Entrevista: A nova fase de Pratagy

entrevista por Renan Guerra

O isolamento social e a falta de shows fizeram com que o paraense Pratagy se voltasse para os instrumentos que tinha a mão em casa: o violão e o piano se tornaram seus companheiros e deram vida a novas composições, calcadas numa simplicidade rítmica. “Te Amo” e “Um Objeto no Céu” foram os dois singles lançados pelo artista ainda no primeiro semestre de 2021, mas ele tem outras canções na gaveta.

Entre composições em casa e gravações curtas, Pratagy também lançou sua loja com camisetas e outros artigos relacionados a suas canções. Foi com a venda desses artigos que ele conseguiu pagar a gravação dos novos singles e é a partir dessa movimentação independente que ele planeja os lançamentos futuros. Em paralelo, e com apoio da lei Aldir Blanc, o artista gravou um show intitulado “Te Amo: Sessão Ao Vivo” com três músicas registradas com banda completa, em um único take, dirigido por Lucas Domires.

Formado em música pela Universidade Federal do Pará e com nove anos de história na música independente paraense, Pratagy se vê hoje mais maduro e com foco em desenvolver uma carreira sustentável em Belém. Mas além disso, ele também se vê conectado com artistas de diferentes regiões em criações conjuntas e trocas artísticas que expandem seu universo de criação.

Em conversa virtual com o Scream & Yell, Pratagy falou sobre o tempo de distanciamento social, suas composições, suas inspirações e suas trocas artísticas. Confira o papo na íntegra:

Pra começar, eu gostaria de saber como você está? Como tem sido esse tempo de distanciamento social, o que você tem feito?
Então, ano passado quando começou a pandemia e veio aquele primeiro lockdown, eu fiquei sozinho em casa – eu moro com a minha irmã, mas fiquei sozinho, ela não estava – e aí foi bem puxado. Fiquei alguns meses aqui só eu e eu mesmo. Agora as coisas no contexto todo deram uma piorada, mas confesso que assim, na minha vida pessoal, elas começaram a se encaminhar um pouco melhor, mas é isso, por aí.

Acho que com o tempo a gente consegue se organizar melhor, se acostumar de algum modo a esse universo e tentar achar o caminho para alguma coisa acontecer. E nesse sentido você acabou também compondo coisas nesse tempo em que você estava sem fazer shows, sem produzir. Como foi esse processo de compor de uma forma mais sem ter o espaço de tocar com a banda?
Então, nos meus últimos trabalhos eu vinha trazendo cada vez mais essas influências da música eletrônica. No álbum de 2019 [“Pratagy”] me inspirei muito em house, em R&B, pra compor. E acabou que com esse contexto todo me vi voltado ao piano e ao violão, e comecei a praticar bem mais o piano. Essas canções começaram a surgir de uma forma mais acústica, assim por dizer, mais simples. E passei a focar mais na melodia e na letra, nas mensagens, nos sentimentos que eu queria passar e fiquei longe do computador, não produzi nada no computador. Primeiro deixei as músicas prontas, na letra, melodia e depois mandei pro meninos, pra gravarem à distância. “Um Objeto no Céu”, por exemplo, a bateria e o baixo, que foram gravados pelo Jean [Ramos] e pela Rayssa [Almeida], amigos meus de Goiânia, que tocam com a Bruna Mendez, gravaram de lá as coisas e mandaram, então a gente nem precisou ensaiar. Foi bom porque essa coisa do isolamento social impediu de eu me reunir com a minha banda daqui de Belém. Então, acho que uma das coisas da quarentena é que me trouxe essa aproximação da canção, sabe? E menos dos arranjos complexos e tal.

