Três animações: “Luca”, “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas”, “Ron Bugado”

 por Marcelo Costa

“A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas”, de Mike Rianda (Sony/Netflix, 2021)
Projeto da Sony Pictures planejado para chegar aos cinemas no segundo semestre de 2020, “Connected” foi atropelado pela pandemia da Covid-19 (como todos nós) e teve seus direitos de distribuição vendidos para a Netflix, que optou pelo nome favorito dos produtores (“The Mitchells vs. the Machines”) e estreou a animação em abril de 2021. Tematicamente não há nenhuma novidade aqui, mas o roteiro (assinado pelo diretor Mike Rianda ao lado de Jeff Rowe) utiliza todos os clichês batidos dos dois temas a seu favor: de um lado temos uma família simples enfrentando… problemas de família; do outro, máquinas querendo dominar o mundo. Calma, você já viu tudo isso em outros filmes sim, mas, acredite, vale a pena ver mais uma vez. No lado família temos um pai metido a carpinteiro, que leva sempre no bolso uma chave de fenda e mal consegue ligar um computador e uma filha que sonha em ser cineasta, posta filmes na internet, participa de fóruns e acaba de ganhar uma bolsa para estudar cinema na Califórnia. Sim, o velho embate do velho contra o novo, que aqui é colocado em ebulição quando, na véspera da viagem, o pai quebra o computador da filha. Temendo que ela o odeie para o resto da vida, o pai cancela o voo da garota e propõe levá-la de carro ao lado da mãe, do irmão pequeno e do cachorro da família numa autêntica road trip estadunidense. Enquanto isso, no outro espectro da trama, um desenvolvedor está apresentando a atualização de sua nova linha de robôs de inteligência artificial quando um robô da linha anterior se revolta, toma o controle, e promove uma revolta das máquinas. A raça humana está condenada ao extermínio e quem irá nos salvar? Isso mesmo, a família Mitchell, mas antes de salvar o mundo eles irão precisar salvar a própria família, certo (avisei que era clichê). Crítica esperta a um mundo hiperconectado que, na outra ponta, defende o bom uso da tecnologia, “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas” diverte do pequeno ao marmanjo.

Como foi ver com um garoto de menos de 3 anos
Encontramos o filme zapeando e mergulhamos sem muitas informações porque o pequeno adora robôs (em 5º lugar – em 1º, 2º, 3°e 4º são carros) e se animou assim que viu a ilustração do filme na tela. Ele não é daqueles garotos que se animam com cenas de sustos ou lutas, mas se apegou aos robôs que ajudam a família e grudou os olhos na televisão (não quis ir pra cozinha comer bolo de chocolate – como fez, com razão e um pouco de medo, na metade do segundo filme de “Harry Potter”). Saldo final positivo: foi uma das animações que ele mais curtiu.

Nota: 7

“Luca”, de Enrico Casarosa (Pixar/Disney+ 2021)
Outro filme que estava previsto para estrear nos cinemas e teve seus planos alterados devido a pandemia da Covid-19, “Luca”, produção da brilhante Pixar Animation Studios com distribuição da Walt Disney Studios Motion Pictures, não sofreu nenhum atraso em seu calendário, mas estreou diretamente na plataforma Disney+ em junho de 2021. Como grande parte do acervo maravilhoso da Pixar, uma empresa especializada em fazer animações para adultos, “Luca” tem muitas mensagens em suas entrelinhas, muitas delas atreladas sabiamente a inclusão. Na trama, Luca, um garoto monstro-marinho, vive no fundo do mar pastoreando peixes para a família, que o alerta constantemente dos perigos de subir para a superfície, no mundo dos humanos. Ele vive na costa da Riviera Italiana (por isso, preste atenção as homenagens a Vittorio De Sica, Federico Fellini e Leonardo da Vinci, entre outros) e, certo dia no fundo do mar, conhece um garoto monstro-marinho mais velho, que vive sozinho na superfície, e o encoraja a ir ao mundo externo, contando-lhe que os monstros marinhos tomam a forma de humanos quando fora d’água. Luca segue Alberto, encanta-se por uma Vespa (sim, a scooter) mas é descoberto pelos pais, que ameaçam mandá-lo viver com o tio em uma região afastada. Assustado, Luca foge com Alberto para a vila na superfície desejando comprar uma Vespa e sair pelo mundo. Na vila, a dupla se estranha com o valentão da cidade, pentacampeão do triatlo infantil local, e é salva por Giulia, filha de um pescador que (não tem um braço e) sonha em caçar monstros-marinhos. Uou, muita informação, né? E é só o começo. Porém, melhor deixar você descobrir, porque o que importa aqui é louvar os aspectos de inclusão brilhantemente inseridos no filme, valorizando a amizade e todas as pessoas, mesmo que qualquer uma delas pareça diferente. A receita é simples: é possível superar as diferenças com a convivência (o mesmo tema de “Tangerines”, um belo filme sobre a Guerra na Géorgia, na região do Caucáso, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2015). Com leveza, a Pixar acertou mais uma vez.

