Livro: “Histórias Jamais Contadas da Literatura Brasileira”, de Edson Aran

resenha por José Carlos Guimarães

Fazer rir sem esforço é um dos maiores e mais invejáveis talentos humanos. Na cultura brasileira contemporânea, um desses talentos chama-se Edson Aran, que não é Pelé mas também faz golaços. Jornalista de formação, o mineiro Aran fez sucesso como editor das revistas “Vip” e “Playboy”, quando por lá passou. Aran é também cartunista e escritor, autor de nove livros. O último deles são as “Histórias Jamais Contadas da Literatura Brasileira”, primeiro título lançado pela Revista Bula.

O livro é um delicioso anedotário. Conta histórias divertidas desde Pero Vaz de Caminha até Paulo Coelho, este sacrificando uma virgem e, depois, adquirindo a sabedoria no deserto. Não é, portanto, visão da história literária do país. O tempo é categoria que nem importa, daí a gíria urbana da São Paulo do século 20 manifestando-se na boca do Padre Anchieta. Ou na de Machado de Assis, na inauguração da ABL, ante a discriminação de um ouvinte, que o chama de “crioulo”. Ou, ainda, no fato de Graciliano Ramos encontrar-se com José de Alencar na mesma Academia (pelo menos até este revelar que é João Cabral de Melo Neto disfarçado).

Apesar de reunir a maioria dos principais expoentes das letras de Pindorama, desde os cronistas portugueses até hoje, o livro não trata tampouco de movimentos literários. Eles são apenas sugeridos, como o impressionismo caudaloso de Raul Pompéia. A forma escolhida são pequenos episódios de até quatro páginas, envolvendo nossos escritores em situações pra lá de engraçadas. Episódios que lembram (e talvez reivindicam) a encenação: parecem escritos para programas humorísticos como o “Zorra” ou “Casseta & Planeta”. Apenas o conteúdo não é popular. A ideia é fazer rir, e praticamente rimos mesmo, a cada episódio.

Destacamos alguns: Ruy Barbosa mediando o duelo entre Aluísio e Álvares de Azevedo; o manifesto da Anta Verde-Amarela, de Plínio Salgado; o brilhante making of de “No meio do caminho tinha uma pedra”, de Carlos Drummond de Andrade; as cartas do poeta concretista Oraldo Grunhevaldo ao poeta de Itabira; o xampu de Ferreira Gullar e o fim do Concretismo. Tem, ainda, um manjado joguinho de narrativas acerca de Bráulio Bessa, o horóscopo de Olavo de Carvalho, que é a cara de Olavo, e a saga de Oraldo Grunhevaldo em busca do trocadilho perfeito. Entre esses não há o melhor episódio: são todos muito bons. Segue uma palinha para o leitor, a respeito do romance “A Lança de Pirarucu”, de Joaquim Manezal Macuco (avacalhação com Manuel de Macedo, autor romântico): “Pirarucu conta a história do marinheiro português Manoel D’Oliveira, o Escabroso, que vem para Pindorama e se casa com a índia Piranhuçu. Pouco depois ele é capturado e comido pelos índios guaranis. Quando é finalmente libertado, Manoel D’Oliveira não consegue superar a experiência e abandona Piranhuçu para viver com o pajé Pirarucu, gerando grande revolta entre os colonizadores machistas, reacionários e caretas”.

Sobra até pro jargão do PSOL (provavelmente o partido de um certo professor Milton Mesóclises), num livro onde o preconceito e o atraso cultural insinuam-se minimamente à reflexão. A sutileza no tom debochado de certos registros denota um escritor que surpreende as caricaturas da linguagem: “esse homem que é um exemplo para as pessoas tanto no pessoal quanto no profissional”, e “quando inserido na poesia ocidental no contexto da dicotomia semiótica”. Vez ou outra o episódio encerra uma moral inútil, que também é piada. Como naquele em que o ET de Aldebaran é recebido pelos acadêmicos da ABL com gracejos e vai embora chateado: “É por isso que a Terra não faz parte da federação galáctica e continua essa bosta”.