“Um Objeto no Céu”, que você citou, foi composta depois que você assistiu ao filme “Aquarius”, é isso? Queria que você contasse um pouco dessas história e de como que nasceu essa música.
Então, eu ainda não tinha assistido esse filme do Kleber Mendonça Filho, aí assisti durante a quarentena no ano passado e fiquei impactado com a narrativa que ele traz, que é essa questão do indivíduo contra o sistema. O indivíduo reinvindicando, na verdade, aquele lugar que é dele, que no caso do filme é o lugar físico, é um apartamento, mas sei que esse lugar pode ser muitas coisas, aquilo é um símbolo que o diretor usa e o sistema que procura tirar essas pessoas do lugar delas de acordo com os seus interesses. Então, pensando nisso, comecei a escrever essa música, eu já tinha uma melodia, escrevi o refrão que fala “Não quero ir, não quero voltar, eu sei que aqui é o nosso lugar, se você vem fica tudo em paz”. Pensando nessa questão do lugar. E também fazendo uma reflexão minha em relação ao meu lugar aqui na minha casa em que estou agora, que me mudei faz poucos anos, e essa mudança representa também várias coisas na minha vida, como o fato de eu me colocar como artista e definir isso como a minha carreira, como a minha vida e estar aqui nesse apartamento diz muitas coisas sobre isso e claro que a quarentena intensificou esses sentimentos meus e acabou que eu acho que essa música fala um pouco sobre isso.

Você mora em Belém?
Isso.

Mas você é natural de Belém ou do interior?
Sim, sou de Belém, capital.

Essa canção que você está lançando, vocês também apresenta ela numa session que foi gravada ao vivo, e aí você reencontrou a banda, eu queria entender um pouco como foi pra você essa sensação depois de tanto tempo de voltar a estar junto?
Essa session aconteceu por causa da lei Aldir Blanc, aqui do Pará. Eu tinha escrito um projeto primeiro que era pra fazer um show acústico, como te falei, daquela pegada de como as canções surgiram, que era no violão, no piano, mas depois pensei “vamos usar essa oportunidade aqui para juntar a banda”, que é o Emmanuel [Penna] na bateria, Rafaela [Lobato] no baixo e Lucas [Torres] na guitarra. E a gente não tocava já há quase um ano, o último show foi no Sesc daqui, em março de 2020. Foi muito legal, porque quando a gente começou a tocar essas músicas novas, “Te Amo” e “Um Objeto no Céu”, saiu muito fácil, parece que essas músicas estavam pedindo para serem tocadas num arranjo de banda, sabe? Porque a gente passou muito tempo tentando decifrar como tocar os arranjos das outras músicas do álbum de 2019, por exemplo, que eram carregadas de instrumentos e muitas vezes a gente usava backing tracks, que é aquele auxílio ao vivo, e quando a gente começou a tocar essas músicas novas saiu muito fácil, o clima foi muito bom, sabe? Eu tô doido para poder fazer um show completo, com plateia e tudo, nesse formato dessas músicas novas, quarteto e tal, vai ser legal

Você falou sobre a lei Aldir Blanc e, na sua carreira, há diferentes processos relacionados a existir enquanto um artista independente: você já trabalhou completamente independente, já trabalhou com o auxílio da lei de incentivo, do Natura Musical, da lei Aldir Blanc, e agora você também está nessa fase produzindo materiais de divulgação próprios pra criar essa rede de autosustentação. Eu queria que você falasse um pouco sobre esses caminhos que você tem encontrado para poder produzir a sua música da forma mais livre e mais independente, porém de uma forma sustentável.
Eu tava recapitulando aqui: comecei o meu trabalho só em 2016, faz uns 5 anos e fiz meio que quase de tudo assim, já lancei de todos os jeitos possíveis. Comecei de forma totalmente independente, bancando do meu bolso os trabalhos, com “Pictures” (2016) e “Búfalo” (2017), consegui nesse álbum “Pratagy”, de 2019, o patrocínio da Natura Musical, o que foi experimentar um pouco da outra realidade de fazer um disco, de trabalhar. E agora fiz as camisetas do meu trabalho, comecei a vender merch on-line mesmo, porque pensei o seguinte: sem show, que é basicamente a grande parte da receita de um artista hoje em dia, eu precisava me movimentar, então lancei uma loja on-line e comecei a vender essas camisetas e coloquei metas ali, (algo como) “se eu vender tantas camisetas, vou gravar um single, mixar, masterizar” e comecei fazendo isso. Aí lancei “Te Amo” em março e agora tô lançando “Um Objeto no Céu” por esse mesmo esquema. Acho que o importante é nunca parar do que só ficar esperando alguma oportunidade assim de patrocínio. Consegui a lei Aldir Blanc para gravar esse vídeo que foi muito legal, mas no fundo não importa assim, eu só continuo e tento encontrar novos meios. Uma coisa que eu queria experimentar era o lance do crowndfunding, mas tô estudando ainda como é que eu faria isso.

