Três Perguntas: Érico Assis, autor de “Balões de Pensamento”

entrevista por Leonardo Tissot

Érico Assis é um dos principais nomes do jornalismo e da tradução de quadrinhos no Brasil na última década. Mais do que verter para o nosso idioma autores renomados como Alan Moore, Neil Gaiman, Grant Morrison, Craig Thompson e Adrian Tomine, para citar apenas alguns, Assis ajuda o público a pensar e a entender mais a respeito da linguagem das HQs em textos publicados na Folha de S.Paulo, O Globo, Omelete e no blog da editora Companhia das Letras.

Este último, inclusive, é a fonte para o primeiro livro assinado pelo jornalista, “Balões de Pensamento: Textos Para Pensar Quadrinhos”, financiado via crowdfunding em 2020 e lançado no começo deste ano, em parceria com a Balão Editorial. Além de uma seleção de textos do blog, a obra ainda traz ilustrações inéditas de artistas brasileiros como André Valente, Gabriel Dantas, Ing Lee, Samanta Flôor e Wagner Willian, bem como prefácio de Diana Passy e projeto gráfico de Marcela Fehrenbach.

Em pouco mais de 300 páginas, o autor escreve sobre suas obsessões quadrinísticas, a relação entre sua cidade natal (Pelotas, RS) e o surgimento de criadores de HQ como Rafael Sica, Odyr Bernardi e a já citada Samanta Flôor, textos sobre o mercado de quadrinhos no Brasil e no mundo e muitas (muitas!) menções a Scott McCloud (autor do clássico “Desvendando os Quadrinhos”) e Chris Ware. Além do livro físico, “Balões de Pensamento” também está disponível em formato digital.

Pedimos ao Érico que respondesse três perguntas (um tanto quanto aleatórias) sobre temas pouco abordados no livro, mais focadas em sua carreira como tradutor. Confira o papo a seguir!

Ler qualquer obra no original tem a vantagem de… Bem, ser o original. Ler uma tradução (seja de prosa, poesia, quadrinho) tem alguma vantagem (além do óbvio, que é permitir ao leitor que não conhece aquele idioma consumir a obra)? Qual seria?
Acho que a principal vantagem é essa, do acesso. Se você não entende naquela língua, leia na sua. Mas, assim: toda obra traduzida é outra obra. A gente finge que não é e vende como se não fosse, mas é. E aí pode ter uma vantagem. Por exemplo: se você leu “V de Vingança”, e não “V for Vendetta”, o que você leu não foi escrito pelo Alan Moore. Ainda é um quadrinho do Alan Moore? É. Foi ele que escreveu o que tem nos balões? Não. Se o tradutor for bom, você leu um ótimo texto com as palavras e os recursos do português — tal como o Alan Moore é ótimo com as palavras e os recursos do inglês — baseado no que o Alan Moore escreveu no original. É outra obra. Pode até ser melhor que o original. É difícil que aconteça, mas pode. Quis usar um exemplo de quadrinhos, mas fica mais claro quando se pensa em tradução de poesia, de música, de rimas infantis, onde as “mexidas” no texto e a criatividade do tradutor ficam mais à vista. A real é que qualquer tradução remexe o texto e o tradutor sempre tem que ser criativo. Estou descontando aí que o Moore roteirizou “V for Vendetta”, que o que tem ali dele não são só as palavras, que o desenho do David Lloyd é o mesmo no original e na “V de Vingança”… Mas essa ideia valeria pra qualquer mídia. O que um autor ou autora deixa na página ou na tela ou no áudio ou etc. não é só palavra. Tem estrutura, tem cadência, tem trama, tem imagens, tem um monte de outras coisas. O tradutor tem que levar tudo isso em conta. O único tradutor que só leva em conta as palavras é o Google.

Sobre tradução e linguagem neutra nos quadrinhos: há autores gringos que já estão buscando fazer isso nos textos originais, o que naturalmente obriga o tradutor a seguir essa orientação nas versões em português. Qual a tua opinião sobre traduções de palavras que são neutras na língua original, mas não o são em português? Por exemplo, “everybody” deve ser traduzido como “todes”?
Quando isso é declarado no original — usar “they” em vez de “he” ou “she”, por exemplo — eu entendo que o tradutor tem obrigação de respeitar a opção do texto original e ir de “elu”, “todes” e outros recursos de linguagem neutra que estão aparecendo. Ainda acho esses recursos estranhos (sou idoso), mas acho que vão ficar mais comuns. Na verdade, isso não é tão novo. Quando se traduz livros de autoajuda, por exemplo, e o autor/a autora se dirigem a você, o ideal é que o tradutor não flexione verbos ou adjetivos por gênero. Ou seja, o/a você a que o texto se dirige tem que ser leitora e leitor. “You are perfect” vira “você não tem defeitos”, para não usar “perfeito” ou “perfeita”. “You are beautiful” não pode virar “linda” ou “lindo”, então: “você é uma pessoa bonita”. Tem outros recursos, como fazer mudança sintática (adjetivo que vira substantivo) ou transformar predicado em sujeito. Já tive que traduzir dois livros relativamente longos em que eu me propus a não flexionar nem verbos nem adjetivos por gênero. Tinha um, por exemplo, que era para ensinar crianças a controlarem a ansiedade. Se eu digo que a leitorA não precisa ficar “nervosO”, estraguei o livro para a criança.

Além de ser leitor, colecionador, tradutor e de cobrir a área de quadrinhos como jornalista, você gostaria de desempenhar alguma outra função na área (editor, roteirista, desenhista, colorista, dono de banca…)?
Eu adoraria cumprir aquela função do editor de definir linha editorial, escolher obras, avaliar material, ler e dar parecer. Enfim: ler um monte e decidir o que se publica. Já fui parecerista de editoras, numa época de vacas gordas no mercado editorial — mas mesmo assim era uma coisa esporádica, sem nenhuma regularidade. É óbvio que editor não faz só isso, e eu não tenho interesse nas 47 outras funções que editor tem que desempenhar. Então curto minha função de tradutor: 60% da função é ser pago pra ler, e ler é a segunda melhor coisa da vida. Mas não conta isso pra ninguém.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.