Três Perguntas: A ressurreição dos IRMÃOS ROCHA!

entrevista por Leonardo Tissot

Se você fizer uma busca por “Irmãos Rocha” no Google, procurando por informações da finada banda porto-alegrense — finada mesmo, com direito a anúncio fúnebre convidando para o último show do grupo e tudo —, provavelmente terá que percorrer algumas páginas até encontrar. Em tempos de SEO, uma dupla de youtubers homônima ganhou toda a presença digital que acompanha a “palavra-chave” ao longo dos últimos anos.

Ainda bem que essa matéria existe, então, pois os IRMÃOS ROCHA! dos quais você realmente quer (ou deveria querer) saber voltaram à vida — com todas as letras em caixa alta e o ponto de exclamação que não deixa dúvidas de quem estamos falando.

O agora trio gaúcho formado por Bel Rocha (baixo e vocais), André Rocha (guitarra e vocais) e Raul Rocha (bateria) — o ex-vocalista Mauro Rocha continua desfalecido — lança um remix da faixa “A.F.U.D.E.R.”, feito pelo conhecido produtor e ex-baixista do DeFalla, Flu.

Mas esse é apenas um gostinho do que vem pela frente. Daqui a duas semanas, em 19 de fevereiro, a banda (re)lança “Vai Ser Bom, Não Foi?” — disco pronto desde 2009 mas nunca disponibilizado oficialmente pelo grupo — nas principais plataformas de streaming. O álbum foi criado como forma de os Rocha se despedirem do público, quando anunciaram o fim da banda, há 12 anos, mas acabou sendo lançado apenas em uma edição limitada.

Aliás, o disco — que dá sequência à série de lançamentos da banda ao longo de mais de 20 anos de carreira, como os EPs “Quatro Músicas em Cinco Minutos e 33 Segundos” e “Mais Vontade Que Talento”, e o álbum/coletânea “Ascensão e Queda dos Irmãos Rocha!” — tem produção de Iuri Freiberger (Tom Bloch)

E depois de tanto tempo sem tocar, a banda resolveu dar sinais de vida já há alguns anos, aos pouquinhos, com um show aqui e outro ali, sem se comprometer. Em função das dificuldades impostas pela pandemia, o retorno oficial do trio de “rock regressivo”, que deveria ter ocorrido em 2020, ficou para esse ano — que ainda promete a retomada dos ensaios e, se tudo der certo, a volta aos palcos e ao estúdio. Foi o que nos contou Bel Rocha, em um papo rápido via e-mail.

Confere aí como foi essa “ressurreição” dos IRMÃOS ROCHA!

Por que “Vai Ser Bom, Não Foi?” nunca foi lançado oficialmente? Quer dizer, o que impediu esse lançamento na época?
Nada impediu especificamente, foi uma junção de fatores aleatórios, timing ruim e falta de motivação. A gente gravou o “Vai Ser Bom, Não Foi?” num clima de despedida, sabendo antes de entrar no estúdio que seria o disco final. Hoje, os motivos do fim da banda parecem meio trouxas — e nem vem ao caso entrar nisso — mas a ideia era acabar mesmo. O lance é que a gente tinha umas músicas na manga: tanto umas que eram mais recentes (na época) como uns clássicos da banda, como “Mr. Memória” e “Cheirinho (de Mauro)”. Nada disso tinha sido registrado. Pensamos que seria bacana terminar passando a régua, zerando o acervo — até porque essas músicas são puro IRMÃOS ROCHA!, não funcionariam em outro contexto. E assim, fomos pro estúdio com o velho amigo Iuri Freiberger produzindo. O disco ficou foda, sonoramente, mas era uma criança que nasceu com pais já ausentes e desinteressados. Além disso, era o momento da decadência do CD, a mídia física sumia e a distribuição digital não estava muito bem organizada. E tinha também uma ideia que teria mais a ver com a gente: lançar o disco em vinil. Chegamos a tentar alguma coisa nesse sentido, falamos com uns amigos com um plano de lançar de forma independente, uma espécie de crowdfunding embrionário, mas essas coisas são sempre fruto de muito empenho e o momento era de afastamento. Mesmo assim, a gente estava em contato com algumas gravadoras, vendo a possibilidade de lançar o disco de algum modo, mas não nos demos conta de como era absurdo querer achar um parceiro pra investir em uma banda desmotivada que estava anunciando o seu fim. Paralelamente a isso tudo, a gente tinha marcado um show-despedida no Ocidente [bar lendário de Porto Alegre]. Quando ficou claro que o assunto não ia se resolver tão cedo — e certamente não se resolveria antes do show já marcado — a gente teve uma ideia totalmente regressiva: fizemos uma centena de cópias em CD-R com capa bacana (como todas, do nosso Arturo Vega, o Guilherme Dable [artista visual e ex-baixista da Tom Bloch]) e distribuímos de graça pra quem foi no show. Me lembro que mandamos algumas cópias pra algumas pessoas da imprensa também, mas de forma bem desorganizada. E ficou por isso. Quem pegou, pegou. Na verdade, nem eu tenho essa versão CD-R!

