Entrevista: Lula Oliveira fala da retomada do cinema na Bahia com “A Matriarca”

entrevista por João Paulo Barreto

A sensação de retomada cinematográfica é especial. Após meses de uma necessária suspensão das atividades em locações como modo preventivo devido à pandemia, a produção de “A Matriarca”, filme de Lula Oliveira, teve suas filmagens realizadas durante o mês de outubro de 2021, nas cidades de Cairu e Valença, no baixo sul baiano. Todo processo era para ter acontecido em março do ano passado, justamente o mês em que as medidas de isolamento social foram colocadas em prática. Somente um ano e meio depois foi possível a realização da produção nos municípios, contando com uma equipe reduzida de aproximadamente 80 pessoas entre atores e técnicos, todos seguindo os ainda necessários protocolos sanitários de segurança.

“O que aconteceu durante as filmagens foi incrível. Uma sinergia total envolvendo a equipe técnica e os atores. Saí desse set dizendo que não fizemos um filme, mas, sim, nos envolvemos numa vivência cinematográfica. Um processo criativo aberto, amplo e democrático. Todos que tiveram o desejo de colaborar com ideias tiveram abertura para construir criativamente o processo. Cabia a mim a decisão final, mas todos participaram muito de todo o processo criativo,” relembra o diretor Lula Oliveira em entrevista ao Scream & Yell.

O filme, que agora segue para o processo chave de montagem, começou a sua estrada ainda em 2012, quando a primeira versão do argumento foi escrita por Lula ao lado de Manuela Dias, também roteirista do ótimo “Deserto Feliz” (2007). “A gênese do projeto nasce com o processo de escrita do argumento ao lado de Manuela Dias. João Rodrigo Mattos (roteirista e sócio de Lula na produtora DocDoma) desenvolveu o primeiro tratamento do roteiro a partir de uma escaleta construída do argumento escrito. É bom frisar que foi a versão escrita por João Rodrigo Mattos que foi contemplada no edital da Ancine, em 2017, permitindo desencadear todo o processo de produção do filme. Desde então, o roteiro passou por muitas transformações e tivemos outros importantes colaboradores, como a também jornalista, Inês Figueiró. No total, foram dez versões e muitas transformações de estrutura narrativa e personagens para chegar no roteiro que foi filmado”, explica Lula.

Na história de “A Matriarca”, o reencontro de uma família cuja distância impera entre seus membros. A ocasião especial é o aniversário de 90 anos de dona Matita, a matriarca do título. Mas o inesperado falecimento dela no dia da festa dará outro significado àquele momento. O peso familiar inerente à perda da sua própria avó, em 1993, surgiu como uma fagulha na imaginação de Lula, que decidiu, após alguns anos, transformar em um projeto de cinema aquele estopim. “Foi algo que ficou anos em minha cabeça sendo processado no imaginário. Anos depois, já atuando no cinema, quando assisti o ‘Festa em Família’, filme do Dogma 95, dirigido por Thomas Vinterberg, tive a ideia de transformar todo esse imaginário num projeto cinematográfico”, pontua Lula. A ocasião de passagem de sua avó, no entanto, não é considerada como um peso familiar para o diretor.

“Foi leve e transcendental”, explica Lula. “A morte de minha avó Matilde, na cidade de Valença, de fato, foi muito marcante para um jovem de 19 anos que ainda não sonhava em fazer cinema. Foi a primeira vez que eu tive contato físico com uma pele morta, sem vida. Foi ali que entendi o que era a vida, no contato físico com a morte. Além disso, todo o contexto sócio cultural que envolvia o velório. O velório dentro da casa. Cercado de pescadores, marisqueiras, uma grande família envolvida, com todos os seus conflitos. A presença de Karine, uma francesa, namorada de meu primo Osório, trazendo um olhar antropológico para aquela situação e demarcando um contraste de culturas. No final, um cortejo, ao pôr do sol, sendo seguido por muita gente da cidade. Os alto-falantes de Valença homenageando Dona Matilde. Uma mulher muito forte, moderna para sua época, que marcou muito a cidade e as pessoas” relembra, com orgulho, o cineasta de todo o período.

