Entrevista: O diretor Jorge Bodanzky fala sobre a série “Transamazônica – Uma Estrada para o Passado” (HBO)

entrevista por João Paulo Barreto

No Brasil do “passar a boiada”, país da exploração irracional e desenfreada da Amazônia em nome de um “progresso” que só existe para poucos, a História se repete de maneira sempre trágica. Jorge Bodanzky, que dirigiu, em 1975, ao lado de Orlando Senna, o clássico “Iracema ¬- Uma Transa Amazônica”, conhece essa repetição e a aborda de maneira ímpar, junto ao co-diretor Fabiano Maciel, em “Transamazônica – Uma Estrada para o Passado”, série em seis episódios atualmente em exibição pelo canal HBO Mundi.

Em sua cena de abertura, “Transamazônica – Uma Estrada para o Passado”, traz uma fala de Bodanzky sobre o aspecto faraônico da obra iniciada no governo do sanguinário Médici. Obra esta que ligava o nada a lugar nenhum, “conectando os famintos do Nordeste aos miseráveis do Norte”. Na sua fala, o cineasta aborda o revisitar a alguns dos pontos daquela estrada inacabada, desde seu quilometro zero, em Cabedelo, na Paraíba, passando por diversos outros locais simbólicos daquele trajeto em direção ao Norte do Brasil. A constatação trazida pelo cineasta nesta entrevista ao Scream & Yell é de que, após diversos retornos seus à Amazônia, à frente deste novo e de outros trabalhos anteriores, aqueles problemas que o seu filme de 1975 destacavam permanecem os mesmos quase meio século depois.

“Eu visitei a Amazônia muitas vezes nesse período todo. São 45 anos. E o que eu observei, a partir da primeira vez, é que o os problemas que o ‘Iracema’ coloca, todos, todos sem exceção, só aumentam. A questão do menor de idade na prostituição, o trabalho escravo, a questão da ocupação do solo, a questão da madeira, os grandes projetos. Todos os temas que o ‘Iracema’ aborda só cresceram. Eles só aumentaram e continuam aumentando”, explica Bodanzky.

Para além do asfalto e do barro que se encontram nos trajetos de suas construções tanto narrativas quanto geográficas, “Transamazônica – Uma Estrada para o Passado” carrega boa parte de sua força em seus personagens e no modo como seus encontros se apresentam para a audiência. Desde o equilíbrio entre a questão pragmática e científica do registro dos fatos a partir de um historiador que detém vasto acervo tanto material quanto imaterial em sua ligação histórica da estrada, até as questões de fé de um padre e sua congregação em um dos municípios existentes na região, esse encontro com tais figuras enriquecem a série e denotam o denso trabalho de pesquisa.

“Foi um longo, longo trabalho de preparação. Foi uma equipe de preparação, com o produtor Nuno Godolphim, que viajou durante um bom tempo para achar esses personagens. Nós queríamos mostrar a história da Transamazônica com o testemunho das pessoas que vivem lá. Não adianta falar as coisas pela gente, apenas. Queríamos que a estrada falasse por ela mesma. E quem é a estrada? A estrada são as pessoas que moram lá. Então, foi um longo e minucioso processo de se escolher esses personagens. Achávamos que cada um, da sua maneira, poderia contar um aspecto dessa história”, pontua o diretor.

O produtor Nuno Godolphim apresenta, também, um pouco desse processo, trazendo uma estruturação de cada um dos seis capítulos da série. “Nos três primeiros episódios, ela apresenta essa relação com passado, esses grandes problemas históricos. A partir do quarto, ela dá uma virada. Começamos a sair da estrada e nos aproximar dos problemas de perto. Ela vira quase um thriller. Já no quinto episódio, ainda fora da estrada, conhecemos as populações indígenas. A série vai ter uma coisa mais lírica para lidar com essas populações. E o sexto é esse encerramento lá no fim da estrada onde a floresta não deixou que os militares seguissem a construindo até o Peru, como eles gostariam”, explica o produtor.

Na série, a citada reflexão histórica em relação ao modo cíclico como os fatos se repetem, torna-se evidente quando observamos todo o planeta olhar com indignação para a destruição amazônica, exceto aqueles que dizem nos governar, que seguem com seu projeto de destruição definido pelo “passar a boiada”. Bodanzky, com seus quase 50 anos de constante contato com a Amazônia, criva: “Você fala do momento agora, em que a Amazônia só é citada quando tem grandes tragédias. Eu vou até um pouco mais adiante. Acho que a Amazônia é uma tragédia permanente. Ela nunca deixou de ser uma tragédia. Infelizmente. Esses problemas todos se alternam, mas estão sempre presentes”, esclarece.

