Entrevista: Luciana Souza fala sobre o curta selecionado para Sundance, “Inabitável”

entrevista por João Paulo Barreto

“A gente está atrasada”. A última frase proferida em “Inabitável”, curta metragem escrito e dirigido por Enock Carvalho e Matheus Farias, denota não somente um desfecho de saída, de fuga para sua protagonista em um escape que flerta com a ficção científica, mas uma constatação. Nós estamos atrasados. Atrasados como Estado, como nação, como país. Atrasados como um lugar que não é ciente do poder das escolhas democráticas. Um lugar que não é ciente das consequências dessas escolhas. Único curta metragem brasileiro selecionado para a edição 2021 do prestigiado Sundance Film Festival, nos Estados Unidos, que segue em plataforma on line até a próxima quarta-feira, o trabalho assinado por Matheus e Enock é um angustiante retrato de Brasil. Na história de Marilene, mãe em busca da filha desaparecida, Roberta, uma mulher trans que não volta para casa no dia seguinte após uma festa com amigos, a sensação e comprovação de insegurança de um lugar no qual as vidas LGBT, vidas negras, vidas indígenas, seguem ceifadas com um aval do Estado, compõe o desespero físico que é construído com um calejar que transparece na expressão de sua protagonista.

A experiente atriz dos palcos baianos, oriunda da Companhia de Teatro Popular e vasta trajetória no Bando de Teatro Olodum, Luciana Souza, dá vida a Marilene, protagonista que tem em sua composição a aspereza que a vida e a falta de surpresas diante de um cotidiano tão brutal lhe servem como uma carapaça de proteção. A composição de Marilene por Luciana é precisa. Atriz, diretora e educadora, Luciana tem uma estrada de mais de trinta anos de palcos, cinema e TV. Com o Bando de Teatro Olodum, atuou em peças marcantes, como “Essa é a Nossa Praia”, “Ó Paí, Ó” e “Bai Bai Pelô”. Recentemente, fez parte do elenco do premiado “Bacurau”. Sobre “Inevitável”, ela salienta a composição de sua personagem a partir de uma dureza trazida pela vida que cerca aquelas personagens que o curta traz. “É uma temática dura. Eu penso que as pessoas que vivem essa realidade, elas se tornam também duras. Pode ter outras formas de se representar isso. Com certeza, tem. Mas o tema vem a apresentar muitas dessas pessoas calejadas com a doença da vida”, explica Luciana acerca de sua composição para a dureza no semblante de Marilene diante daquela busca angustiante e sem respostas por sua filha

Em seu ensaio de um sorriso nos últimos momentos de “Inabitável”, Marilene abre para a audiência uma possibilidade de refletir em uma esperança. Sim, lá está a fuga. Sim, lá está a ideia de que não há mais futuro aqui. Mas aquele sutil sorriso traz um fio esperançoso. Para Luciana Souza, “o filme dá esse contorno que é uma grande gancho. Esse contorno de uma certa esperança, mas de uma esperança que só é possível fora daqui. De alguma forma é até uma utopia. Uma utopia para esse âmbito em que vivemos. A gente não sabe de muitas coisas do além. Acho que dá esse caminho, dá essa esperança de que é possível que haja um lugar melhor para se viver”, observa a atriz e questiona: “Que lugar é esse em que a gente vive e que é um lugar que não nos pertence? É um lugar que não temos o direito de existência? É um lugar que não temos direito a coisas básicas? Eu acho que o filme faz essa grande denúncia, sabe? Esse nome Inabitável é esse lugar que não é habitável. É interessante você falar isso do “Estamos atrasadas”. Estamos atrasados, mesmo. Estamos atrasados de evolução, também. Estamos atrasados de sanar, de passar para outras questões existenciais, de sanar um tanto dessas diferenças”, finaliza.

Nessa entrevista ao Scream & Yell, Luciana fala acerca do trabalho com Enock Carvalho e Matheus Farias, aprofunda os aspectos da construção de sua personagem, e aborda o tema principal de “Inabitável” e sua definição de Brasil. Confira!