Um dos grandes apoiadores de “A Matriarca”, ainda em sua fase inicial em 2012, foi o saudoso jornalista e crítico de cinema João Carlos Sampaio. Presente em diversos sets de produções baianas, João já acompanhava a carreira de Lula em 2005. “Nessa ocasião, realizei o curta-metragem ‘Na Terra do Sol’, sobre a peleja da guerra de Canudos, baseado no livro ‘Os Sertões’, de Euclides da Cunha. Todo filmado no município de Canudos. E lá estava João Sampaio, com sua câmera fotográfica, participando de todo processo. Ele viajou por conta própria e se juntou à trupe do filme. Esse era João, um jornalista que se jogava nos processos produtivos do cinema. Alimentava-se de cinema em todas as suas dimensões,” relembra Lula.

Sobre a relação de Janjão de Aratuípe, como era carinhosamente chamado, com aquela embrionária fase do filme que agora tem sua produção avançada, Lula recorda-se da presença crucial do crítico na ocasião. “João foi um dos jurados que selecionou o longa metragem, ainda na fase de desenvolvimento de roteiro, num edital promovido pela Secult Bahia. Ele acreditava muito nesse projeto. Dizia-me sempre sorrindo, como era do seu perfil. Um amigo querido que se tivesse aqui entre nós, com certeza, estaria conosco no set de filmagem”, pontua Lula.

Dentro de um período sombrio para a produção cinematográfica no Brasil, poder observar “A Matriarca” entrar em suar fase de pós é algo bem revigorante quando pensamos na força do cinema baiano. Lula traz um aspecto poético e outro pragmático para esse período. “Há esperança. Sendo poético: uma planta nasce até nas fendas do cimento. A vida e a arte sempre florescerão, mesmo nos piores cenários. Pragmaticamente, te respondo: o Brasil é um manancial de talentos no cinema. O melhor caminho para retomada é acreditar num projeto que concilie dois vetores estratégicos para o desenvolvimento do audiovisual: educação audiovisual e fomento. A educação forma novos profissionais e permite a consolidação de uma cultura, do saborear, do aprender a gostar das nossas estórias e da nossa História. O fomento gera emprego e produz conteúdos que elevam a auto-estima e faz com que o Brasil viaje em muitas dimensões para todo o mundo”, complementa.

Sobre a fase final da produção, Lula pontua: “’A Matriarca’ está sendo montado. Vou passar o verão investindo nessa etapa do processo com a montadora Juliana Guanais. Temos um projeto potente com um elenco extraordinário de atores baianos (Jackyson Costa, Aícha Marques, Evelin Buchegger, Caco Monteiro, dentre outros) e a participação muito especial de Vinicius Oliveira, o garoto de ‘Central do Brasil’, hoje, já um homem e talentoso ator. Também temos a participação muito especial de Lucile Petrement, atriz francesa”, encerra Lula e relembra: “sempre bom frisar que estamos em busca de parceiros e patrocinadores para investir nessa etapa de finalização do projeto”.

Nesta entrevista ao Scream & Yell, o cineasta aprofunda mais o processo de produção de “A Matriarca”. Confira!

A ideia surgiu em 2012 e, desde então, a partir de captações de recursos, você começou a viabilizar o roteiro de “A Matriarca” ao lado de Manuela Dias e João Rodrigo Matos. Como se deu essa divisão na escrita?
A gênese do projeto nasce com o processo de escrita do argumento ao lado de Manuela Dias. João Rodrigo Mattos desenvolveu o primeiro tratamento do roteiro a partir de uma escaleta construída a partir do argumento escrito. É bom frisar que foi a versão escrita por João Rodrigo Mattos que foi contemplada no edital da Ancine, em 2017, permitindo desencadear todo o processo de produção do filme. Desde então, o roteiro passou por muitas transformações e tivemos outros importantes colaboradores, como a também jornalista, Inês Figueiró. No total, foram dez versões e muitas transformações de estrutura narrativa e personagens para chegar no roteiro que foi filmado. Preciso ressaltar a colaboração gigante do cineasta Fabio Rocha em todo o processo. E, no último tratamento, uma colaboração fundamental do cineasta Hermano Penna. Também a cineasta Ana Luiza Penna que colaborou com reflexões fundamentais e na escrita de cenas que tornaram o roteiro mais enxuto e coeso. Muitos amigos também colaboraram fazendo análises do roteiro ao longo desses anos que precederam a sua filmagem.

