmo a música não sendo muito… já que éramos muito mais pesados e agressivos. Mas todos gostávamos do mesmo tipo de música. E eu achava que eles eram uma banda incrível. Eles eram o que seria chamado de uma banda de indie rock (risos). Não tinham nenhuma influência de punk ou metal, mas eu realmente gostava da música deles. E tínhamos um vínculo por meio de coisas como Neil Young ou Miles Davis, por exemplo. Também havia uma outra banda, chamada Jessamine, que também era muito diferente da gente em termos de estilo, mas éramos amigos e fazíamos shows juntos. Então o Jessamine, o Silkworm e nós (Engine Kid), era basicamente nós contra todo mundo (risos). Nós meio que criamos a nossa própria comunidade e a nossa própria cena. Eram as bandas com quem tocávamos e com quem sentíamos uma conexão.

Eu sei que o Slint foi uma das principais inspirações para o Engine Kid. Entrevistei o David Pajo, guitarrista da banda, há cerca de dois anos (em outubro de 2019) quando ele tocou no Brasil e na conversa ele falou sobre como vocês são bons amigos e até possuem tatuagens iguais do “Spiderland” (1991). Vocês colaboraram recentemente no disco mais recente do Goatsnake, “Black Age Blues” (2015), em que o David toca a intro da primeira música, e também em turnês, com ele abrindo shows do Sunn com o Papa M nos EUA. Você se lembra como vocês conheceram? E já pensaram em gravar algo juntos?
É, conheci o David em Los Angeles, acho que em 2006 ou 2007. Fomos apresentados por amigos em comum, e eu fiquei realmente alucinado, porque sou muito fã do Slint há muito tempo. Eles são uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos. É uma banda muito importante na minha vida, e que realmente me influenciou. Obviamente, o Engine Kid foi muito influenciado pelo Slint. A forma como eles usam a dinâmica e um tipo de tensão. Toda a abordagem deles para a música mudou a minha vida de muitas formas, mudou a forma como eu penso sobre música. E continua a fazer isso. Então é uma banda muito importante para mim (risos). Então quando o conheci (David), eu fiquei muito pirado. E Los Angeles é uma cidade muito estranha, e isso é algo que amo na cidade, que é o fato de que você nunca sabe com quem vai encontrar. É apenas como um imã para conectar pessoas interessantes e ecléticas. Aconteceu uma coisa engraçada quando me mudei para L.A. em 1996 e comecei a tocar com o Goatsnake. Eu estava andando na rua perto do meu apartamento e era bem cedo, começo da manhã. Não me lembro o que estava fazendo, mas olhei para o outro da rua e vi um cara que parecia com o Brian McMahan do Slint. E eu lembro de pensar “Cara, isso é muito estranho. Esse cara é igual o Brian McMahan”. Mas não pensei muito nisso depois. Alguns dias depois, o Goatsnake estava ensaiando em um estúdio no centro de Los Angeles e eu estava no corredor, indo para a nossa sala de ensaio, quando encontrei com esse mesmo cara que vi na rua, e era o Brian McMahan do Slint. Ele estava morando em L.A. em 1996, 1997. Los Angeles é assim, um tipo de imã estranho. E quando conheci o (David) Pajo em uma casa de shows, alguém nos apresentou e nos demos bem logo de cara. Porque, assim como eu, ele também é obcecado por música. Ele gosta muito de metal, então falamos muito sobre isso. Basicamente nos tornamos amigos e o convidamos para tocar no disco do Goatsnake, o que foi incrível. E nós falamos sobre fazer algo juntos, mas por qualquer razão que seja, não aconteceu. Sei que o David é realmente, de algumas maneiras ele é meio temerário – e não digo isso de uma maneira negativa. Por isso, acho que ele gosta de trabalhar sozinho, penso que é como ele se sente mais confortável. Nós falamos muito sobre trabalhar juntos, e há pessoas sobre as quais falamos que queremos tocar, e com quem toquei, mas ainda não toquei com o David. Por qualquer razão, não aconteceu. E não sei se isso é porque ele se sente mais confortável tocando sozinho ou algo assim. Mas penso que irá acontecer em algum momento. Ter ele tocando com o Sunn foi incrível, fizemos uma turnê juntos, em que ele abria os shows com um set solo tocando guitarra (Nota: com o projeto Papa M, que passou por São Paulo em 2019). E era apenas lindo o que ele tocava todas as noites. Ele é uma das minhas pessoas e músicos favoritos, então espero que algum dia possamos fazer música juntos, espero que isso aconteça em algum momento.