Em “Iracema – Uma Transa Amazônica”, um personagem simbólico é o Tião “Brasil Grande”, interpretado com vigor por Paulo Cesar Pereio. Com seu discurso ufanista, falacioso e frágil, o caminhoneiro aborda o “progresso” como sendo mais importante que a natureza. A rima trágica com o discurso oportunista e covarde da atualidade é dolorosa. “Os Tiões de hoje são os garimpeiros. São aqueles que falam as mesmas coisas que falava o Tião em cima do caminhão. A política oficial deste governo é exatamente aquilo que o Tião fala. O projeto dos militares que construíram a Transamazônica foi a base de todos os projetos que vieram depois. Mesmo nos governos civis e, principalmente agora, de novo, com uma visão dos militares sobre a ocupação da Amazônia. É a mesma. Não mudou nada. Na cabeça das pessoas que planejaram a Amazônia durante a ditadura militar nos anos 1970, é a mesma (visão). Veja o que o general Mourão está falando. É a mesma coisa, hoje. Absolutamente a mesma. Em 50 anos, não conseguiram enxergar a Amazônia de uma maneira diferente”, finaliza Jorge Bodanzky.

O medo da tragédia que se anuncia não somente com a constante destruição da Amazônia, mas com a combinação do fracassado projeto militar da Transamazônica ecoando junto ao genocida projeto de Brasil atualmente em curso, é palpável. Olhar para o passado, aprender com essas tragédias e não repeti-las é urgente. Desesperançoso e inalcançável diante de tanta ignorância, admito, mas urgente. Nesta entrevista ao Scream & Yell, Jorge Bodanzky aprofunda mais suas visões sobre a experiência de revisitar muitas vezes o tema da Amazônia nos últimos 45 anos, e, apesar de tudo, traz uma otimista e revigorante visão de futuro. Confira o papo!

Na abertura de “Transamazônica – Uma Estrada para o Passado”, você traz em sua fala a questão do seu reencontro com parte dos locais onde, ao lado de Orlando Senna, rodou nos anos 1970 “Iracema – Uma Transa Amazônica”. Neste reencontro com a estrada e seus locais, quais foram sua impressões em comparação àquele período há quase 50 anos? Lembro de ter lido uma entrevista sua acerca da mídia só abordar a Amazônia quando alguma tragédia a envolve. Hoje, essa tragédia é cada vez mais evidente.
Na realidade, não refiz a Transamazônica, mas eu visitei a Amazônia muitas vezes nesse período todo. São 45 anos. E o que eu observei, a partir da primeira vez, é que o os problemas que o “Iracema” coloca, todos, todos sem exceção, só aumentam. A questão do menor de idade na prostituição, o trabalho escravo, a questão da ocupação do solo, a questão da madeira, os grandes projetos. Todos os temas que o “Iracema” aborda só cresceram. Eles só aumentaram e continuam aumentando. Você fala do momento agora, em que a Amazônia só é citada quando tem grandes tragédias. Eu vou até um pouco mais adiante. Acho que a Amazônia é uma tragédia permanente. Ela nunca deixou de ser uma tragédia. Infelizmente. Esses problemas todos se alternam, mas estão sempre presentes. Mas tem uma coisa que observei, que mudou bastante e que não tinha na época em que filmamos o “Iracema”, quando foi praticamente a primeira vez que eu fui para lá. É a organização da sociedade civil. Nos anos 1970, no auge da ditadura militar, era totalmente impossível a sociedade civil se organizar. E, hoje, em qualquer pequena aldeia que você vai, seja indígena, quilombola, ou ribeirinhos, as comunidades são organizadas, têm representação, sabem o que querem, sabem quais são os seus problemas. Têm e apontam soluções para os seus problemas. Só que a sociedade civil não é ouvida. O governo não está nem aí para a sociedade civil. Mas ela está aí. E talvez isso seja uma pequena esperança de reter esse “progresso” que está invadindo a Amazônia desde sempre. São duas forças. Uma é política e a outra é a sociedade local, mesmo. Sem a participação da sociedade local, é impossível se pensar em alterar isso que está acontecendo agora.