No decorrer desse período, a DocDoma Filmes produziu, também, “Café, Pepi e Limão”. Gostaria de lhe perguntar acerca das dificuldades encontradas para levar à frente esse outro projeto, que teve suas filmagens antes da pandemia, mas que foi impactado tanto por ela quanto pelo desmonte cultural trazido pelo atual (des)governo brasileiro.
“Café, Pepi e Limão”, dos diretores Pedro Léo Martins e Adler Paz, foi filmado antes da pandemia. Não tivemos maiores problemas na condução da produção. O filme se encontra em fase de pós produção e ficará pronto em 2022. O desmonte cultural do governo federal, particularmente, no setor audiovisual, teve impacto em toda cadeia produtiva do audiovisual brasileiro.

Você me falou sobre ter apresentado ao saudoso João Carlos Sampaio a ideia para “A Matriarca” ainda em 2012. Janjão de Aratuípe era um cara que, na posição de jornalista, sempre tinha a louvável iniciativa de se fazer presente acompanhando diversas produções baianas, fazendo matérias que destacavam não somente o produto pronto, mas, também, toda sua labuta gradativa de construção. E posso afirmar isso com segurança, pois acabo de fazer a curadoria, ao lado de Rafael Carvalho, de um livro que reúne uma coletânea de escritos de João e, nessa pesquisa, foram muitos os textos lidos nesse viés. Poderia falar um pouco como foi essa conversa com ele?
Em 2005, realizei o curta-metragem “Na Terra do Sol”, sobre a peleja da guerra de Canudos, baseado no livro “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. Todo filmado no município de Canudos. E lá estava João Sampaio, com sua câmera fotográfica, participando de todo processo. João viajou por conta própria e se juntou à trupe do filme. Esse era João, um jornalista que se jogava nos processos produtivos do cinema. Alimentava-se de cinema em todas as suas dimensões. João foi um dos jurados que selecionou o longa metragem “A Matriarca”, ainda na fase de desenvolvimento de roteiro, num edital promovido pela Secult Bahia. Ele acreditava muito nesse projeto. Dizia-me, sempre sorrindo, como era do seu perfil. Um amigo querido que se tivesse aqui entre nós, com certeza, estaria conosco no set de filmagem. Saudade do suplemento cultural do Jornal A Tarde (de Salvador). O livro que vocês sobre os pensamentos de Janjão Sampaio é imprescindível para quem ama o cinema. Evoé, João Carlos Sampaio!

“A Matriarca” traz uma história fictícia, mas carregada de emoções pessoais suas, como aquelas relacionadas à perda de sua própria avó em 1993. Como esse peso familiar ecoou na sua escrita e na ideia original?
Não considero um peso. Foi leve e transcendental. A morte de minha avó Matilde, na cidade de Valença, de fato, foi muito marcante para um jovem de 19 anos que ainda não sonhava em fazer cinema. Foi a primeira vez que eu tive contato físico com uma pele morta, sem vida. Foi ali que entendi o que era a vida, no contato físico com a morte. Além disso, todo o contexto sócio cultural que envolvia o velório. O velório dentro da casa. Cercado de pescadores, marisqueiras, uma grande família envolvida, com todos os seus conflitos. A presença de Karine, uma francesa, namorada de meu primo Osório, trazendo um olhar antropológico para aquela situação e demarcando um contraste de culturas. No final, um cortejo, ao pôr do sol, sendo seguido por muita gente da cidade. Os alto falantes de Valença homenageando Dona Matilde. Uma mulher muito forte, moderna para sua época, que marcou muito a cidade e as pessoas. Enfim, tudo isso ficou anos em minha cabeça sendo processado no imaginário. Anos depois, já atuando no cinema, quando assisti o “Festa em Família”, filme do Dogma 95, dirigido por Thomas Vinterberg, tive a ideia de transformar todo esse imaginário num projeto cinematográfico.

