Entrevista: O terceiro disco do blasfemo The Devils com Alain Johannes e Mark Lanegan

entrevista por João Pedro Ramos

Formada por Erica Toraldo (voz e bateria) e Gianni Pregadio (voz e guitarra), o duo napolitano The Devils é conhecido por seu rock cru e cheio de fuzz e por sua inseparável indumentária: vestidos de freira e padre, a banda faz shows em que um gigantesco consolo preso à bateria é uma das coisas mais recatadas que acontecerá no palco. Às vezes rolam alguns amassos entre as músicas, nudez e, em alguns momentos, o negócio esquenta ainda mais. Como o próprio nome da banda manda, apresentações que agradariam muito o coisa ruim.

Formada em Nápoles em 2015, a banda teve seus dois primeiros petardos (“Sin, You Sinners!” de 2016 e “Iron Butt” de 2017) produzidos por Jim Diamond (The White Stripes, The Sonics, The Dirtbombs) e lançados pela Voodoo Rhythm Records. O duo blasfemo já abriu shows de gente como Mudhoney, GBH, Nashville Pussy, Guitar Wolf, Kid Congo e tocou em festivais como o Azkena Rock Festival, Helldorado, Clanx Festival, Sleazefest, Cosmic Trip, Gambeat, Munster Raving Looney Party, Beaches Brew, Festival Beat, entre outros.

Seu terceiro trabalho, “Beast Must Regret Nothing“, sai em abril, e conta com a produção de Alain Johannes (Queens of the Stone Age, Them Crooked Vultures, Chris Cornell, PJ Harvey), incluindo a participação da inigualável voz rouca de Mark Lanegan em uma das 11 faixas. O duo promete uma mudança de rumo neste trabalho, e dizem até estranhar não terem mudado seu som antes. Segundo eles, ficar parado numa mesma coisa não é muito pro bico da dupla.

Para dar uma ideia do que vem por ai com “Beast Must Regret Nothing“, o duo já liberou quatro singles do álbum, sendo três clipes (que você pode assistir ao longo da entrevista) e o áudio da colaboração com Lanegan (que pode ser ouvido no Bandcamp do duo). E aí, quem vai se habilitar a trazer os capetas italianos para o país tropical para chocar a família brasileira quando finalmente o apocalipse pandêmico terminar, hein?

Como o filme “The Devils” (1971) influenciou a banda, além do nome?
Erika: Pouco depois de nos conhecermos, uma noite estávamos jogados na cama, falando besteiras e rindo, quando nos deparamos com esta obra-prima de Ken Russell. É a adaptação cinematográfica do romance de Aldous Huxley “The Devils of Loudun” (“Os Demônios de Loudun”), que conta uma história que realmente aconteceu em 1634. Não fomos os mesmos desde então. Danificou irreversivelmente nossos cérebros… Bom, sempre fomos dois personagens incômodos, arrogantes e bons em fazer inimigos, não nos comprometemos, não respeitamos as autoridades, dois monstros… Um pouco como o Padre Grandier no filme de Russel. Se tivéssemos nascido naquela época, muito provavelmente eles teriam nos queimado vivos, somos as pessoas perfeitas para um julgamento por assassinato e, assim como Grandier, estávamos condenados antes mesmo de começarmos a tocar. O fanatismo, a histeria coletiva, a fé cega e absoluta em um ideal e o consequente desejo de aniquilar todos aqueles que não aderem a ele e que são, portanto, inimigos. Todas essas coisas de que se fala no filme são malditamente atuais.

Gianni: As religiões são como vaga-lumes, para brilhar elas precisam da escuridão. A ignorância geral é a condição de todas as religiões, é o único elemento em que podem viver. Nosso país é justamente o emblema da estupidez com sua igreja cristã. Sobrevivemos a toda a educação cristã ainda hoje grávidas e sufocantes na Itália, por isso é normal que este filme, que expõe de forma magistral toda a dinâmica desta farsa de Deus, nos exalte tanto que partimos da própria ideia deste grande trabalho de Russell para formar nossa banda.

Como a banda começou?
Gianni: Tínhamos amigos em comum, vi a Erika tocando baixo pela primeira vez em uma banda punk e fui eletrocutado. Então tentei ficar com ela, mas ela me convenceu a não desperdiçar meu impulso sexual e descontar tudo na música e assim foi, desde então tivemos três filhos: os nossos três álbuns.

Como está a cena do rock independente na Itália hoje em dia?
Erika: Somos napolitanos, não italianos. Viemos da única cidade que possui mais de 600 anos de história musical. Dito isso, só posso acrescentar que em Nápoles, como no resto da Itália, o rock’n’roll nunca existiu. Há muito fedor de Deus aqui para que este gênero tenha uma cena real ou um grande público. Não que historicamente o rock’n’roll tenha sido música para todos, e eu diria que ainda bem! A Itália, como provavelmente em qualquer outro lugar, é um país onde as pessoas aplaudem com entusiasmo sua própria escravidão.

