Ao vivo em Lisboa, Ana Bacalhau, a melhor “show woman” do cenário português

Texto por Pedro Salgado, especial de Lisboa
Fotos de Sebas Ferreira

Sobre o álbum “Além Da Curta Imaginação”, Ana Bacalhau já havia dito que se tratava de “uma viagem necessária para a sua redenção, depois da queda” e acrescentou que seria também “um momento para criar novos mundos, para que as experiências de dor e perda pudessem ser sublimadas”. Partindo dessa ideia, a procura da catarse norteou a apresentação do novo trabalho da cantora lisboeta. Alternando as canções mais recentes com alguns números anteriores, de diferentes tonalidades emotivas, Ana colocou o foco na animação e foi esse aspecto que marcou a noite de sexta-feira, 12 Novembro, no Cineteatro Capitólio repleto de entusiastas.

A noite principiou com “Encanto”, a meio gás e, pouco depois, a cantora dirigiu-se ao público com emoção: “Boa noite! A saudade que eu tinha de estar em palco. Que nervos! (risos)”. Seguiu-se a animada “Passo-me a Tratar Por Tu”, do álbum de estreia “Nome Próprio” (2017), onde Ana dançou e bamboleou, provocando uma imediata adesão da audiência. O gosto por contar as suas histórias, uma constante ao longo do show, contribuiu para gerar mais entusiasmo em vários momentos do espetáculo.

“Esta canção do Jorge Cruz fala do que eu senti ao longo deste tempo de pandemia. Fiquei no lodo. E a ausência de esperança fez-me confusão”, disse, partindo para a interpretação de “Leve Como Uma Pena”, que abordou com empolgamento. O show entraria numa fase de maior intensidade com “Memória” (um dos seus desempenhos mais sólidos) e depois na divertida “Não É Nada” (uma canção que escreveu no confinamento) que o público cantou em coro. E no pop colorido de “Sou Como Sou” (um tema escrito pelos D´Alva), Ana Bacalhau encantou o público fazendo poses, soltando charme e dançando freneticamente.

Mais à frente, a artista tocou guitarra acústica e interpretou o mais recente single “Que Me Interessa A Mim” (outra música sua) e quando cantou “Sono De Outono”, um exercício nostálgico, aproveitou para explicar o fato do seu novo álbum ter músicas de vários autores: “Gosto de cantar as canções dos outros, porque me agrada colocar o meu ADN no ADN de diferentes pessoas”. Na recordação pitoresca de “A Bacalhau”, Ana rappeou, animadamente, a egotrip que Capicua lhe escreveu. Enquanto no folk pop de “Isso É Que Era Bom”, alusivo ao bullying, a cantora lisboeta relembrou que viveu uma experiência semelhante e alertou os presentes para essa prática: “Eu passei por isso e quanto mais se cantar este assunto melhor é”.

A balada “Ainda Te Amo” abriu caminho para “O Erro Mais Bonito”, um pop romântico de 2019 que concluiu dizendo ao público com graça: “Esta é a última música. Convém pedirem se quiserem que nós voltemos”. O regresso ao álbum de estreia fez-se ao som de “Ciúme”, que grudou pelo prazeiroso travo doo wop e pela boa dinâmica coletiva. Visivelmente satisfeita, Ana apresentou os integrantes do grupo, constituído por Manuel Oliveira (teclados), Eugénia Contente (guitarras), Guilherme Melo (bateria) e Zé Pedro Leitão (baixo) e despediu-se dos presentes com um “Obrigado a todos vós”.

No encore, interpretou com simplicidade a reconfortante “Tudo De Bom” (de Nuno Prata), numa toada compassada e à semelhança da versão original. O espetáculo terminou com “Domingo”, no qual, inspirada na mensagem da canção, lançou um convite à plateia para a curtição e as saídas noturnas. Foi a performance mais arrebatadora da cantora lisboeta, dançando desenfreadamente, gesticulando, tirando os sapatos e, por fim, deitando-se no chão. Quando a torrente sonora acalmou, os músicos fizeram a vénia coletiva ao público e o concerto terminou.

Passados 90 minutos de apresentação, Ana Bacalhau confirmou uma vez mais que é a melhor ‘show woman’ do panorama musical português, na medida em que conseguiu contagiar a assistência com humor, emotividade e libertação corporal. O seu desempenho, do começo ao fim, num registo otimista, funcionou como um antídoto salutar para os tempos atuais de incerteza. Ana está igualmente mais confiante nas suas interpretações e conta com um punhado de boas canções que defendeu bastante bem. Globalmente, foi uma noite muito especial e a assistência saiu do espetáculo visivelmente animada.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.

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