O filme teve sua produção paralisada e adiada por conta da pandemia. Voltar a gravá-lo, e seguindo todos os protocolos, deve ter tido um simbolismo imenso para você e para a equipe. Como isso reverberou no dia-a-dia do set? Ajudou a construir uma energia melhor perceber essa volta ao trabalho como um símbolo de dias melhores?
O que aconteceu durante as filmagens foi incrível. Uma sinergia total envolvendo a equipe técnica e os atores. Sai desse set dizendo que não fizemos um filme, mas, sim, nos envolvemos numa vivência cinematográfica. Um processo criativo aberto, amplo e democrático. Todos que tiveram o desejo de colaborar com ideias tiveram abertura para construir criativamente o processo. Cabia a mim a decisão final, mas todos participaram muito de todo o processo criativo. Foi um bálsamo de esperança viver aquele presente das filmagens e pensar no futuro com otimismo. Algo que, particularmente, nunca tinha vivido antes nos meus vinte anos de cinema. Eu só agradeço aos Deuses por me presentear com tanta energia boa durante as filmagens.

Lembro-me que em 2018, um período que parece ter sido em outra vida, a APC publicou uma carta aberta ao Governo do Estado questionando a ausência de editais. Com o que aconteceu no âmbito federal a partir de 01 de janeiro de 2019 e, ainda pior, com a pandemia e o lockdown de março de 2020 em diante, as produções baianas (e nacionais, também) passaram por um período complicado no que se refere à captação de recursos para o audiovisual. Houve a lei Aldir Blanc; há o FSA que ainda mantém um direcionamento financeiro para a cultura, mas a fase foi e ainda está sendo difícil. Gostaria de lhe perguntar sobre sua sensação de otimismo sobre os próximos anos. Há esperança? E sendo pragmático e menos poético nessa minha abordagem: como você avalia esse melhor caminho para uma retomada do nosso audiovisual?
Sim, há esperança. Sendo poético: uma planta nasce até nas fendas do cimento. A vida, e a arte, sempre florescerão mesmo nos piores cenários. Pragmaticamente, te respondo: o Brasil é um manancial de talentos no cinema. As políticas cinematográficas implementadas nos governos de Lula e, depois, de Dilma, deram vozes às produções de norte a sul do país. Passamos viver outra realidade no audiovisual brasileiro. Nossa potência criativa e técnica são maiores que qualquer política. Transpareceu e cresceu. O cinema brasileiro ganhou outra dimensão simbólica para o mundo. Filmes do Ceará, Pernambuco, Paraense, Bahia, do Mato Grosso, entre outros estados do Brasil, ganharam as telas do mundo com reconhecimento internacional, provando que a potência criativa e a capacidade técnica de realização do audiovisual estavam espalhadas por todo o país. O melhor caminho para retomada é acreditar num projeto que concilie dois vetores estratégicos para o desenvolvimento do audiovisual: educação audiovisual e fomento. A educação forma novos profissionais e permite a consolidação de uma cultura, do saborear, do aprender a gostar das nossas estórias e da nossa História. O fomento gera emprego e produz conteúdos que elevam a auto-estima e faz com que o Brasil viaje em muitas dimensões para todo o mundo.

Como anda o processo depois das filmagens? Quais os planos para o futuro do filme?
O filme está sendo montado. Vou passar o verão investindo nessa etapa do processo com a montadora Juliana Guanais. É bom destacar que temos um projeto potente com um elenco extraordinário de atores baianos e a participação muito especial de Vinicius Oliveira, o garoto de Central do Brasil. Hoje, já um homem e talentoso ator. Também a participação muito especial de Lucile Pretrement, atriz francesa. Sempre bom frisar que estamos em busca de parceiros e patrocinadores para investir nessa etapa de finalização do projeto.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.