E pensa que depois que você se mudou para Los Angeles, a cidade te influenciou em talvez colaborar mais? Porque ao longo dos anos você colaborou com muitos artistas e bandas diferentes. Pensa que isso tem algo a ver com a cidade em si?
Não, acho que não. Quer dizer, não é nada contra Los Angeles, de maneira alguma. Mas é que a maioria das pessoas com quem colaborei ao longo dos anos, especialmente com o Sunn, não tem nada a ver com Los Angeles. Eu não sei, é engraçado, mas nunca pensei em como a cidade me influenciou – se é que ela me influenciou de alguma forma. Como disse, é como se a cidade tivesse um imã para atrair pessoas interessantes e ecléticas. Como contei há pouco, nos meus primeiros meses após mudar para Los Angeles, encontrei o Brian do Slint, uma das minhas bandas favoritas de todos os tempos. E a banda em que eu tocava, o Goatsnake, compartilhava o mesmo estúdio de ensaio com o Melvins, outra das minhas bandas favoritas de todos os tempos (risos). Foi algo como “Uau, e tudo isso está acontecendo em Los Angeles”. O Brian é de Louisville, no Kentucky, e o Melvins são de Aberdeen, no estado de Washington, e depois de San Francisco. Mas agora eles estão em Los Angeles. Então tende a ser esse lugar em que você vai encontrar pessoas e em que você poderá ter colaborações ou experiências com pessoas de lugares muito diferentes. Não sei, não posso dizer que Los Angeles necessariamente influenciou… Ou talvez eu possa dizer que tenha facilitado ter encontros com algumas dessas pessoas.

Há alguns anos, você colaborou com a Earthquaker Devices para criar um pedal de distorção chamado Life Pedal, em referência ao disco do Sunn, “Life Metal” (2019). Por isso, gostaria de saber como é tocar com um pedal que leva seu nome e que você ajudou a criar? E você pensa que é influenciado ou impactado em como pensa sobre a sua música dependendo do equipamento que esteja usando, seja um captador, um pedal ou um amplificador, por exemplo.
A colaboração com a Earthquaker foi uma experiência incrível. Eles são ótimos e sinto que estamos na mesma página em muitas coisas. Eles meio que vêm do mesmo background. O Jimmy (Jamie Stillman, fundador da empresa) vem do punk, ele tocou em bandas a vida inteira, tinha a sua própria gravadora. Então havia muitas similaridades entre nós dois e nos demos muito bem por isso. Para o Sunn, para o Stephen (O’Malley), que é o outro guitarrista, e eu, nós somos muito obcecados com timbres, sons e amplificadores. E esse é meio que um ponto focal da banda. Então poder fazer algo, ou trabalhar com alguém e essa pessoa criar algo que tenhas as qualidades do nosso timbre, não foi apenas uma honra, mas também algo muito legal. Eu uso o pedal na maior parte das coisas que faço (risos). Foi algo criado e desenvolvido com base nas nossas especificações, então isso foi realmente uma honra e muito legal. Especialmente com uma empresa tão legal quanto a Earthquaker. Em relação ao Sunn, e todas às outras coisas que eu fiz em termos musicais, especialmente nos últimos 20 anos, tem um foco em timbre. E o equipamento que nós usamos é muito importante. Nos anos 1980, quando estava em bandas punk/hardcore, e até no Engine Kid de certo modo, você não pensava tanto no equipamento em que estava tocando. Era mais sobre a execução. E vindo de um background punk/hardcore, isso nunca foi algo que realmente importasse. Você não ouvia tanto as pessoas falando sobre equipamento, ou como conseguiam determinado som. Você apenas tocava com o que pudesse comprar e em que pudesse colocar as mãos. Mas à medida que ficamos mais velhos e mais ligados em timbres, sons e em criar músicas, isso definitivamente tornou-se importante. E, com o passar do tempo, à medida que conseguimos empregos e ganhamos algum dinheiro, também passamos a poder comprar equipamentos (risos). Quando você está começando, pensa apenas “Vou tocar com apenas o que tiver… Ou alguém me empresta ou, sei lá, vou tocar com o que a minha mãe pode comprar”. É mais ou menos assim que começou. Algumas pessoas ainda estão neste ponto, e não há nada de errado com isso. Mas eu fiquei realmente obcecado com timbres e como alcançar os diferentes tipos de timbres. Para mim, essa é uma parte muito importante na hora de criar música: manipular o equipamento que você possui ou adquirir equipamentos para manipular e alcançar os sons que está buscando.

