Entrevista: Milena Martins Moura fala sobre seu livro “A Orquestra dos Inocentes Condenados”

entrevista por Marcela Güther

Escrito durante a pandemia, “A Orquestra dos Inocentes Condenados” (Editora Primata, 2021, 102 p.), nova obra da poeta carioca Milena Martins Moura, nasceu da necessidade da palavra como forma de sobrevivência. Permeado pelas temáticas da solidão, da morte, do medo e dos abalos psicológicos que tudo isso provoca, a obra traz pensamentos sobre a finitude e a fragilidade da vida, memórias nostálgicas fundantes e uma discussão necessária sobre a neurodiversidade entre mulheres. O livro conta prefácio de Bruna Mitrano e arte de Macaio Poetônio.

Milena Martins Moura nasceu no subúrbio do Rio de Janeiro em 1986. Além de poeta, é editora, tradutora e mestre em Literatura Brasileira pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Publicou também os livros “Promessa Vazia” (2011, contos), “Os Oráculos dos meus Óculos” (2014, poesia) e “Banquete dos Séculos” (edição da autora, 2021, poesia). É editora da revista feminista cassandra e integra as equipes de colunistas da revista Tamarina Literária e de poetas do portal Fazia Poesia. Tem poemas e contos em portais e revistas como Subversa, Torquato, Mallarmargens, Ruído Manifesto, Desvario, toró, Arara, Kuruma’tá, Aboio, Arribação, Totem Pagu, Granuja (México) e Kametsa (Peru).

Na conversa abaixo, Milena aprofunda o olhar sobre a construção do seu novo livro, fala sobre influências literarias e musicais e conta sobre os temas que são recorrentes em sua obra: “O primeiro deles é sem dúvida a religião. (…) Isso leva ao segundo tema recorrente: o corpo feminino, sua relação demonizada com o sexo e o prazer, a carga de sujeira e culpa posta sobre menstruação, lubrificação, mamilos aparentes. Meter religião, sexo, prazer feminino no mesmo poema, numa sociedade que põe deus no masculino e legisla sobre o meu útero, numa sociedade que diz que eu vim de uma costela quando é o útero que dá vida, numa sociedade que culpa há milênios a mulher pelos erros que o homem comete com ela, é uma questão política”, explica, completando: “Outro tema recorrente sempre será a neurodiversidade”. Leia a entrevista completa abaixo!

O que motivou a escrita dos poemas da “Orquestra”?
A solidão, o medo e o luto durante a pandemia da Covid-19, principalmente sob uma perspectiva de pessoa neurodiversa. Muitos dos poemas presentes na “Orquestra” foram escritos em momentos de crises de ansiedade ou sobrecarga sensorial, fosse para aplacá-las em seus sinais iniciais, fosse para sair delas. As menções à cor roxa, aos dentes e paredes e às mordidas na carne não são à toa. Basicamente, esse livro foi como respondi ao meu próprio pedido de socorro.

Como o luto, um tema que infelizmente se fez presente nesse período pandêmico, influenciou seu novo livro?
O livro como um todo é um grande luto, porque já nasceu como uma forma de lidar com diversas perdas: de pessoas, da normalidade, da vida como a conhecemos e, até certo ponto, do controle sobre mim mesma. E o que é o luto senão o processo de se acostumar com a perda? Por isso, cada poema a seu modo, escrever a “Orquestra” foi uma tentativa de me manter firme. Não como quem finge firmeza pra ver se acredita ou convence alguém, mas como quem se deixa desabar e se refaz das ruínas, o que é uma metáfora pobre, porém bem mais próxima do que se imagina da verdade nesse caso.

Quais são as suas principais influências literárias?
Não consigo perceber muitas referências na minha escrita. Eu leio muito sobre muitas coisas e confesso que leio pouca poesia em comparação com outros gêneros (embora eu leia muita poesia). Por isso eu cito desde Viviane Mosé até Carl Sagan e não sei se eles são influências diretamente. Mas cito autoras que eu gosto de ler: Maíra Ferreira, Beatriz Rocha, Thainá Carvalho, Priscila Branco, Dia Nobre, Heleine Fernandes, Bruna Mitrano entre muitas outras.