Nessas histórias de nossa literatura, José de Alencar continua fazendo o leitor chorar, porém de rir e não de chatice. Mas Aran, filho de Píndaro, saiu também com essa: “O parnasianismo é mais letal que a varíola e a febre amarela, Ígor! Pior até que a peste bubônica”, diz o sanitarista Oswaldo Cruz ao auxiliar corcunda, após isolar o vírus da escola literária de Raimundo Correia. Pois nada combina melhor com a praga de parnasianos do que o impagável Manifesto da Anta-Verde e Amarela: “Não somos tupis e nem tamoios, não somos tupinambás e nem tapuias, não somos tapajós e nem tabajaras. Nós somos toupeiras e tapados. Nós somos antas”. Parece que com orgulho. E são todos promissores como o tal Pitoresco da Mata, citado num episódio. Sim: nem todos os escritores elencados por Aran são reais ou são brasileiros. Caso do norte-americano Thomas Thurbando.

É pena que “Histórias Jamais Contadas da Literatura Brasileira”, prefaciada por Oraldo Grunhevaldo, seja uma paródia tão pequena, em volume. Podia ter dado um livro maior, mais robusto. Assim divertiríamos mais! Dividido em duas partes (ou períodos históricos), a obra dedica duas páginas a escritores do Império que ninguém nunca ouvir falar e três páginas à listagem de outros livros do próprio Aran, no final. Claro, é tudo piada da boa, como se besuntar de banha: “Afinal, você nunca sabe quando precisará besuntar o corpo inteiro com banha!”. Até FHC e Sarney (ensaísta e ficcionista, respectivamente) dão as caras, sendo que o tucano protagoniza uma joia de humor, envolvendo a Rainha Elizabeth II.

Cartunista, Edson Aran reúne as habilidades indispensáveis de construir piadas com a de traduzi-las em desenho. Ilustrou o próprio livro com o traço inconfundível do autor das tiras de Tropicaos (postadas em seu Instagram). Se bem que, entre os grandes cartunistas do Brasil, poderia ser colocado em companhia daqueles dois que “não sabiam” desenhar patavina: Jaguar e Millôr. Não diremos “ao lado” deles por uma questão de reverência, e porque Aran ainda tem uma estrada. Mas que tem essa semelhança com aqueles dois senhores, isso tem. Então, Aran que nos perdoe: é com Jaguar e Millôr que partilharia uma seção expográfica, já que não difere dos mestres no quesito “mal desenhista”. Questão de critério!

Uma conclusão fora do tom: livros como “Histórias Jamais Contadas da Literatura Brasileira” tornam a vida mais interessante e, por tabela, melhor. Simplesmente porque fazem rir, às vezes descontroladamente. É preciso rir para aguentar o tranco da vida: rir é talvez a maior desforra da humanidade contra a miséria geral da existência. Por isso o humor é coisa séria, em uma acepção elevadíssima. Poucos, autores com o dom de Edson Aran são indispensáveis como Shakespeare. Exatamente porque não são Shakespeare. Fácil fácil a seriedade, somente, nos esgota, e até deprime. Mas para rir não temos limite. E o riso é o domínio de Edson Aran, que tem razão: ninguém sabe mesmo quem é o Haroldo e quem é o Augusto de Campos. E tome Ruy Barbosa, o Cabeçudo!

– José Carlos Guimarães é crítico literário e historiador.

One thought on “Livro: “Histórias Jamais Contadas da Literatura Brasileira”, de Edson Aran

  1. É um livro engraçado, bom para ser lido em voz alta em uma roda de amigos. Gosto muito de debater Literatura. Hoje mesmo, em uma roda de conversa, debatemos sobre Don Brown e seu livro “O Código DaVinci”. Eu explicava que o autor não tinha a intenção de atacar a Igreja Cristã. Mas ele é maçon. E o assunto rolou a noite toda. Na Literatura Brasileira há autores maçons, judeus, espíritas e até católicos. Mas onde estão os escritores evangélicos?
    Emanuel Lima.
    Taguatinga/DF

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