E houve algum ponto de virada neste sentido, talvez uma banda ou artista que você viu um show ou escutou um disco, que te fez querer focar mais nessa parte?
Quando comecei o Engine Kid, o Melvins com certeza. O Earth também, os dois primeiros discos do Earth lançados pela Sub Pop são realmente influentes em termos de saturação e de uma “parede de som” (“wall of sound”, no original). Foi como nos ligamos nos amplifacadores da Sunn, por causa do Melvins. Porque eram os amplificadores que eles usavam. E também era uma empresa da região do Noroeste Pacífico (Pacific Northwest, no original, área que engloba cidades como Seattle e Portland). A Sunn era uma empresa interessante porque eles meio que fabricavam amplificadores para guitarristas iniciantes, tornando-os acessíveis para que as pessoas pudessem comprá-los. Assim como era com a Peavey no sul dos EUA, era algo como “Não podemos comprar um Marshall ou esses amplificadores britânicos de válvula, essas marcas caras, mas aqui está uma empresa que está fabricando amplificadores de qualidade e menos caros”. É por isso que você via as bandas da região do Noroeste Pacífico, como o Melvins, tocando com amplicadores da Sunn, porque era o que as pessoas conseguiam comprar. E também porque eles estavam disponíveis em muitas lojas de penhores, por preços muito baixos. Tipo, você podia ir numa dessas lojas e comprar um amplificador decente por 100 dólares (risos). Então foi mais ou menos assim que conhecemos a Sunn, por causa da conexão com região do Noroeste Pacífico e porque bandas como Melvins tinham esses amplificadores e usavam eles nos shows. “Ah, Ok. Essa banda soa incrivelmente bem, adoro o som de guitarra deles.” E então você investiga um pouco e descobre o que eles usam.

Sempre gosto de fazer essa pergunta – e sei que não fácil, mas gostaria que me dissesse três discos que mudaram a sua vida e porque eles fizeram isso.
Definitivamente o “Spiderland” (1991), do Slint, com certeza. Especialmente pensando no Engine Kid. Nunca tinha escutado nada do tipo antes na minha vida. Quando escutei esse disco, foi apenas algo tão único e estranho, mas também super intrigante, do tipo “O que é isso? Quem são esses caras?”. Havia muito mistério em torno desse disco quando foi lançado. E então descobrir que a banda já tinha acabado quando os conheci. Era muito difícil obter qualquer tipo de informação sobre eles naquela época, obviamente não havia Internet. E ninguém realmente sabia de nada, lembro de ficar realmente obcecado, de ficar perguntando para as pessoas (risos). Buscando e caçando informações até descobrir que a banda já tinha acabado (risos). Então não havia chance de vê-los ao vivo, e nem sabia se haveria novas gravações no futuro, provavelmente não. Mas lembro de pensar “Ok, o que esses caras estão fazendo agora?”, e então ficar tentando descobrir, conhecer os outros projetos musicais em que eles estavam envolvidos. Mas esse disco realmente mudou a forma como penso sobre música. E me apresentou de verdade ao poder da dinâmica, todo o lance da justaposição de “baixo/alto” (“quiet/loud”, no original) e como usar isso na música, como uma forma de se expressar pela música. Isso foi algo excitante. E eles eram uma daquelas bandas, quando o disco saiu, que ninguém realmente conhecia. Então você sentia que tinha esbarrado em algo que era seu, já que ninguém mais conhecia ou se importava – as pessoas estavam interessadas em outras coisas. Obviamente que, como esse disco é tão incrível e tão poderoso, ele tornou-se bastante popular depois e as pessoas o reconhecem hoje em dia. Mas na época em que foi lançado, foi algo meio no impulso. Quem me mostrou foi o pessoal da loja de discos que eu frequentava em Seattle, que me mostrou tanta música incrível, a Fallout Records, eles sabiam que eu gostava das coisas da Touch & Go e que me interessava por coisas diferentes. Então eles me disseram “Ah, você devia sacar esse disco do Slint”. E eu comprei o disco e levei-o para casa apenas com base na recomendação deles. Apenas arrisquei e então pensei “Isso é apenas tão incrível. E tão diferente”. Então esse é um disco importante.