Contem mais sobre o novo álbum!
Erika: É um disco eclético, onde todas as nossas paixões dos últimos anos convergem um pouco. Acho que pela primeira vez realmente tivemos a sensação de dar à luz um filho, foi um parto longo e cansativo, cheio de alegria e até de dor. Hoje nos sentimos realmente pais orgulhosos de nossa própria criatura e mal podemos esperar para tocar para vocês.

Como rolou a parceria com o Alain Johannes neste trabalho?
Erika: Estávamos em turnê na Espanha quando descobrimos que Alain estava em uma turnê europeia que terminaria na Itália, então não pensamos duas vezes e contatamos seu empresário. Para nossa grande surpresa, Alain aceitou ser nosso produtor, não imaginávamos que ele ia curtir. Foi muito emocionante.

E como surgiu a parceria com Mark Lanegan em “Devil Whistle Don’t Sing”?
Erika: Quando escrevemos esta música, já tínhamos em mente uma voz persuasiva e áspera como a voz de Mark. Você sabe, era mais uma fantasia, o tipo de fantasia que você sabe que nunca se tornará realidade. Estávamos no estúdio e enquanto gravávamos, Alain teve a mesma intuição que tínhamos antes, enquanto estávamos escrevendo a música. Quando ele nos contou, pensamos que ele estava brincando… E em vez disso, ele tocou a música para Mark, que concordou imediatamente em colaborar. Foi surreal, até agora não parece verdade.

Como o disco que vem por aí difere dos dois discos anteriores, “Sin, You Sinners” (2016) e “Iron Butt” (2018)?
Erika: Para quem já nos conhece, esse álbum será uma surpresa. Abandonamos os sons trash que nos acompanharam nos últimos anos, indo para novos horizontes musicais que hoje consideramos mais estimulantes. A primeira diferença substancial entre nossos dois primeiros álbuns e o último está no tempo que passamos no estúdio. No passado, não demorava mais do que quatro dias para gravar e mixar, e cada música tinha o mesmo som. O instinto e a urgência sempre nos identificaram musicalmente, então queríamos levar o tempo que achávamos necessário desta vez … Queríamos nos estragar e estragar esse álbum. Como resultado, também optamos por mudar de produtor e selo, uma mudança em todos os sentidos. Nós nunca amamos relacionamentos desafiadores e de longo prazo… Nós gostamos de relações casuais.

Gianni: Se você não mudar, não pode crescer. Depois de fazer praticamente a mesma coisa nos dois primeiros álbuns, passamos de olhar atentamente e com suspeita. Somos duas pessoas que precisam constantemente de novos estímulos, que felizmente encontramos neste novo disco. A paixão não é cega, mas visionária.

Seus shows ao vivo são impressionantes, incluindo alguns momentos no palco que deixariam algumas pessoas chocadas. Como vocês descreveriam uma apresentação do Devils?
Erika: Obrigada pelo elogio, estar no palco é o que mais amamos. Bem, a única coisa que podemos dizer é que não poupamos ninguém e, principalmente, nunca nos poupamos, sempre tentamos dar 100% noite após noite, mesmo quando estamos mortos de cansaço. O palco é para nós um lugar sagrado, onde nunca se pode mentir e onde todas as coisas assumem um significado mais elevado, o único lugar onde realmente nos sentimos em casa.

Nos últimos anos, o mundo parece se tornar cada vez mais conservador e retrógrado. Como essas pessoas afetam seu trabalho e como vocês respondem a elas?
Gianni: Nossa natureza rebelde é tão cheia de pura energia que tudo o mais nunca nos afetou de forma alguma, total indiferença. Não os desafiamos, nem mesmo os vemos!

Como vocês estão lidando com essa pandemia apocalíptica que se recusa a ir embora?
Erika: Nós nos dedicamos às nossas paixões como o fazíamos antes da pandemia, embora sintamos uma saudade mortal do palco. Nada jamais substituirá a música ao vivo. Espero que 2021 seja o ano do renascimento dos shows, e quem sabe… Talvez esta situação dê enfim um incentivo para meditar sobre a natureza, os homens finalmente entenderão que a natureza tem controle total sobre nós e não o contrário.

Gianni: Para mim nada mudou, eu sempre fui anti-social, deixei minha toca só para sair em turnê, então os shows são a única coisa que sinto falta. De resto posso dizer que neste ano em que não tenho viajado, pude descobrir muito blues antigo, soul e funk. Sinceramente vivo essa situação sem muita “esperança” … Essa palavra tão perigosa inventada por quem está encarregado de nos calar. Acho que se pudermos de alguma forma voltar a ser livres, e quando digo “livre”, quero dizer na escravidão, vai ser muito pior. Como os viciados que voltam às drogas após um período de abstinência; porque apesar da natureza estar falando muito claro, a autocelebração do homem que está no topo da criação continua sem freio.

João Pedro Ramos é jornalista, redator, social media, colecionador de vinis, CDs e música em geral. E é um dos responsáveis pelo podcast Troca Fitas! Ouça aqui.

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