E quais as musicais, uma vez que a música se insinua em todo o livro, a começar pelo título?
Eu escuto muita coisa. MUITA coisa. De ópera ao funk da feira de Acari, passando por metal e divas do pop. MUITA coisa. Minha playlist vai de Pearl Jam a Demônios da Garoa em dois segundos. Então é muito difícil antever uma influência clara de artistas específicos na “Orquestra”. A música é mais uma temática geral. O fato é que a música é muito presente na minha vida: comecei a estudar canto e teoria musical aos sete anos, estudo canto lírico há mais de dez anos, toco ukulele e baixo, sou ex-vocalista de bandas de metal. Tenho um contato diário com música, então é normal que eu insira um pouco disso em tudo: na minha vida, na minha arte como um todo, na minha poesia.

Como a música influenciou estruturalmente os seus poemas?
A música parece como instrumento temático e estrutural, seja de maneira clara, seja no ritmo de leitura que a escolha vocabular de cada verso imprime. Penso sempre os meus poemas com um ritmo específico, que, é claro, possivelmente não será a forma como o leitor vai lê-los, mas a gente tenta rs. Sinto que, ao escrever um poema, trabalho com um processo semelhante ao que uso quando componho uma música, na escolha das palavras e na quebra dos versos e das estrofes, por exemplo.

E como mergulhar em artes plásticas influencia a sua escrita?
A arte é outro elemento sempre presente na minha vida e desde muito cedo. De um tio que foi artista quando jovem herdei uma série de fascículos muito antiga de grandes nomes da pintura e mergulhava neles por horas na infância. Também herdei dele uma série de três livros com técnicas de desenho. Comecei a treinar desenho a sério ainda criança, buscando usar as técnicas que aprendia, mas só quase no fim da adolescência consegui uma grana pra fazer um curso de verdade. Hoje eu vacilo entre a completa abstração e tentativas de hiper-realismo. Ainda estou aprendendo. A arte costuma acompanhar a escrita. Muitas vezes já retratei meus personagens. Outras, pintei telas com base nos meus contos e poemas; ou o contrário: usei as imagens de pinturas para estruturar a escrita, como cenário ou apenas plano de fundo. A Orquestra teve muitos dos seus poemas transformados em desenhos ou pinturas.

Você se considera multiartista? Quais são os maiores desafios?
Quando uma pessoa se mostra multipotencial em uma sociedade que prega o especialismo, tudo é bastante complicado. É preciso escolher um dos seus potenciais como o principal e relegar todos os demais à categoria hobby, o que significa basicamente anular uma parte enorme de si mesmo. A desculpa da sociedade é que, se dedicando a muitas coisas, a pessoa não se torna completamente boa em nenhuma: como um pato, que não anda direito, não nada direito, não voa direito. O que a sociedade especialista esquece é que um pato é ótimo em ser um pato, que é exatamente o que ele é (metáfora roubada da querida artista multipotencial Ninna Oli). Talvez a pessoa multipotencial não consiga mesmo atingir o nível de excelência de alguém que se dedicou a vida inteira a apenas uma atividade, mas o simples fato de se colocar em diversas esferas com igual capacidade deveria ser celebrado, não rechaçado. É claro, existem contas a pagar e você precisa ter uma profissão, mas não podemos fugir do fato de que a sociedade do capital trabalha para que o sujeito não seja potente em nada além do que gera lucro para os detentores do capital. Um círculo vicioso de “guarda esse sonho na gaveta e acorda pra vida, moleque”, porque se dedicar ao que nos completa é proibido quando é preciso dedicação exclusiva a gerar capital. E é assim que se dedicar a uma só arte já é difícil, imagine um monte! Então a resposta é sim, considero. Acho que faço várias coisas e algumas até bem. E é um saco ser assim sendo pobre.

Você escreve desde quando? Como começou a escrever?
Escrevo desde 1996, quando eu tinha 9 para 10 anos de idade. Tive um avô leitor e uma tia professora que me influenciaram a ler desde muito cedo. Aprendi a ler com três anos de idade e a leitura sempre foi uma forma de enfrentamento da realidade da vida. Escrever foi quase uma consequência óbvia. Comecei a escrever como forma de emancipação.

Como é a sua preparação para a escrita, tem algum ritual ou período do dia que escrever flui melhor?
Sou tradutora de profissão. Por isso, trabalho de casa e tenho liberdade em fazer meus horários. Posso escolher um pouco melhor em que momento fazer cada coisa, trabalhar, escrever, editar etc. Levanto bem cedo, pego um café e vou editar ainda cedinho a cassandra, revista de artes e literatura voltada completamente para o trabalho de mulheres. Também costumo escrever pela manhã. Prefiro escrever, editar e outras atribuições não remuneradas pela manhã, que é mais calma e silenciosa.