O “Bitches Brew” (1970), do Miles Davis, também é um disco muito importante. É um disco que… quando o escutei, não pude acreditar em como esse disco era rico em sons, sentimentos e emoções. E também em como esse álbum era sombrio. Até aquele momento, quando o escutei, o meu conhecimento sobre o Miles Davis era o “Kind of Blue” (1959) (risos) – que é um disco que eu gosto, mas é algo que você quase poderia ouvir numa cafeteria, mais como música de fundo, que não parecia ter muita “ousadia”. E está tudo bem, é um disco incrível, adoro ele. Mas quando ouvi o “Bitches Brew”, foi algo como “Ahh, esse é o mesmo cara?”. Fiquei impressionado com a progressão musical. E, sendo como eu sou, quis saber tudo sobre o disco. Então você começa a ir atrás para ler tudo que está disponível, pergunta para as pessoas, e conhece a jornada louca e interessante que esse cara percorreu na sua vida e na música. Esse disco apenas meio que deu um chute na minha bunda, eu não podia acreditar no quanto era bom. E outro disco, eu não sei…é uma pergunta meio difícil. Porque sou meio obcecado por música. E há muitas coisas, é difícil escolher apenas três, separar apenas alguns álbuns. Mas acho que pensando no Engine Kid, outro disco que foi muito importante – e influente – para a banda foi o “Ben Hur” (1990), do Bitch Magnet. Eles eram uma banda, que de alguma forma, também vieram da mesma cena/comunidade do Slint. E também fiquei muito impressionado pelo uso que eles faziam da dinâmica. Mas há algo no estilo e no som das guitarras desse disco que são um pouco mais pesados do que o Slint – e dos quais gosto bastante. Também há um pouco mais de melodia nos vocais, o que também achei que era muito legal. Quer dizer, acho que as duas bandas, Slint e Bitch Magnet, são ótimas. Mas era outro disco meio que obrigatório pensando nas influências do Engine Kid e que também foi muito importante – e ainda é. Eu ainda escuto esse disco e ainda o adoro, ele resistiu ao teste do tempo. Quer dizer, há outros discos que foram muito importantes de outras formas para mim. Poderia citar facilmente qualquer um dos quatro primeiros discos do Sabbath. Eles também foram muito importantes para qualquer uma das bandas em que já toquei, especialmente para o Goatsnake. Mas estava pensando mais nas coisas em que estava ouvindo e sendo influenciado com o Engine Kid.

