Faixa a faixa: Guto Ginjo apresenta “Sobre o Que Tem Pra Depois”, seu álbum de estreia

introdução por Renan Guerra
Faixa a faixa por Guto Ginjo

“Sobre o Que Tem Pra Depois” costura sonoridades. Tendo como base o rock, Guto Ginjo passeia pelas referências do folk, do rock de diferentes décadas e do cancioneiro nacional dos anos 70, aquele híbrido entre MPB, rock e o que mais pintasse. É um caldeirão que se homogeneíza a partir das composições do artista, que seguem um tom pessoal, sobre cenas cotidianas e reflexões de botequim, como que entre amigos.

De Joinville, Santa Catarina, Guto é também vocalista da banda Fevereiro da Silva e “Sobre o Que Tem Pra Depois” é seu primeiro disco completo solo. Para esse projeto, o artista contou com uma verba arrecadada através de um financiamento coletivo realizado em 2019; pelos atropelos da pandemia, seu disco só ganhou as plataformas digitais agora em 2021.

Com produção do próprio Ginjo e de Tiago Luís Pereira, “Sobre o Que Tem Pra Depois” é uma viagem bastante pessoal por lembranças, amizades, amores e trocas. Por isso mesmo vale a pena conferir a apresentação de Guto Ginjo para cada uma das faixas de seu disco, detalhando processos, expandido leituras, para que assim você possa mergulhar nesse universo pop-rock-alternativo que ele nos propõe.

Confira o faixa a faixa na íntegra abaixo:

01) Boa-Nova – A maioria das faixas do disco retratam momentos, experiências, dilemas da vida. São temas que frequentemente aparecem em minhas canções. “Boa-Nova” é uma delas. Porém, é uma música que fala de momentos otimistas, quando a gente se sente cheio de confiança para realizar as coisas e encarar os desafios que vêm pela frente. Essa é a novidade, a boa-nova a ser transmitida. A composição surgiu a partir do riff inicial e a ideia era fazer uma faixa direta, com uma forma simples de estrofe e refrão. Quando me reuni com a banda para começar a produzir os arranjos, ela foi fluindo muito naturalmente e logo ganhou a cara que está no disco, com percussão, guitarras e violões. Ela abre o disco de propósito. Parece representar bem tudo que foi realizar esse projeto, desde o financiamento coletivo até o lançamento das músicas.

02) Constelar – Foi uma das últimas músicas compostas para entrar no disco. A inspiração para a letra são as transformações que alguém passa a partir de alguma experiência marcante. Foi da letra dessa música que surgiu também o nome do disco, especialmente da frase “quero o que tem pra depois”. Sempre estou ouvindo muita música. E quando começamos a tocar “Constelar” com a banda, eu estava numa fase Oasis e Radiohead. Então, logo buscamos guitarras mais distorcidas para algumas partes, mas também alguns momentos de calmaria.

03) Desacelera – Ela surgiu a partir da ideia de um diálogo entre duas pessoas próximas que são diferentes, mas buscam se entender, compreender um ao outro e estender uma mão para ajudar. Podem ser dois amigos, namorados ou irmãos. Os acordes e a forma como foi tocada pode remeter a “blackbird”, dos Beatles. Mas confesso que tem muito mais de Wilco do que qualquer outra coisa. Eu bebo muito da fonte Jeff Tweedy e sua turma. O curioso é que os acordes iniciais surgiram muito antes de se tornar “Desacelera”. Durante um tempo participei de um projeto de pesquisa onde minha função era criar uma trilha sonora no violão enquanto a pesquisadora realizava entrevistas com as pessoas. Dependendo do clima da entrevista, eu viajava numa sequência harmônica que combinasse com aquele momento. Aí uma delas virou música mesmo.

04) Pássaro-Homem – Olha, posso dizer que em relação aos elementos que inspiraram a letra dessa música, ela é irmã de “Boa-nova”. É mais uma música otimista do disco, daquela pessoa que está se sentido cheio de si, confiante e de bem com tudo. Quando foi composta, ela tinha uma levada diferente daquela que entrou no disco. Eu tive a sorte de contar com grandes amigos que também são excelentes músicos para arranjar essas músicas, e com “Pássaro-Homem” eles foram fundamentais. Nos ensaios, Tiago Luis Pereira (bateria) e Junior Gonçalves (guitarra) começaram a desenvolver a ideia de começar ela com um ritmo mais brasileiro, flertando com o Xote, e logo chegamos ao resultado que pode ser ouvido no álbum.