O que os motivou a retomar essas canções agora e, finalmente, disponibilizá-las para o público? Já tem data para o lançamento do disco completo?
Bem, a banda de fato acabou por um tempo e qualquer ideia de lançamento ficou na gaveta. Mas, aos poucos, a gente retomou a vontade de tocar juntos. Isso ainda com o Mauro. Retomamos os ensaios de forma esporádica e fizemos uns shows meio obscuros e totalmente folclóricos (um foi no Dia dos Mortos!). Nos escondemos atrás dessa ideia de ser uma banda morta que podia voltar de vez em quando. Só que nos shows a gente tocava quase todo o “Vai Ser Bom, Não Foi?”, é um disco muito foda! Chegou a rolar um clipe tardio de “A.F.U.D.E.R.” também, então era uma coisa sempre meio presente, o tal do “disco perdido”. Com o tempo, o Mauro acabou saindo da banda de vez, e a gente começou a levar mais a sério a ideia de voltar como um trio. Já estavam rolando alguns shows nesse formato quando um dia, por total acaso, o Flu colocou um lance no Insta dele que parecia brincadeira, algo tipo: “você quer um remix da sua banda?” Eu pensei que tentar não custava e mandei um alô. Não era piada e, assim, chegamos no remix de “A.F.U.D.E.R.”, que faz total jus ao nome da música. Ficou muito bom e a vontade de divulgar era enorme. Entramos em contato com a Loop Discos pra pedir uma assessoria nessa questão de lançamento digital. Mas não parecia fazer muito sentido lançar um remix de uma música que praticamente não existia. Daí veio a ideia de lançar o “Vai Ser Bom, Não Foi?” oficialmente por eles e colocar duas músicas bônus: o remix do Flu e mais uma instrumental que ficou perdida e que se chama “Perninha de Grilo”, uma homenagem tosca às bandas instrumentais virtuosas como a Pata de Elefante. O remix (e um novo clipe) saem dia 5 e o disco completo sai no dia 19 de fevereiro.

Fora o novo disco, o que podemos esperar dos IRMÃOS ROCHA! para o futuro? Dá pra dizer que a banda voltou, com direito a novas músicas, shows (assim que for possível…), enfim, o pacote completo?
Sem dúvida. A nossa ideia pra 2020 já era gravar e lançar coisas novas que já pintaram com essa formação de trio. Ia ter clipe, show de lançamento e tudo o mais, mas: COVID, pandemia, etc. Dito isso, a ideia é retornar assim que seja sensato e possível. Na verdade, esse relançamento acaba sendo um paliativo interessante, penso que ele acaba funcionando pra lembrar o mundo do nosso rock regressivo, como reencontrar um velho amigo. E olha que lance bizarro: o relançamento fez a gente retomar uns contatos (por conta da parte burocrática de contratos e liberações) e até isso já gerou músicas novas! O Mini [Gustavo “Mini” Bittencourt, guitarrista e vocalista], da Walverdes, nos deu uma pérola regressiva de presente na semana passada, que se chama “Não Saber”. E tem coisas novas bem absurdas esperando serem ouvidas — até uma adaptação de um poema do Fernando Pessoa! Não vemos a hora de poder voltar a ensaiar — pensa num grupo enferrujado! — e retomar os planos de dominação mundial, uma nota de cada vez. Enquanto isso, a gente olha pra trás esperando poder olhar pra frente.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista e produtor de conteúdo

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