Com qual frequência você costuma escrever?
Eu rabisco todos os dias rs. A questão é que nem sempre se tem o tempo ou o local apropriado para levar à frente uma ideia e muitas vezes os prazos dos trabalhos não permitem também. Em especial a minha poesia (a prosa nem tanto) é muito pensada e escrutinada, o que demanda tempo, silêncio e solidão. Então, eu vou rabiscando tudo que me aparece e guardo para o momento propício. Mas sempre existe aquele dia em que tudo funciona e eu posso sentar e escrever. Pego as ideias todas guardadas na gaveta e vou juntando, ligando, vendo aonde vão dar. Nesses dias, algumas coisas bem legais podem nascer, que é o que dá o gás pra insistir nessa doideira de ser artista num país que não ama muito seus artistas não.

Você poderia descrever um pouco sobre como é o seu processo de escrita?
Uma vez encontrado o momento/ambiente certo para a escrita, reúno todas as anotações que podem vir a formar um poema e tento construí-lo. Existem aqueles poemas que quase se constroem sozinhos, vão do rabisco ao completo sem sobressaltos. São fruto de épocas em que a minha cabeça está muito focada em algo. Por outro lado, existem poemas que nascem de uma ideia rabiscada, mas se transformam no meio do caminho. Esse movimento, do anotar ao realmente escrever, é sempre muito surpreendente para mim. Gosto de escrever poemas fechados, imagéticos, que circulem um universo específico, mas tenham um ritmo de leitura e de fala, e isso faz com que, algumas vezes, a escrita seja dura de engolir. Conseguir a palavra certa nem sempre é fácil. E o final perfeito às vezes precisa ficar no forno alguns dias pra crescer. Por isso, tem momentos em que a prosa me salva. Simplesmente saio escrevendo e vejo aonde vai dar, sem as mesmas amarras. Pode parecer condenável, mas, para alguém que passa vinte minutos no mesmo verso e arruma os copos na estante da direita para a esquerda por ordem de tamanho, é um bom exercício de soltura. Às vezes sai até coisa boa.

Como você cultiva novas ideias, a criatividade?
Alguns temas são bastante recorrentes na minha produção artística, mesmo na música ou nas artes plásticas. O primeiro deles é sem dúvida a religião. Cresci em uma família católica muito tradicional. Isso definiu por muito tempo a minha relação com meu próprio corpo: o prazer feminino era um tabu inquebrantável na minha infância/adolescência. Isso leva ao segundo tema recorrente: o corpo feminino, sua relação demonizada com o sexo e o prazer, a carga de sujeira e culpa posta sobre menstruação, lubrificação, mamilos aparentes. Meter religião, sexo, prazer feminino no mesmo poema, numa sociedade que põe deus no masculino e legisla sobre o meu útero, numa sociedade que diz que eu vim de uma costela quando é o útero que dá vida, numa sociedade que culpa há milênios a mulher pelos erros que o homem comete com ela, é uma questão política. Outro tema recorrente sempre será a neurodiversidade, sobretudo o autismo e suas comorbidades. É preciso falar sobre adultos autistas, principalmente mulheres. Suas dificuldades diagnósticas, suas dificuldades na vida. Os padrões diagnósticos ainda são baseados em manifestações do espectro no sexo masculino, pelo que muitas mulheres crescem sem o tratamento e as intervenções precoces devidas. Mais do que isso, crescem acostumadas a ser rechaçadas pelos seus pares, sem saber por que são como são. Naturalizando a relação de gaslighting. E por isso são mais passíveis de entrar em relacionamentos (amorosos ou não) abusivos que suas contrapartes neurotípicas. Mulheres adultas autistas leves não são representadas a não ser como recurso humorístico (o que você acha que é a loira burra do seu pastelão preferido?). E se eu não sou representada, no imaginário da massa eu não existo. E se eu não existo eu não tenho lugar de fala.

Quais são os seus projetos de escrita em andamento? E os que ainda não saíram do papel?
Tenho um novo livro de poemas à espera, guardadinho, que estou começando a mostrar por aí e tentar publicação. Reuni neles alguns poemas sacrílegos e eróticos. Também, surpreendentemente mesmo pra mim, terminei um quase-romance, acho-que-romance, que nasceu do que viria a ser um projeto independente mas tomou proporções maiores. Era algo que eu tinha vontade de escrever há muitos anos e acho que enfim, meio sem querer, consegui.

– Marcela Güther é jornalista, produtora de conteúdo, assessora de imprensa e mediadora do Leia Mulheres.

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