Cinema: Nova versão de “Pinocchio” encena o real como milagre

por Adolfo Gomes

A Itália fora, na primeira metade do século passado, o principal bastião do regime realista de representação no cinema. Convém lembrar disso quando estamos diante da nova versão de “Pinocchio” (2021), desta vez dirigida por Matteo Garrone. Baseado na obra de Carlo Collodi, o trabalho é fiel à fábula na mesma medida que é devotado à tradição do realismo peninsular. E o faz com uma organicidade espantosa.

Se depois da Segunda Grande Guerra, os filmes italianos, a exemplo de “Roma, Cidade Aberta” (1945), sinalizavam para “a ressurreição” (nas palavras de Godard), vistos como gestos essenciais para o resgate da fé no dispositivo cinematográfico, após o “silêncio retardatário” das imagens, sobretudo em relação ao horror dos campos de concentração. Eis que “Pinocchio” de Garrone restaura o mesmo ponto de partida.

Aqui o real é utopia e imaginação. A um só tempo as convenções da verossimilhança são delicadamente implodidas pela crença num universo fabular com suas regras e códigos próprios. Para ilustrar isso, temos uma direção de arte e cenografia capazes de tornar “possível” e “natural” que títeres com fios se desloquem com uma liberdade que parece emanar algo do Cosmos.

Um mundo de traços humanos, vegetais ou animais, mas que se “realiza” no sonho, nos contos de fadas. É como se um risco, uma linha ou letra restituísse à fantasia mais radical uma certa familiaridade – e de repente aquilo já nos é crível, real. Caso da Lesma, de rosto matriarcal ou, ainda mais transgressivo, do Gato e da Raposa, de todo humanos não fossem uns quatros fios de bigode, uma sobrancelha avantajada e uma costeleta felina.

Garrone filma o espetáculo, do teatro de bonecos às artes circenses com igual inventividade. Evoca as sombras de “Freaks” (1932), de Tod Browning, (a irmandade dos marginais, aqui os desvalidos e abandonados) e até o jansenismo bressoniano ao dar uma piscadela ao asno Balthasar, de “A Grande Testemunha” (1966), na cena que precede ao sacrifício do então burrinho Pinocchio.

Não se trata de aprofundar a treva que subjaz em toda fábula, de contrapor-se ao clássico hollywoodiano da Disney e suas concessões “poético-comerciais” ou simplesmente de oferecer um olhar “realista” a uma cânone da literatura infantil. Mas antes, de reconhecer o imaginário como terreno da criação e luz: admitir a esperança no interior profundo da baleia, para usar a imagem aristotélica que o filme também nos oferece.

E por fim, há Roberto Benigni, num reencontro sob outros termos. O ator que havia realizado, como diretor, uma adaptação cinematográfica de Pinocchio no começo dos anos 2000, volta ao universo de Collodi com uma sobriedade comovente. Nada dos histrionismos que lhe fizeram a fama décadas atrás. Seu Geppetto é um homem solitário e prosaico, espécie de arquétipo do pai. O comediante, na plena asserção do termo, equilibra os registros dramáticos e fabulares com singeleza. Através dos olhos dele o milagre nos é permitido.

– Adolfo Gomes é cineclubista e crítico filiado à Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine)

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