Há um equilíbrio entre as fontes entrevistadas, pessoas que vivem na região no entorno da estrada, cidades do Nordeste e do Norte do Brasil, que o filme apresenta de maneira instigante para sua audiência. Por exemplo, o historiador que detêm um impressionante acervo material em sua casa e imaterial em sua memória e palavras acerca da Transamazônica colocado em contraponto com o padre que lidera pela fé os moradores da região. Como foi, na escrita do roteiro e processo de montagem, essa busca por esse equilíbrio de abordagens?
Foi um longo, longo trabalho de preparação. Foi uma equipe de preparação, com o produtor Nuno Godolphim, que viajou durante um bom tempo para achar esses personagens. Nós queríamos mostrar a história da Transamazônica com o testemunho das pessoas que vivem lá. Não adianta falar as coisas pela gente, apenas. Queríamos que a estrada falasse por ela mesma. E quem é a estrada? A estrada são as pessoas que moram lá. Então, foi um longo e minucioso processo de se escolher esses personagens. Achávamos que cada um, da sua maneira, poderia contar um aspecto dessa história. Então, quando a gente voltou com a equipe de filmagem, voltamos a esses personagens que já tinham sido contatados e filmamos com eles. Mas isso que você citou é bem interessante. Um é o historiador, o outro vai por uma questão de fé, o terceiro vai por uma questão de trabalho. Enfim, cada um tem o seu motivo de estar lá, e o que ele está procurando lá. Mas adiante, nós entramos na área indígena. E o filme muda bastante a cada capítulo. E a partir dos capítulos quatro, cinco e seis, ele já mostra uma Amazônia completamente diferente. Mas isso foi planejado e é um trabalho de edição. É um grande trabalho de edição você dar a proporção, à medida do que é a parte histórica, e o material de arquivo que conseguimos levantar. E que não é pequeno. É um material muito difícil de conseguir. [Tem] uma pequena coisa do meu arquivo pessoal. Tem muitas imagens de “Iracema” espalhadas por dentro do filme. Imagens de Super8 minhas. Da época em que eu fazia as pesquisas do “Iracema”, um grande material de pesquisa, com jornais de época e que está lá justamente para a gente fazer um paralelo do que está acontecendo hoje e a história desses acontecimentos. Nada acontece de um dia para outro. A Amazônia não está pegando fogo [somente] hoje. Ela já pega fogo desde aquela época. Uma das primeiras grandes imagens de incêndios na Amazônia é aquela no filme “Iracema”, aquele travelling que é um silêncio de um minuto onde a câmera simplesmente mostra o fogo. E isso não parou até hoje. Essa imagem poderia ser rodada hoje.

Em sua filmografia, após “Iracema – Uma Transa Amazônica”, é recorrente voltar aos problemas que você lançou luz na obra de 1975. E isso é louvável. Podemos citar o documentário de 2005, “Era uma Vez Iracema”, com “O Último Eldorado”, com “Amazônia – A Nova Minamata?” recentemente. Qual a sensação de voltar a tais fatos tão importantes para o Brasil? Como cineasta, é doloroso de alguma forma voltar a tais temas?
Infelizmente, a gente não pode abandonar esses temas, porque eles estão aí. Estão acontecendo. Então, se eu volto, mesmo que o objetivos dos filmes sejam outros, como em “Igreja dos Oprimidos”, “Tristes Trópicos’, baseado na obra do (Claude) Lévi-Strauss, “Terceiro Milênio”, e você citou alguns outros, eles são permeados por esses grandes problemas que, na minha filmografia, foram introduzidos pelo “Iracema”. Eles estão aí. Então, qualquer aspecto que você aborde a Amazônia, mais recentemente com “Amazônia – A nova Minamata?”, que traz a questão do envenenamento por mercúrio dos rios da Amazônia, isto está lá. Então, no meu ponto de vista, é impossível falar da Amazônia sem abordar esses temas que se repetem. Eles estão sempre aí, infelizmente.