Ah sim, mas nesse caso você está pensando para fechar um disco, uma coisa assim mais robusta?
Sim, sim.

Você falou do single “Te amo”, que também foi lançado já nesse espaço de distanciamento social, e ele ganhou um clipe muito legal dirigido pelo Rollinos. Eu queria que você falasse um pouco sobre essa troca com ele, pois ele tem uma estética muito específica, uma coisa que você enxerga e já sabe que é do Rollinos.
Acho que foi em 2018, em 2019, que eu assisti um show do Boogarins, aqui em Belém, no festival Se Rasgum, e tava rolando um video mapping bem louco, umas transições bem loucas, e eu já conhecia a Alejandra, que estava fazendo o som deles, ela tinha mixado o meu álbum, e aí eu quis saber quem é que estava por trás dessa loucura audiovisual e era o Rollinos. A gente começou a se seguir no Instagram, se conheceu, começou a trocar ideia e perguntei pra ele se ele tinha interesse de fazer alguma coisa, de a gente, sei lá, pensar num videoclipe. Mandei a música “Te Amo” pra ele, ele curtiu e acabou que a gente fez uma animação, que é uma parada que ele começou a fazer há pouco tempo. Não é muito aquela vibe do glitch que ele também faz, mas mistura ali também. E foi legal trabalhar com ele, ele é um cara que assim é meio que um ídolo meu, já trabalhou com vários artistas que eu adoro, o Boogarins, por exemplo, o Metronomy, e eu estou vendo que ele está trabalhando com um monte de gente agora Brasil afora e do mundo. Adorei ter feito o clipe assim em animação, primeiro porque tenho um problema de ser filmado, de fazer um videoclipe com a minha cara, então foi ótimo ficar em casa e aí o videoclipe está pronto e eu não apareço. [risos]

Assim como com o Rollinos que você trabalhou à distância, você falou que uma parte das gravações do último single também foi à distância. Você sente que de algum modo o fato de todo mundo estar parado, sem fazer shows, em casa, também propicia que você consiga trocar com essas pessoas muito à distância, que às vezes você não teria tempo ou espaço para conseguir construir algo com elas?
É, eu fico pensando aqui se não tivesse nesse contexto, eu não teria trabalhado com o Jean e a Rayssa e que saiu muito legal, eu adorei trabalhar com eles, foi uma coisa super tranquila de fazer e vamos fazer mais inclusive. Mas acho que tem algumas condições para isso funcionar, sabe, porque acho que encaixou bem a vibe deles dois como músicos e as coisas que eu estava pensando, então nem precisava ficar explicando muito “ah, em tal parte faz tal coisa”, eles já iam sentindo o clima da música e pensando nas mesmas referências que eu já tinha pensado e aí saía. Eu acho que, por exemplo, o processo com o Rollinos foi a mesma coisa, a gente foi pensando coisas ali um lendo a cabeça do outro, né? Mas acho que trabalhando com outras pessoas que talvez já sejam um pouco distantes assim do universo musical ou de referências, talvez já seja um pouco mais complicado, mas vale a pena experimentar, não sei.