Como sou do Brasil, sempre gosto de perguntar isso: você conhece alguma banda ou artista do Brasil?
Ratos de Porão? Eu falei certo? (risos) Gosto muito desses caras, acho que tenho alguns 7” deles. Quando ouvia muito hardcore nos anos 1980, lembro que gostava bastante desses caras. E o Sepultura também, certo? Mas é engraçado, eu só conheci o Sepultura por volta da época do “Chaos AD” (1993). Me lembro que no início dos anos 1990 eu fui ver um show. Eu realmente gostava do Helmet, especialmente os dois primeiros discos deles – que também foram muito influentes para o Engine Kid. Todos nós curtíamos muito o Helmet, especialmente o primeiro disco deles, o “Strap It On” (1990). Mas quando o Helmet ficou maior, eles assinaram com uma grande gravadora e fizeram uma turnê que tinha o Ministry, o Helmet e o Sepultura. E eu não tinha nem ideia. Eu fui ao show para ver o Helmet, não era um grande fã do Ministry, mas amava o Helmet. Então fui ver o Helmet, e nunca tinha ouvido falar do Sepultura. Foi algo ‘Nossa, uma banda de metal, uma banda brasileira de metal vai abrir para eles? Nunca ouvi falar deles’. E eles (Sepultura) subiram no palco e eles foram realmente fodas pra caralho. A energia e o entusiasmo deles era apenas irreal, parecia um show de hardcore. Eles apenas chegaram com tanta energia, foi muito poderoso. E eles literalmente apenas acabaram com todo mundo no palco. Tipo, o Helmet tocou depois e foi totalmente entediante. O Ministry foi tocar e eu apenas pensei ‘Eu vi a melhor banda, o Sepultura foi a melhor banda. As outras coisas são porcarias em comparação com o quanto eles foram incríveis’(risos). E dali para frente eu me tornei um fã (do Sepultura). E então fui conhecer os discos deles, como o “Beneath the Remains” (1989), que é um dos meus favoritos. Na verdade, na faixa “The Abattoir”, do novo disco do Engine Kid, eu usei a frase “Beneath the Remains” na letra dessa música, o que foi meio que um “aceno” para o Sepultura. Mas adoro o “Chaos AD” e o “Roots” (1996), e também os discos mais thrash que vieram antes. Meio que perdi contato depois, não sei o que eles estão fazendo agora. Mas é, eles são uma banda incrível. E nunca me esquecerei desse show. E, para mim, esses são meio que os melhores shows: quando você não conhece a banda ou não sabe o que esperar e eles destroem tudo completamente, sabe? Te deixam totalmente atordoado (risos). Para mim, essas são as melhores experiências, muito melhores do que ir ver uma banda que você ama e então você vai vê-los tocar e pode ser ótimo, mas é aquele fator surpresa, “bang!”, que te acerta na cabeça! E foi assim que aconteceu naquele show do Sepultura, nunca vou esquecer disso (risos)! Eles estavam muito animados. E é engraçado porque ninguém sabia quem eles eram em Seattle no início dos anos 1990. As pessoas obviamente estavam curtindo grunge, e gostavam do Helmet e do Ministry, que eram os headliners. Mas no início dos anos 1990 – e nos anos 1990 de forma geral – as pessoas não curtiam muito metal em Seattle, não era algo “legal”. E muitas das coisas incríveis que estavam acontecendo, como a cena death metal e as bandas da Earache, como Napalm Death, Entombed, Carcass, ninguém realmente gostava dessas coisas em Seattle. Porque eles estavam apenas obcecados com a música da cena local de Seattle. E o Sepultura meio que se encaixava nessa categoria, em que ninguém sabia quem eles eram – eu não sabia quem eles eram! E, por isso, foi um choque completo ver essa banda levantando tudo.

Você já tocou em muitas bandas e gravou muitos discos como músico. Além disso, você também lançou muitos e muitos discos com a sua gravadora, a Southern Lord, que, caso eu não esteja enganado, irá completar 25 anos de história em 2023. Por isso, gostaria de saber do que você tem mais orgulho na história da gravadora?
Não sei, não sei qual o momento do qual tenho mais orgulho. Acho que apenas o fato de conseguirmos ter algum tipo de sucesso e podermos continuar fazendo isso, acho que é do que tenho mais orgulho. É meio que um milagre, para ser honesto com você, conseguir continuar existindo durante 25 anos. Isso é louco, nunca pensei nisso. A gravadora começou apenas com a ideia de lançar música interessante e colocá-la no mundo, já que ninguém ia fazer isso – foi assim que começou. E o fato de ter crescido para algo que já lançou tantos discos incríveis, já que tive muita sorte de poder ter trabalhado com artistas incríveis, é maravilhoso. Não consigo escolher algo ou um momento específico como o meu favorito ou do qual tenho mais orgulho. Mas apenas o fato de ainda estarmos aqui e podermos trabalhar com artistas realmente incríveis. Isso me dá orgulho e me deixa feliz.

–  Luiz Mazetto é autor dos livros “Nós Somos a Tempestade – Conversas Sobre o Metal Alternativo dos EUA” e “Nós Somos a Tempestade, Vol 2 – Conversas Sobre o Metal Alternativo pelo Mundo”, ambos pela Edições Ideal. Também colabora coma a Vice Brasil, o CVLT Nation e a Loud!

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