Documentário: “White Riot – O Rock Contra o Racismo”

por Otávio Augusto

Durante os anos 1970, a crise econômica mundial sacudiu uma Inglaterra governada por um Partido Trabalhista (1974 – 1979), cada vez mais, refém dos direcionamentos de austeridade fiscal propostos por organismos internacionais como o FMI. Esse transformismo criou uma grave instabilidade econômica e um intenso descontentamento social. O crescente desemprego entre os mais jovens e a desigualdade de renda se intensificavam drasticamente e fomentaram o surgimento de uma extrema direita racista e xenófoba.

Nesse cenário, surge uma profunda efervescência cultural alimentada por essa desolação juvenil. Ao mesmo tempo que o movimento punk atraia jovens descontentes com os rumos da vida naquele cenário (afinal, No future!), a Frente Nacional (N.F), de nítidas características fascistas, organizava passeatas e recrutava jovens para reproduzir o discurso da “Inglaterra branca e pura”, “contra o comunismo”, “contra a entrada de negros e asiáticos”, pois eles seriam os grandes responsáveis pela crise social e econômica naquele contexto.

“White Riot – O Rock Contra o Racismo” (2020), documentário da diretora e roteirista britânica Rubika Shah, a explora a importância do movimento que ficou conhecido como RAR (Rock Against The Racism / Rock Contra o Racismo), que se posicionou contra a onda fascista liderada pela Frente Nacional (National Front, N.F) na Inglaterra dos anos 1970 (e contra Eric Clapton, já “deus da guitarra”, que, num show, disse que o Reino Unido estava “superpovoado” e que era preciso votar em um conservador para evitar que o país se tornasse “uma colônia negra”. Depois, gritou repetidamente o slogan da Frente Nacional “Keep Britain White” (“mantenhamos a Grã-Bretanha branca”).

Infelizmente, como demonstra o documentário, Eric Clapton (que não mudou nada de lá pra cá) não estava sozinho: a N.F também teve apoio (direto e indireto) de artistas como David Bowie e Rod Stewart. Já o vínculo do punk com as questões sociais era inevitável. Como afirmou Joe Strummer: “Se houvesse empregos poderíamos cantar sobre amor e beijos”.

A imprensa tradicional veiculava mensagens racistas e conservadoras diariamente, criando o medo do imigrante. “Estão nos sitiando” e “em 10 anos seremos uma colônia” eram as mensagens estampadas em jornais ingleses no ano de 1977. A perigosa onda conservadora crescia e se tornava mais violenta.

Para reagir a ela e travar a batalha cultural necessária contra a violência do discurso da Frente Nacional foi organizado o movimento Rock Against The Racism (RAR), que resultou em um show para 80 mil pessoas em Victoria Park, leste de Londres. O encontro contou com nomes do punk, do ska e do reggae. Tocaram naquela tarde The Clash, Steel Pulse, Sham 69 (talvez o show mais marcante, pois a banda tinha inúmeros fãs simpatizantes da NF) e Tom Robinson.

A maior parte do documentário é narrada pelo produtor e fotografo Red Saunders, organizador do RAR e ativista contra o movimento fascista da Frente Nacional. Foi dele a ideia de organizar um evento que reunisse os nomes mais importantes da música jovem contra o discurso fascista que tomava corações e mentes e avançava pelos subúrbios de Londres. No intervalo entre os shows em Victoria Park, Saunders gritou ao microfone: “This is the carnival against the fucking Nazis!”

A importância do movimento criado por Saunders é sem precedentes naquele contexto, o sentimento de contestação e de efervescência política criava um ambiente confuso e apesar do entrelaçamento evidente entre o punk e a música negra (sobretudo o reggae), o RAR foi responsável pelo posicionamento necessário para que aquela potência cultural não fosse capturada pelo discurso violento da extrema direita (é emblemática a imagem de Sid Vicious com uma suástica estampada em sua camiseta) e enfrentasse a Frente Nacional.

A riqueza das imagens do movimento e do show lotado de jovens segurando cartazes de luta contra o racismo e as opressões de uma sociedade inglesa em crise são essenciais para fazer justiça a sua atualidade. O impacto gerado por aquele posicionamento entre os jovens foi fundamental para enfrentar e enfraquecer a Frente Nacional (que viu muito dos seus votos migrarem para Margareth Thatcher do Partido Conservador) e deixa um recado para um presente sombrio que está vendo a história se repetir como farsa. Com o atual avanço da extrema direita, e a normalização do racismo no Brasil e no mundo, o espírito do RAR é mais que necessário.

“White Riot – O Rock Contra o Racismo” está disponível no br.in-edit.tv/film/111

– Otávio Augusto é historiador e fã de cultura pop;

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.