05) Na hora da queda – Gosto bastante dessa música. Tem um ritmo diferente do restante do disco e por ter sido uma composição num formato diferente do que geralmente estou acostumado a fazer. Ela começou pela letra e só depois surgiu a melodia e os acordes. Mas o curioso é que a ideia da letra veio de uma história que eu havia lido em um portal de notícias sobre a preparação de um lutador antes de uma luta num campeonato amador. Então, toda a letra é na perspectiva de alguém que está no ringue, enfrentando seu oponente. Mas, se for ver, essa história funciona bem como metáfora pra vida. Foi a música que chegou “mais pronta” e desde os primeiros ensaios ela já tinha uma direção bem definida, as partes, as ideias de solo e etc. E também foi a primeira música a ser lançada, como single.

06) Somos de maio – Gosto de dizer que essa música é a canção de amor com endereço certo do disco. Com endereço certo, pois fiz para minha companheira de vida, minha esposa, com quem tenho um relacionamento duradouro. Essa história começou em um mês de maio, há muito tempo, e se fortaleceu ao longo dos anos. “Somos de maio” é um relato de como um casal pode ser a base um do outro, o suporte, a fortaleza, que dividem juntos os melhores e os piores momentos. É uma música calma, suave, mas cheia de elementos que nas outras músicas não aparecem, como um arranjo de violino.

07) Casa 41 – Essa música tem uma história legal. Comecei a escrever a letra como um poema e a inspiração foi o texto “a poética do espaço”, de Bachelard. Esse material fala de memórias, lembranças e assim por diante. Aconteceu que quando comecei a fazer a música, eu ainda não tinha terminado a letra. Enquanto criava a melodia, os acordes e completava a letra, percebi que eu não estava mais falando do texto em si, mas, sim, resgatando as minhas memórias e os momentos que passei na casa de praia da família, a Casa 41 de uma determinada rua na praia de Ubatuba, São Francisco do Sul. Todos os meus verões nos últimos 26 anos foram passados nessa casa, com primos, tios, amigos e muito afeto. O legal é que muitas pessoas, depois de ouvirem a canção finalizada, contaram que se identificaram justamente por terem vivido momentos assim em algum período de suas vidas.

08) Breve – Eu gosto do resultado final dessa música, a versão que está no disco. A letra dessa música é antiga, de 2012. Naquele ano, muito se falava de fim do mundo, catástrofes naturais e etc. Aí comecei a escrever sobre isso. Mas eu não tinha musicado essa letra ainda. Então, quando comecei a pensar no projeto do disco, resgatei a letra e fiz uma primeira versão bem melancólica, numa tristeza só. Mas mais uma vez a versão feita com a banda ficou bem melhor. A ideia foi desconstruir ritmicamente o que eu tinha feito. A harmonia é a mesma, mas o ritmo não. E eu amei o resultado final.

09) Conto do Vigário – É sobre como me sinto em relação ao atual cenário em que vivemos. A letra é direta nesse sentido. Musicalmente foi influenciada por Iggy Pop. Legal é que a gente tenta mirar uma sonoridade, mas acerta outra coisa que não sei dizer. Mas eu estava ouvindo muito o disco “Post Pop Depression” e quando comecei a compor ela foi meio que inevitável. Acho que isso acontece muito, né?! Esse lance de se inspirar em outros sons, discos, timbres.

10) Turbilhão – Foi a última música composta. Pensada para fazer parte do repertório do álbum mesmo. E também uma tentativa de soar mais jazzístico, para saciar uma vontade minha de tentar tocar esse rico estilo musical. Eu curto sons melancólicos, tristes, calmos. Essa música foi nesse sentido. A inspiração veio depois de assistir a filmografia do trompetista Chet Baker, interpretado pelo Ethan Hawke. A segunda fase da carreira do Chet, depois do incidente que debilitou sua embocadura, ficou marcada pelas melodias suaves e notas longas. O filme me tocou e fiquei com essa referência alguns dias na cabeça, até decidir compor inspirado na história.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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