Entrevista: os diretores Enock Carvalho e Matheus Farias falam de “Inabitável”

A construção de sua personagem, a Marilene, tem no olhar duro, na fala direta, na postura incisiva, muito do que ela carrega em sua trajetória de vida calejada. Buscando por sua filha, Roberta, que está desaparecida, Marilene tem na sua expressão um sentimento de desesperança, de descrença, uma vez que ela imagina o que pode ter acontecido. Como foi essa composição?
Eu acho que é uma temática dura. Eu penso que as pessoas que vivem essa realidade, elas se tornam também duras. Eu acho que não tinha… (pausa) Não sei, pode ter outras formas de se representar isso. Com certeza, tem. Mas o tema vem a apresentar muitas dessas pessoas calejadas com a doença da vida. E eu penso, também, que tanto o roteiro como a direção, souberam conduzir, contribuir para essa construção dessa personagem muito bem. Houve ali algumas cenas até que não ficaram depois na montagem final do filme e que tinham mais diálogos. E que eu até gostava, sabe? Eu sou do teatro, então, eu sei que a expressão não é só via palavra, a palavra falada, mas desse trato com o texto. Então, eu acho que fiquei um pouco apegada. Mas depois que eu vi o resultado do filme, eu pensei: “puxa, é tão óbvio. E esse tema é tão presente, tão atual, é uma realidade que a gente constata o tempo todo ao nosso redor.” E o filme, ele é muito mais da imagem, ele é muito mais do que a gente pode dizer ali no olhar, na expressão, do que aquilo que podemos emitir através da palavra. Eu trago também no meu histórico uma construção de personagens que vêm com essa característica. Uma característica, eu acho, de dor, de sofrimento, de doença, de calejo com a vida. Eu acho que isso também contribuiu. É uma experiência da minha trajetória enquanto artista, enquanto pessoa que também está com esse olhar para todas essas questões sociais. Não quero dizer que isso se torne uma coisa simples, não. Porque o sofrimento, a dor, não são coisas simples. Mas eu tenho aí diante dessas realidades um grande universo para respeitar. Para me arcar diante da realidade do sofrimento. Sofrimento que a gente fala que é que está ao redor, do alheio, mas que não. Ele nos pertence. Faz parte da vida de todos nós. Estamos interligados de alguma forma. “Inabitável“ vem justamente apresentando essa história e é interessante, pois é em um curta que condensa ali o sofrimento e a dor de muitas pessoas.

Ao conversar com Enock e Matheus, diretores do filme, eles me falaram acerca dessa aproximação e estudo da personagem junto a você. Como foi esse processo com eles?
Quando recebi a proposta de fazer o filme, um pouco anterior ai isso, a gente ainda ali, se conhecendo, se descobrindo, Enock e Matheus me pediram para que eu gravasse um vídeo. Eu não sabia exatamente qual era a história, não tinha o roteiro ainda, mas eles me deram algumas orientações, e eu fui ali pesquisar um pouco sobre essas histórias de perdas, de desaparecimentos, da questão da revelação da sexualidade, de como uma mãe recebe essa notícia. E aí eu fui vendo quantas histórias que merecem ser contadas, que merecem vir à tona. Quantas histórias que merecem ter voz para que a gente possa ampliar essa discussão, ampliar esse debate, e trazer transformação e também mudanças no nosso olhar, no nosso comportamento, no nosso trato com a diversidade da vida. Porque a gente fica muitas vezes no nosso mundo, no nosso circulo, e não consegue ampliar essa visão. E não consegue ampliar essa…. (pausa) eu não diria nem tolerância, pois (a palavra) tolerância fica uma coisa como se a gente tivesse que aguentar, que suportar. Mas é a gente se abrir para outras formas de vidas, outras realidades, e penso também que “Inabitável” traz essa invisibilidade dessas camadas sociais mais populares, dessas minorias, dessa realidade de gênero que está se discutindo muito, e que é difícil, é difícil ainda transformar essa visão preconceituosa que a gente tem. Então, é isso. Eu acho que são muito tópicos que me fazem que me alimentam para, de alguma, forma fazer a construção dessa personagem.

A respiração de Marilene, algo ali conciso, preso, condizente com esse olhar duro que ela traz, denota esse sentimento de angústia, também, não é?
Eu penso que respirar, respiração, é tudo, né? E quando a gente não pode muitas vezes explodir, ou mesmo implodir, só nos resta respirar. E respirar vem da questão orgânica, mas é como se a gente não aguentasse mais e… (pausa) A gente se contém tanto, se segura tanto, internalizamos tanto, guardamos tanto, que é como se fôssemos ali, prendendo a respiração. Prendendo para não sentir a dor. Segurando para não sentir essa dor. E quando isso não é mais suportável, naturalmente vai ter que sair de alguma forma. E eu acho que as respirações são uma coisa importante para o ator, para a atriz, de uma maneira geral. Quando você, seja em qualquer texto, em qualquer performance que se estiver fazendo, isso é um conhecimento até técnico. A gente ir, também, nesse barco. Nessa fluidez da respiração. Então, ela vai dizer muito mais do que talvez falar um texto. E a respiração também vai ajudar na expressão. Está relacionado, também, com o sentimento, com o que está se sentindo ali. E com o que a direção orienta. E a gente discute junto, se é aquilo, se pode ser de outra maneira. Enfim, há uma combinação, aí, mas achei bacana você falar desse ponto. Não sei se eu estou respondendo dentro daquilo que você pensava.