Lembrando do personagem do Tião “Brasil Grande”, vivido pelo Paulo Cesar Pereio em “Iracema”, naqueles ataques de proteção ao progresso e falácias características de delírios do poder, quem você observa, hoje, na mesma situação de destruição da Amazônia, de ímpetos tirânicos de “passar a boiada”, quem seriam os atuais “Tiões Brasil Grande”?
Os Tiões de hoje são os garimpeiros. São aqueles que falam as mesmas coisas que falava o Tião em cima do caminhão. A política oficial deste governo é exatamente aquilo que o Tião fala. O projeto dos militares que construíram a Transamazônica foi a base de todos os projetos que vieram depois. Mesmo nos governos civis e, principalmente agora, de novo, com uma visão dos militares sobre a ocupação da Amazônia. É a mesma. Não mudou nada. Na cabeça das pessoas que planejaram a Amazônia durante a ditadura militar nos anos 1970, é a mesma (visão). Veja o que o general Mourão está falando. É a mesma coisa, hoje. Absolutamente é a mesma visão. Em 50 anos, não conseguiram enxergar a Amazônia de uma maneira diferente.

Há um trecho na série em que a definição da Transamazônica em ligar o nada ao lugar nenhum, os famintos do Nordeste aos miseráveis do Norte, parece definir os caminhos do Brasil atual. Mais grave ainda é que o trajeto é repleto de ainda mais mortes que as causadas pela construção da estrada. Confesso que o peso desse Brasil tem me afetado de maneira dolorosa. Queria lhe perguntar se você é otimista em relação ao Brasil?
Eu acho que podemos, sim. Temos que ser otimistas. Se não, a gente se mata. Vamos fazer o que? Se você não tem um fundo de otimismo em achar que as coisas podem mudar, elas não vão mudar. Então, você tem que partir do princípio de que é possível mudar. Por mais difícil que seja, acredito que dá para mudar, sim. Como te disse, a sociedade civil está organizada lá. Se o governo trabalhar junto com a sociedade civil, pode se encontrar boas soluções para a Amazônia. Mas as coisas são dinâmicas na vida. Nada dura para sempre. Mas elas duram muito. A ditadura militar durou 21 anos. Este governo eu não sei quanto tempo ele pode durar ainda. Mas apesar de tudo, tenho certo otimismo. Acredito na possibilidade de mudança. Até porque temos que pensar nos jovens. Hoje, a questão da consciência ambiental, ela é um problema mundial. Em enquetes que se fez com jovens de vários locais do mundo, qual é a primeira questão que os jovens colocam? É a questão ambiental. E na questão ambiental, a Amazônia está no topo.

Ver a história se repetir perante aquelas realidades que, tanto o filme “Iracema” quanto a série “Transamazônica”, ilustraram para o público, é algo que desanima diante da ideia cíclica da História. Mas, ao mesmo tempo, pensar nesse otimismo oriundo da mudança é algo que traz certa esperança, sim.
Eu acho que a gente só interfere naquilo que conhecemos. Então, é importante ter o conhecimento das coisas. Os problemas da Amazônia são muitos complexos. São tantos e todos entrelaçados. Então, acho que conhecer a Amazônia é a primeira etapa para que as pessoas comecem a se preocupar com a Amazônia. Não é só ficar na manchete de jornal, só no dia que pega fogo é que você vai pensar na Amazônia, entende? O conhecimento em torno da Amazônia é muito importante. E as pessoas não conhecem a Amazônia. Eu, mesmo. Tem muita coisa que não conheço. Cada vez que vou, me surpreendo, entende? O objetivo do filme é fazer com que o grande público, que o público que assiste séries na televisão, tenham um conhecimento maior sobre, talvez, a região mais importante que o Brasil tem hoje. E que é o grande legado que a gente pode deixar para os nossos filhos e netos: é a Amazônia preservada.

Outro ponto doloroso é que vemos, muitas vezes, uma preocupação internacional na preservação da Amazônia, enquanto que aqui, quando deveria haver um cuidado provido pelos próprios brasileiros, ela passa por uma devastação desenfreada.
Eu acho que a preocupação do planeta como a questão ambiental, e particularmente com a questão amazônica, é absolutamente pertinente. Isso não quer dizer que eles estão preocupados porque eles querem tomar a Amazônia. Acho que quem deveria estar, em primeiro lugar, preocupado com a Amazônia somos nós, brasileiros. Mas se a gente não cuida da Amazônia, acabou tudo. Não adianta pensar em outra coisa. Então, a primeira responsabilidade é a nossa. E depois vem os outros. Mas acho bom que todos estejam preocupados. Porque isso cria uma certa pressão e, ao mesmo tempo, mantêm o tema à tona. Não podemos tirar o foco desse tema.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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