Os 70 anos de Cida Moreira e os 40 anos de seu clássico disco “Summertime”

texto de Renan Guerra

“É a rainha dos detentos / Das loucas, dos lazarentos”, diz Chico Buarque em uma de suas canções clássicas, um epíteto que se encaixa em Cida Moreira. Espécie de anti-diva, a nossa “dama indigna”, a cantora paulistana nunca fez grandes sucessos no rádio, nem movimentou multidões, mas é uma estrela de maior grandeza para seus fiéis ouvintes. E quem ouviu algum vez, certamente não passou incólume a sua voz forte e lúgubre.

Atriz de teatro e de cinema, Cida Moreira assume sua persona mais intensa na companhia de um piano e de seu repertório que vai de clássicos do cabaret até stardands norte-americanos, passando por uma boa gama de compositores nacionais – dos mais clássicos aos mais jovens. Seu espetáculo seminal é “Summertime”, exibido nas noites de São Paulo em 1980 e lançado como disco em 1981, a partir de uma parceria dos selos Áudio Patrulha e Lira Paulistana – dois pontos importantes da música independente e jovem dos anos 80.

Ponto de encontro de artistas, poetas e boêmios daquela virada de década, o “Summertime” era show cult, o cabaret da noite paulistana – Caio Fernando Abreu, amigo íntimo de Cida, era um dos apaixonados por esse espetáculo. Em sua edição em vinil, virou clássico cult – incluindo as cópias de cor roxa, tão marcante quanto as canções. O disco só foi encontrar outras gerações em 2014, quando a voz de Cida já estava na cabeça de um público mais jovem, após o lançamento de “A Dama Indigna”, em 2011, pela Joia Moderna. A edição de “Summertime” em CD foi feita totalmente de forma independente pela própria Cida. Até que há alguns anos atrás o disco finalmente chegou as plataformas digitais, facinho para ser redescoberto.

Show dirigido e roteirizado por José Possi Neto, “Summertime” surgiu como um show tributo à Janis Joplin, pois em 80 marcava-se 10 anos da morte dela, mas a ideia não era celebrar de forma óbvia, com apenas versões de suas canções, mas sim buscar um “espírito de Janis”, com canções que conversavam com seu universo e sua aura mítica.

Em sua versão lançada no disco, o repertório passa por standards da música estadunidense, como “Good Morning Heartache” (Dan Fischer, Ervin Drake e Irene Higginbothan, 1946), “My Man” (Maurice Yvain e Channing Pollock, 1928) e conta com a faixa-título “Summertime” (George Gerswin e DuBose Heyward, 1935). Ainda traz clássicos como “Mercedez Benz” (Janis Joplin, Michael McClure e Bob Neuwirth, 1970), “California Dreamin’” (John Phillips e Michelle Phillips, 1965) e “She’s Leaving Home” (John Lennon e Paul McCartney, 1967) – essa última é precedida pela clássica fala “agora, chega de sarau. Vamos partir para umas barras mais pesadas!”

Na ala das canções nacionais, três petardos: “Gota de Sangue” (Angela Ro Ro, 1979), “Vapor Barato” (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971) e “Geni e o Zepelim” (Chico Buarque, 1978). Essa última é cantada por Cida na versão original escrita por Chico, antes da censura da Ditadura Militar. A versão final de Chico fala em “Dá-se assim desde menina / Na garagem, na cantina / Atrás do tanque, no mato / É a rainha dos detentos / Das loucas, dos lazarentos / Dos moleques do internato”. Cida canta “Foi assim desde menina / Das lésbicas concubina / Dos pederastas, amásio / É a rainha dos detentos/ Das loucas, dos lazarentos/ Dos moleques do ginásio” – essa versão de Cida fez inclusive atrasar o lançamento do disco, que ficou barrado alguns meses pela censura.

Espécie de álbum cult, muita gente não ouviu, muita gente ainda precisa ouvir, mas o fato é que a figura de Cida está sempre presente nas referências de artistas da nova geração: Hélio Flanders é fã e amigo de Cida, os dois cantam juntos no disco “Uma Temporada Fora de Mim” (2015); Thiago Pethit trouxe Cida para o seu “Estrela Decadente” (2012); nos palcos, ela fez shows com nomes como Filipe Catto e André Frateschi. E, curiosamente, no álbum póstumo “O Trovador Solitário”, 2008, de Renato Russo, ela aparece com ele em um dueto da faixa “Summertime” (gravado em 1984).

Cida, que já havia participado de clássicos do cinema nos anos 80, como “Onda Nova” (Ícaro Martins e José Antonio Garcia, 1983) e “Estrela Nua” (Ícaro Martins, José Antonio Garcia, José Antonio García, 1985), tornou-se agora mais uma vez a estrela cult de jovens diretores de cinema. Nos últimos anos ela apareceu em “O Que Se Move” (2013), de Caetano Gotardo, “Deserto” (2017), de Guilherme Weber, e no já antológico “As Boas Maneiras” (2018), de Juliana Rojas e Marco Dutra.

Mas é aquilo: ser estrela cult e íntegra no Brasil tem seu preço. Nesses 40 anos do lançamento de “Summertime” e completando 70 anos de vida, Cida Moreira já enfrentou muitas das agruras que é se fazer arte no Brasil, mas perante tudo isso ela segue sarcástica e sagaz, produzindo, trabalhando, criando apesar do Brasil e pelo Brasil. Em mais uma celebração de vida, ela lança agora “A Nobreza do Não”, single escrito e produzido por Arthur Nogueira, gravado ao vivo, em voz e piano, e lançado pela gravadora Joia Moderna, de DJ Zé Pedro. Para completar a festa, a capa do single (acima) foi pintada por Gal Oppido (fotógrafo, pintor e um dos integrantes do grupo Rumo) e a faixa ganhou um clipe dirigido por Daniel Cabrel (que você pode assistir abaixo). Vale ouvir, assistir e celebrar a força que há em existir no mesmo tempo que Cida Moreira!

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Faz parte do Podcast Vamos Falar Sobre Música e colabora com o Monkeybuzz e a Revista Balaclava

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