Maria Bethânia faz live forte e bela sobre um Brasil que ainda queremos acreditar

texto de Renan Guerra

Em 2020, Maria Bethânia ficou essencialmente recolhida. Dava entrevistas por telefone, falava sobre suas emoções em torno do Brasil, mas quase não vimos sua imagem. Sua turma dos Doces Bárbaros, por outro lado, já havia se aventurado no formato das lives: Caetano Veloso fez duas lives bem sucedidas no Globoplay, com a companhia dos filhos (e levou o posto de Melhor Live de 2020 na votação do Scream & Yell). Gilberto Gil fez uma live ao lado da família direto de sua casa e depois cantou ao lado dos netos em show belo no Festival Coala (também lembradas na votação do site). Gal Costa fez live especial de aniversário e, apesar da produção caótica e da direção desrepeitosa de Lais Bodansky, ainda assim se mostrou luminosa.

Bethânia apenas apareceu em áudio nas lives de Gal e de Caetano e parecia distante a ideia dela se propor a uma transmissão on-line. Ela é artista de teatro, que existe nessa troca com o público e repetidas vezes já deixou claro o quanto lhe é difícil, por exemplo, fazer apresentações na TV. Sua live transmitida pelo Globoplay é demarcadamente uma espécie de formato novo para a artista. Não está aqui o espetáculo como o que ela apresenta no palco, não há as marcações, o microfone livre ou sua dança que ocupa o ambiente. A cantora formatou algo mais enxuto para sua live e, de algum modo, esse foi o formato perfeito para uma apresentação transmitida em um sábado de carnaval em suspenso, quando as ruas se encontram (quase) vazias e as pessoas distantes umas das outras.

E essa sensação esquisita do último ano permeou a apresentação. Bethânia abriu a noite com uma versão a capela de “Explode Coração” (Gonzaguinha) e logo em seguida pediu “eu quero vacina, respeito, verdade e misericórdia”, em frase que demarcou o tom da noite. A filha da Dona Canô costurou suas canções românticas, passou por diferentes fases de seu repertório e apresentou canções inéditas, num roteiro que sentenciou essencialmente seu amor pela Ilha de Vera Cruz e pelo povo que aqui reside. E isso é forte demais, visto que em entrevista de divulgação da live para o El País, Bethânia falou de forma desesperançosa de um país aparentemente abandonado: “Não gosto mais de falar do Brasil. Tenho vontade de chorar”.

Porém, em pouco mais de uma hora, Bethânia celebrou um Brasil que ainda existe e ainda resiste apesar de todas as tentativas de apagamento e destruição. Cantou os povos indígenas, as lendas brasileiras, as religiões afro, as nossas coisas mais comezinhas e, claro, a nossa paixão. Porém, Bethânia não é ingênua e pontuou todos esses momentos com falas e intenções muito fortes sobre o país. Em seu momento mais político, a cantora emendou a sequência de “Balada de Gisberta” (Pedro Abrunhosa), “2 de junho” (Adriana Calcanhotto) e “Cálice” (Chico Buarque e Gilberto Gil).

“2 de junho” é uma das faixas que estará em “Noturno”, seu novo disco que está previsto para sair entre março e abril de 2021. A faixa de Calcanhotto fala sobre a morte do menino Miguel, que caiu do 9º andar de um prédio de luxo no Recife, quando estava sob os cuidados da patroa de sua mãe, que é empregada doméstica. Adriana já havia lançado a canção em 2020, porém ela ganha novos contornos na voz de Bethânia, especialmente no tom de forte de sua voz ao entoar os versos “No país negro e racista / No coração da América Latina”.

Maria Bethânia muitas vezes cantou canções políticas e de protesto, porém sempre foi uma artista arredia a essas questões, não prendendo-se a movimentos ou viéses muito delimitadores. Por isso mesmo é muito simbólico que ela assuma posturas bastante rígidas nesse momento. A pandemia de Coronavírus parece cada vez mais complexa no Brasil, os números de mortes diárias seguem altos e, sem nenhum sentido, produtores culturais falam em shows físicos num futuro próximo. Nesse cenário, ter Maria Bethânia fazendo uma live num sábado de carnaval para um público gigantesco é fundamental.

Não foi uma live desconectada do momento. Quando ela canta “Frevo nº2 do Recife” (Antônio Maria) é em tom de melancolia, falando sobre as ruas vazias em cidades como Recife, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo. Enfim, em suas escolhas poéticas, Bethânia nos lembra que existe a beleza do Brasil e que ela resiste apesar de tudo, porém ela também se mostra com medo e com raiva do nosso momento e do nosso futuro. De algum modo belo e soturno, Maria Bethânia fez a live possível num carnaval que parece uma eterna quarta-feira de cinzas.

Assista a live de Maria Bethânia no Globoplay

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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