Sim, está. O filme é muito de olhares, muito de sutilezas. E você tem uma longa trajetória no teatro. Por isso, creio que trazer essas sutilezas da composição teatral para o cinema, é um exemplo bem específico para definir a personagem.
Sim, verdade.

“Inabitável” possui uma mensagem urgente quanto ao o que está acontecendo no Brasil no que se refere ao extermínio das vidas negras, LGBT, indígenas. Com a ascensão fascista disfarçada de discursos de direita, nos quais são colocados muito abertamente o fato dessa direita não gostar de minorias. Há frases ditas com todas silabas pelo presidente da República quanto à minorias terem que desaparecer. E Inabitável traz uma resistência. Ele fecha com um final, vamos colocar entre aspas, de “fuga”. A personagem da Roberta fala que “a gente está atrasada”. Que temos que sair daqui. Sua longa experiência como atriz e educadora lhe dá uma visão ampla da importância da Arte como resistência. Resistência de todas as pessoas que enxergam o Brasil como um lugar inabitável.
Com certeza. Eu penso que o que poderia ser previsível no filme, quando a gente sabe do desaparecimento de alguém, especialmente uma pessoa negra, uma pessoa trans, uma pessoa de classe popular, o previsível seria ali no hospital, provavelmente a gente encontrar ou saber de outra forma de uma tragédia. O previsível seria isso. Mas aí o filme dá esse contorno que eu acho que é um grande gancho. Esse contorno de uma certa esperança. Mas de uma esperança que só é possível fora daqui. De alguma forma, é até uma utopia. Uma utopia para esse âmbito em que a gente vive. A gente não sabe de muitas coisas do além. Acho que dá esse caminho. Dá essa esperança de que é possível que haja um lugar melhor para se viver. O que eu acho que isso representa para mim, também, que lugar é esse em que a gente vive e que é um lugar que não nos pertence? É um lugar que não temos o direito de existência? É um lugar que não nos dá direito a coisas básicas? Eu acho que o filme faz essa grande denúncia, sabe? Esse nome “Inabitável” é esse lugar que não é habitável. É interessante você falar isso do “A geste está atrasada”, Estamos atrasados, mesmo. Estamos atrasados de evolução, também. Estamos atrasados de sanar, de passar para outras questões existenciais, de sanar um tanto dessas diferenças. Mas ainda com tanta evolução, com tanta tecnologia, com tantos avanços, mas ainda estamos ali, presos em questões. Isso abre para outros entendimentos. Isso me faz me pensar em globalização, em capitalismo, que ao mesmo tempo em que a gente vê… (pausa) a gente entende. Existe uma abertura de acesso para muitas coisas. Temos determinadas facilidades, mas temos também uma resistência e uma briga contra esses acessos serem negados e sejam limitados. Então, cada vez mais isso de emparedar, negar, destruir direitos, esse tratamento que se dá à cultura, que se dá à educação. Se tem um avanço de um lado, do outro corta-se isso. Tem uma guerra. Isso que a gente vive, essa revelação que a pandemia traz. Claro que, aos meus olhos e de muitos, essas diferenças sempre estiveram, sempre foram muito claras. Principalmente lidando com a educação. Estando ali nas comunidades, estando ali nas escolas públicas. Mas a gente vive um momento em que tem uma corda que está tesando para que ganhos, para que valores não sejam mantidos. Inabitável em como uma esperança de saída que eu acho que não deveria ser assim. Essa saída para outro espaço. Mas que talvez esse espaço nosso… Talvez, não! Esse espaço nosso merece ser de transformação. Merece ser de um outro olhar. Merece baixar a guarda. Merece equiparação. Merece reparação. A gente tem uma história muito triste de colonização, de escravidão, de ditadura, de tantas coisas que nos oprimiram, que nos oprimem.. Do imperialismo, também.

Para o único curta brasileiro selecionado em Sundance ser um trabalho do Nordeste, com realizadores da nossa região, com uma protagonista baiana, é um símbolo imenso.
Estar em um festival como o de Sundance, um festival independente, significa muito. O maior festival de cinema independente, eu acho que é uma representação muito importante. É muito honroso para a gente poder levar esse filme para esse festival. Um evento que tem, também, esse olhar da diversidade. Que tem esse olhar das emergências sociais.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual

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