Três filmes italianos de 2021: “Morrison Café”, “Uma Relação”, “Blackout Love”

Os três filmes abaixo integram o 16º Festival de Cinema Italiano, que terá sessões presenciais de 05 a 12 de novembro nas salas do Petra Belas Artes, em São Paulo, e também integram uma mostra online gratuita com 16 filmes inéditos e 16 clássicos, todos liberados para serem assistidos de 05 de novembro até 05 de dezembro em festivalcinemaitaliano.com (basta clicar no poster do filme no site do evento para ter acesso ao conteúdo). 

por Marcelo Costa

“Morrison Café”, de Federico Zampaglione (2021)
Disponível desde o primeiro semestre na Amazon Prime Itália, o quarto filme dirigido pelo músico Federico Zampaglione, líder do grupo de pop rock italiano Tiromancino, é baseado em um romance seu, “Onde Tudo Está Pela Metade” (2017), escrito a quatro mãos com Giacomo Gensini. Conta a história de Lodo (o inexpressível Lorenzo Zurzolo), vocalista da “promissora” (cof cof cof) banda de rock Mob, residente do Morrison, um bar barco ancorado às margens do Rio Tibre, no icônico bairro de Trastevere, em Roma. Eles têm no repertório um (decepcionante) mini hit local e querem alçar voos mais altos. O acaso auxilia e faz com que Lodo cruze o caminho de Libero Ferri (o ótimo Giovanni Calcagno), um cantor muito famoso que está há algum tempo ausente da cena. Daí em diante a trama bifurca buscando realçar a história desses dois homens inseguros em tramas paralelas que irão colocar em xeque a paixão de ambos pela música. Bonito, né? Aparentemente sim. Pena que a atuação de Zurzolo, aliada a um punhado de clichês do roteiro, coloque tudo a perder. O personagem Lodo é praticamente um anti-vocalista de rock, quase um Liam Gallagher sem nenhuma voz muito menos carisma. A timidez em que a atuação decepcionante de Zurzolo e o roteiro afogam o personagem contamina o filme de tédio, e nem as presenças reluzentes de Giglia Marra (atriz que se casou com Zampaglione em 2021 e vive Luna, a esposa de Libero Ferri no filme), Carlotta Antonelli (como Giulia, garota que mora no mesmo apartamento “república” que Lodo, e por quem ele se apaixona) e Giovanni Calcagno (apesar de todo clichê do músico falido) conseguem colocar a trama nos trilhos. No fim, a mensagem “pró-música” soa simpática, e se você pensar na quantidade de bandas insignificantes “perdidas” pelo planeta que nunca vão chegar a lugar algum, mas seguem em frente por paixão à música, até sentirá certa compaixão por “Morrison”, mas não se engane: as bandas insignificantes continuaram sendo insignificantes e “Morrison Café” continuará sendo um triste filme tedioso com poucos momentos que honram, de verdade, a música.

Nota: 3

“Um Relação”, de Stefano Sardo (2021)
Os 10 primeiros minutos de “Una Relazione” são sensacionais. O filme mantém o alto nível na primeira metade, mesmo com alguns exageros, depois acaba seguindo um trajeto tradicional de (bons) dramas românticos, com um desfecho acima da média. De uma maneira interessante, “Una Relazione” é tudo (e mais um pouco do) que “Morrison” gostaria de ser, mas não alcança por falta de… alma e inteligência (presentes aqui). A música é muito melhor em “Una Relazione” (também disponível no Prime Video Italia), da versão doce de “Please Don’t Go” cantada por Valentina Gaia ao delicioso número musical da vernissage passando pelos sons da banda de um dos personagens principais. Os diálogos e as situações também saltam à frente e até os personagens secundários (uma das poucas coisas boas do filme de Federico Zampaglione) se destacam com mais força, com destaque para a impagável interpretação de Libero De Rienzo como Luca em sua derradeira aparição nas telas (tragicamente, ele faleceu em setembro aos 44 anos) – cada vez que abre a boca, Luca solta uma pérola maravilhosa. A trama lança luz sobre um casal (Guido Caprino e Elena Radonicich, excelentes) que, após 15 anos de relacionamento, decide se separar… almejando manter a amizade. Ele é cantor e compositor numa banda independente que nunca estourou, mas tem um pequeno público fiel. Ela é atriz, roteirista e diretora, que estrela pequenos papeis em propagandas comerciais (de gosto duvidoso). De certo modo, as apostas dos dois não deram em nada, inclua-se aí ter filhos. Eles vivem em um belo apartamento em Roma, o único contrato que assinaram juntos durante a história de amor, e o período de venda do imóvel (45 dias) será a areia descendo pela ampulheta no relacionamento deles. Fantasmas, desejos e obstáculos de diversas histórias de amor vividas por todos nós batem ponto na tela, algumas vezes de maneira clichê (como falar dos descaminhos do amor sem soar clichê em 2021? Pesquisar…), e outras de maneira esperta numa trama que vilaniza seus personagens porque, simplesmente, eles são falhos, como todos nós. Não há nenhuma salvação (se você acha que há, bem, é porque você não está olhando direito, mas… continue assim, a cegueira é uma das maneiras mais uteis de felicidade), mas há um pequeno grande filme.

Nota: 8.5

“Blackout Love”, de Francesca Marino (2021)
O ponto de partida de “Blackout Love” é, assim como “Una Relazione”, sensacional: após um término amargo de relacionamento, e um período traumático de esquecer seu ex-namorado pós-pé na bunda, Valeria (a ótima Anna Foglietta) decide que não quer mais relacionamentos duradouros, e começa a enfileiras casos românticos de uma noite, em que assim que sai da casa do amante o bloqueia em todas as redes e parte para outra. Tudo vai bem até que seu ex sofre um acidente, perde parte da memória recente, praticamente um ano (tempo em que os dois ficaram separados, ou seja, voltando ao tempo em que eles estavam juntos), e para auxiliar na recuperação dele, Valeria é escalada a viver novamente aquele relacionamento que não terminou nada bem. Ela praticamente enlouquece num primeiro momento, mas percebe (com a ajuda da melhor amiga) que ao ter a chance de viver novamente os trechos finais daquela história de amor, terá a chance de não apenas fazer tudo diferente, mas, principalmente, se vingar do desgraçado. A grande sacada do roteiro assinado pela diretora Francesca Marino (em seu filme de estreia) ao lado de Tommaso Renzoni e Patrizia Dellea é enxergar essa história de amor com um viés quase que psicológico, pois em grande parte dos fins de relacionamento culpamos o outro pelo destino cruel do romance, sem se atentar que, muitas vezes, também colaboramos para esse (agora) óbvio desfecho. Comédia romântica dramática funcional, “Blackout Love” surpreende com um texto ágil, atuações espertas (Alessandro Tedeschi está excelente com o ex-atual Marco assim como o casal de amigos Silvia e Fabrizio – Barbara Chichiarelli e Alessio Praticò – são responsáveis por conceder leveza ao roteiro com ótimas tiradas cômicas), boa música, momentos deliciosos e romance água com açúcar na medida certa, sem exageros. Em um filme que começa bastante denso e intenso e, com o tempo, vai suavizando, “Blackout Love” tem o mérito de fazer o espectador analisar a sua própria história de maneira discreta, divertida e inteligente. É muito mais do que uma comédia romântica costuma entregar, vai.

Nota: 7

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne.

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