Como foi ver com um garoto de menos de 3 anos
O pequeno estranhou o monstro-marinho no começo, mas ficou encantado com a Vespa, que ele passou a identificar e admirar nas ruas. Ficou levemente assustado com as cenas de perseguição (principalmente com as de perseguição a monstros-marinhos), mas aparentemente gostou… não tanto quanto “A Família Mitchell e a Revolta das Máquinas”, o que deixa exposto quanto as histórias da Pixar são mais para adultos do que para crianças – e não estou nem falando do deslumbrante “Divertida Mente”, uma obra prima de animação adulta, mas de “Toy Story” mesmo (não tente ver o 1 com seu/sua pequeno/a: é macabro demais! E eu tinha me esquecido disso…)

Nota: 8,5

“Ron Bugado”, de Sarah Smith e Jean-Philippe Vine (20th Century Studios/Locksmith 2021)
Com estreia mundial nos cinemas em outubro passado (e ainda em cartaz no Brasil), “Ron’s Gone Wrong” (título original) lança luz sobre Barney, um garoto nada popular na escola que mora com o pai (que vive de vender bugigangas) e a avó búlgara numa cidadezinha dos Estados Unidos. A última moda tecnológica são os B-bots, robôs (levemente semelhantes ao R2-D2 da franquia “Star Wars”) projetados para crianças cuja função e conectá-las a internet ajudando-as a fazer amigos, e todos na escola de Barney tem um, menos ele. Percebendo o desejo do filho, o pai de Barney tenta comprar um na loja oficial da marca, mas o estoque está esgotado e a fila de espera é de três meses. O pai é salvo pelo motorista do caminhão da empresa, que vende a ele (por baixo dos panos) um B-bot que caiu do veículo, e está danificado (daí o nome “Bugado” do título). Barney fica feliz com o presente, mas logo percebe que há algo errado: ao contrário dos robôs de seus amigos, que se conectam a internet, fazem selfies/vídeos e as distribuem nas redes sociais atrás de likes e amizades (conhecendo cada detalhe de suas vidas virtuais – você assistiu “Be Right Back”, episódio antológico de “Black Mirror”?), o robô de Barney travou na letra A do dicionário (tanto que o chama de Ambrósio), não se conecta à web, mas tem todos os controles parentais destravado, o que permite ao garoto “ensinar” ao robô o que ele precisa saber sobre seu dono tanto quanto “usa-lo” para se vingar dos garotos que praticam bullying na escola. Critica voraz a um mundo que permite que crianças se viciem em telas a ponto de não saberem como é a vida sem um celular ou tablet, “Ron Bugado” também ataca o controle assustador de informações que grandes corporações tecnológicas mantêm sobre os usuários, e faz tudo isso soando… (1, 2, 3) educativo. A inspiração da diretora (e roteirista) Sarah Smith foi “Her/Ela”, de Spike Jonze, que fez com que ela pensasse em fazer um filme semelhante… para sua filha pequena, vidrada em iPads e querendo consumir tudo que via na tela. O resultado é um filme brilhante e necessário, ainda que feito mais para pais do que para filhos – que, sim, vão se divertir com a história.

Como foi ver com um garoto de menos de 3 anos
Mostrei ao garoto os trailers de “A Família Addams 2: Pé na Estrada” (2021) e “Ron Bugado”, e ele escolheu o segundo por causa dos robôs – acho que ainda bem. Em sua segunda ida ao cinema (ainda pré-pandemia o levamos para ver “Rei Leão” numa sessão Cine-Materna), ele se encantou com o tamanho da tela, mas o horário não ajudou: em casa começamos a ver filmes entre 18h e 19h já pensando em emendar com o sono das 21h. O cinema, sessão das 13h30, bateu exatamente com o desejo do soninho pós almoço (que chega por volta das 12h45), e ainda que ele tivesse aparentemente curtindo, capotou no colo dos pais no começo do terceiro ato, e acordou quando tentei ajeitá-lo no colo assim que as luzes se acenderam. No taxi, a caminho de casa, quando instigado, começou a falar das coisas que tinha gostado no filme, concluindo: “o garoto ficou sozinho na floresta” (última cena antes dele dormir). Como é, aparentemente, cedo demais para ele encarar um drama pesado naipe “Na Natureza Selvagem” (2008) revelei o resto da história e prometi assistir de novo com ele. “No cinema?”. Não, quando estiver disponível em casa, filho. Nada bobo ele…

Nota: 8

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne. 

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