Três discos: Cassete Pirata, Beautify Junkyards, Rui Reininho

resenhas por Pedro Salgado, especial de Lisboa

“A Semente”, Cassete Pirata (Rastilho Records)
Os Cassete Pirata são uma das bandas mais interessantes do cenário musical português na atualidade, produzindo canções de toada instrospectiva unidas ao rock pesado dos anos 1960 e 1970, como evidenciaram no bom álbum de estreia, “A Montra” (2019). O trabalho mais recente, “A Semente”, resulta de um período de reflexão e espelha o tempo atual, marcado pela inquietação da nova geração, ao qual não são alheias as consequências da pandemia nas suas vidas, mas também alertando para o perigo do individualismo em oposição a uma vida plena, em comunidade. Na maior parte das canções, escritas pelo vocalista, guitarrista e compositor João Firmino (Pir), o quinteto lisboeta (do qual faz parte Joana Espadinha) não se limita a observar a complexidade do momento e desafia o público com uma série de perguntas que coloca nas várias faixas. Musicalmente, a pegada roqueira do trabalho é exibida, sem rodeios, na ironica “A Torcer por Nós” e no prog rock de “Malta”, mas, nesse patamar, a faixa-título, como contraponto temático às correntes dominantes, revela um pendor rítmico mais interessante. Destaca-se também o single “A Pirâmide”, um pop comunal que encontra correspondência no travo popular da derradeira “Também Serve Pra Lutar”. Já a relativa calmaria dos temas “Brisa Solar” e “A Árvore” sugerem um maior apaziguamento emocional de Pir. Em vários momentos, o novo álbum dos Cassete Pirata transmite vitalidade e assimila a realidade que pretende retratar.

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Nota: 8

“Cosmorama”, Beautify Junkyards (Ghost Box)
Em “Cosmorama”, o quarto álbum dos Beautify Junkyards, o sexteto lisboeta amplia a sua matriz tropicalista e psicodélica com o componente eletrônico assumindo um papel mais importante do que nos anteriores registros da banda. O exotismo, apoiado na riqueza rítmica, bem como uma tentativa de sugerir uma viagem no espaço e no tempo, animam um trabalho onírico que pretende, igualmente, proporcionar momentos de magia aos seus seguidores. Contando com as participações especiais da cantora brasileira Nina Miranda (voz dos Smoke City) e de Allison Brice, cantora dos nova-iorquinos Lake Ruth, bem como do harpista português Eduardo Raon, “Cosmorama” é um disco em que a sensação é mais importante do que os episódios particulares. Nele, o grupo liderado por João Branco Kyron (vozes e sintetizadores) desenvolve uma sonoridade ora colorida ora noturna, na qual todas as etapas parecem concorrer para uma experiência sensorial de livre interpretação. Dentro do universo variado do álbum, destacam-se a sonhadora “Dupla Exposição” e a exuberante “Parangolé” (onde Nina Miranda dá corpo a leves frases poéticas às quais confere um tom ritmado). O encontro vocal de Kyron e Martinez na cinemática “A Garden by the Sea” e o misticismo da faixa-título (uma música escolhida por Paul Weller e que integrou uma coletânea da revista Mojo), cantada delicadamente por Nina, em português e inglês, completam o lote das faixas marcantes. “Cosmorama” é um bom trabalho, no qual os Beautify Junkyards soam atrativos, com base numa sensibilidade artística apurada.

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Nota: 8

“20.000 Éguas Submarinas”, Rui Reininho (Turbina)
No seu álbum de estreia solo, “Companhia das Índias” (2008), Rui Reininho, vocalista do famoso grupo pop portuense GNR, apostou num trabalho diversificado, composto por temas inéditos de Armando Teixeira, The Legendary Tigerman e Rodrigo Leão, entre outros. As faixas pop/rock dominantes enquadravam-se bem com as versões de “Faz Parte do Meu Show”, de Cazuza e “Bem Bom”, das Doce, e garantiram uma boa recepção ao disco. Passados 13 anos, com a edição de “20.000 Éguas Submarinas” (no qual participam também Alexandre Soares, Três Tristes Tigres, Pedro Jóia e a terapeuta musical holandesa Jacomina Kistemaker), que resulta de uma colaboração de Reininho com o co-produtor e instrumentista Paulo Borges, o foco recai na temática marítima e numa incursão no experimentalismo sonoro, sem abandonar a sua costela pop/rock. Embora o trabalho exiba uma mistura rítmica apreciável e, por vezes, reclame uma audição mais atenta, o resultado é francamente compensador. Desde o pop épico de travo oriental de “Namastea”, passando pelo galope percussivo da poética “Animais Errantes” ou no blues ácido de “Fartos do Mar”, Reininho revela um refrescante conjunto de soluções musicais, apoiado em sons da natureza, eletrônica vintage e sonoridades budistas. Globalmente, “20.000 Éguas Submarinas” é um disco surpreendente que apresenta a faceta mística e criativa de Rui Reininho.

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Nota: 8,5

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.

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