Você falou desse universo de referências, e o que você andou escutando, lendo, vendo nesses últimos tempos que acabou te deixando com alguma inspiração, digamos assim?
É engraçado, eu falo isso para minha irmã, que eu não escuto mais música, estou com uma dificuldade de encontrar músicas novas que eu pire mesmo, acho que a coisa que eu estou escutando agora, que eu voltei a gostar de escutar foi a St. Vincent. Ela lançou um álbum novo que tem essa pegada setentista e eu acho interessante, porque essas referências setentistas foram uma coisa que procurei agora nessas músicas, com o piano elétrico e o timbre da bateria e coisas ali que aproximam do trabalho do Roberto Carlos nos anos 70, gosto muito de Rita Lee naqueles discos clássicos dos anos 70 também. Nessa faixa “Um Objeto no Céu” tem um pouco daquela coisa meio, não sei se classic rock, mas inspirada no John Lennon, essa coisa da balada e tal. Nunca fui tão fã do John Lennon, mas nesse último aniversário dele que eu acho que foi de 80 anos, comecei a sentir mais, sabe? E aí escutei pra caramba e pensei “poxa, isso aqui é bem legal, essa coisa do piano”. O Commodores também, aquela música “Easy” eu acho que tem uma pegada parecida. Uma das bandas que traz essas referências setentistas atualmente no Brasil é O Terno, também tem o Shintaro Sakamoto, do Japão, tem essas referências legais, são coisas que eu escuto bastante, mas confesso que na hora de escrever uma música eu não estou pensando muito num disco específico ou num artista, às vezes é mais na hora de gravar, na hora de mixar, aí eu penso em alguma sonoridade.

E também às vezes eu acredito que você tem essa percepção do que te influenciou depois do que já foi feito, pois pode ser tão natural. E ainda às vezes pode não ser você que percebe, às vezes as outras pessoas ouvindo vão sacar essas coisas, mas na hora de você compor acho que tem que ser mais fluido, sem você ter que ficar pensando quero ir por aqui ou tenho que ir por aqui, não é?
Sim. É engraçado, às vezes as pessoas trazem referências que eu nunca pensei, mas são coisas que eu gosto. Então eu penso: em algum lugar, lá no fundo da minha cabeça, isso emergiu ali.

Eu acredito que tem coisas que ficam guardadas aqui e a gente nem percebe. Por exemplo, uma das últimas coisas que eu fiz antes de começar o distanciamento social foi ver a exposição do Bob Gruen com fotos do John Lennon em Nova York e eu fiquei muito mexido. Assim como você falou, eu não era fã do John Lennon, não sou uma pessoa super entendida da história do John Lennon, mas aquilo está tão natural na nossa memória afetiva, você vê aquilo tanto que eu entrei no universo daquelas fotos e fiquei assim “gente, isso faz parte da nossa construção de algum modo” e aí parece que a gente fica distante disso.
Sim, é louco, eu passei a ver as músicas dele, algumas músicas, como algo que – parece meio clichê falar isso – é meio que maior do que uma música, como se fosse algo sólido na sociedade, sabe? Pro bem ou pro mal, não fazendo um julgamento aqui, mas é isso, comecei a pensar dessa forma.

Agora você falou que você está com esse projeto de tentar colocar metas de venda para produzir coisas, você já está com novas metas?
Então, agora eu estou pensando nos próximos passos. Eu tenho, no total, 6 ou 7 faixas ali que fariam parte de um álbum, contando com essas duas que eu já lancei no primeiro semestre. E o que eu queria é lançar esses 6 ou 7 faixas ali no segundo semestre, o negócio é que o processo de gravar e de mixar, masterizar, tudo é caro, né? Então eu teria que vender muitas camisetas para conseguir fazer. Uma das coisas que eu estou estudando é o financiamento coletivo, mas não sei, ou segundo semestre ou ano que vem mesmo, mas quero muito lançar esse disco com seis ou sete faixas, porque acho que todas elas têm uma coesão ali que nasceram juntas nesse período do ano passado e tem essa pegada de instrumento, essa coisa setentista que a gente vem falando. E tem coisas novas, tem uma música que eu compus que é um xotezinho, tem triângulo, é meio forró, umas coisas que já estão até meio que gravadas. Essa música, por exemplo, eu aproveitei as sessões das músicas que a gente já gravou e já gravei boa parte delas, mas de fato eu não tenho como prometer um álbum, eu quero muito fazer, mas não sei quando.

É normal, mas nesse mundo atual a gente tenta planejar as coisas, mas a gente não sabe até que ponto a gente vai poder colocar elas em prática.
Sim, sim, total.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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