Boteco: 5 estados brasileiros, 10 cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova sequencia por Fortaleza, casa da cervejaria cigana Bold, que produziu essas duas latas na fábrica da Dádiva, em Varzea Paulista, no interior de São Paulo. A primeira delas é a Never Enough Respect, uma Double NE que combina Incognito (lupulina liquida livre de matéria vegetal), Cryo Hops (lúpulo em pó) e Pellets (flores de lúpulo trituradas e compactadas) T90 e T45 das variedades Citra, Motueka e Ekuanot. De coloração amarela turva, juicy tal qual um suco, e creme branco espesso de excelente formação e retenção, a Bold Never Enough Respect apresenta um aroma intenso com muito frutado e cítrico (maracujá, manga e pêssego) condicionados numa paleta levemente resinosa. Na boca, frutado (indefinido) no primeiro toque abrindo para um conjunto sutilmente resinoso em que discreta pegada herbal. O amargor é potente, ainda que equilibrado, algo na casa dos 60 IBUS. A textura é suave e, dai pra frente, segue-se o perfil de uma NE intensa e bastante… “séria”, quando pra mim o que se espera do estilo é mais… alegria. No final das contas, uma Double NE intensa, à flor da pele, 8.3% de álcool, resina leve e frutas. No final, damasco e amargor leve. No retrogosto, damasco.

A segunda da Bold Brewing é a versão Love da série Never Enough, também uma Double NE que combina Incognito (lupulina liquida livre de matéria vegetal), Cryo Hops (lúpulo em pó) e Pellets (flores de lúpulo trituradas e compactadas) T90 e T45 das variedades Citra, Galaxy (o diferencial em relação a anterior) e Ekuanot. De bela coloração amarela turva, juicy tal qual um suco, e creme branco espesso de excelente formação e retenção, a Bold Never Enough Love apresenta um aroma mais equilibrado do que a Respect, com notas cítricas envolventes (laranja), resinoso marcante e herbal discreto. Na boca, laranja deliciosa no primeiro toque abrindo para um perfil com mais laranja, resinoso médio e amargor pungente, mas equilibrado (a mesma sensação de 60 IBUs da anterior, mas não tão arisco). A textura é suave e, dai pra frente, segue-se o perfil de uma NE intensa e bem mais equilibrada do que a Respect, deixando a doçura do malte aparecer (só um pouquinho, mas o bastante para fazer a gente sorrir). No final, laranja e resina suave. No retrogosto, amargor leve e cítrico.

Do Ceará para o bairro da Pompéia, em São Paulo, com dois cervejas da Trilha. A primeira é a Mosaic-Me, uma New England IPA Single Hop (já passaram por aqui a Eldorado-Me, Galaxy-Me e a Citra-Me) que apresenta uma belíssima coloração amarela, juicy tal qual um suco de laranja, e creme branco de média formação e rápida dispersão, algo raro nas cervejas da casa. No aroma, um frutado tropical que começa de maneira suave, mas logo vai liberando notas que remetem a mamão maduro, pêssego e manga. Na boca, essa pegada frutada domina o conjunto desde o primeiro toque, com predomínio de pêssego e de mamão papaya madurinho seguidos por um harsch inicial que incomoda ligeiramente, mas que perde intensidade com o tempo – ainda que deixe um rastrozinho de amargor no céu da boca. A textura é suave e levemente picante. Dai pra frente, uma Juicy IPA bacaninha, ainda que levemente desequilibrada, com picância e harsh excessivos. No final, mamão e harsch médio. No retrogosto, amargor, harsch e pêssego.

Da série “ultrafresca” da cervejaria Trilha, que assim que sai do tanque, enlata e envia para um clube de associados, o lote de setembro trouxe a Double Galaxy-Me (a versão simples já passou por aqui também), uma cerveja de coloração amarela não tão turva, mas turvinha, com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, doçura maltada, frutado (manga, pêssego e laranja) e percepção sutil dos 8.4% álcool. Na boca, uma pancada de doçura caramelada frutada (que aumenta ainda mais conforme a cerveja aquece) no primeiro toque seguida de doçura intensa, muita sugestão de pêssego, manga e laranja leves. O amargor é médio, por volta dos 50 IBUs, e surge embebido em doçura. Já a textura é suave e picante (de álcool). Dai pra frente, uma Double Juicy IPA que não conseguiu elevar as qualidades da versão base, e só fez afunda-la em melado e álcool. No final, doçura e um amargor bem leve. No retrogosto, pêssego e mais doçura.

De São Paulo para o Rio de Janeiro com uma cerveja sem estilo definido, essa doiderinha chamada Better Together, da carioca Quatro Graus, que é fermentada com leveduras Lager (“para produzir uma cerveja potente e refrescante”, segundo a casa) e Ale (“para conferir um aroma cítrico”, explicam). De coloração amarelo alaranjada turva com creme branco espesso de ótima formação e retenção, a Quatro Graus Better Together apresenta um aroma com uma pancada intensa de frutado cítrico (laranja, maracujá, pêssego e damasco), sugestão de mel de laranjeira, herbal (pinho) e resinoso. Na boca, frutas amarelas no primeiro toque acompanhadas de leve traço resinoso. Na sequencia, sugestão de damasco, maracujá e laranja. E resina, suave, mas presente. Os 8.1% de álcool aparecem de maneira suave. Já a textura é suave e delicadamente picante. Dai pra frente, uma cerveja meio estranha, mas interessante e saborosa. No final, frutado e resina. No retrogosto, resina, frutado e leve herbal.

A segunda da Quatro Graus é a quarta cerveja da série Comfort da casa, a Hoppy Blonde, uma Belgian Blond Ale que recebe adição de limão e utiliza os lúpulos Lemondrop, Amarillo, Simcoe, Citra, Mosaic e Eldorado. De coloração amarelo palha, levemente juicy, tal qual um suco de limão siciliano, e creme branco de boa formação e retenção, a Quatro Graus Comfort Hoppy Blonde apresenta um aroma com bastante frutado cítrico, puxado para limão siciliano, mas também com sugestões de abacaxi e pêssego. Há, ainda, leve doçura e esterificação típica de blonde, além de um resinoso sutil, marca de IPA. Na boca, pegada intensa (e de jeitão de DIPA) de frutado cítrico no primeiro toque com laranja em destaque seguida de limão, abacaxi, maracujá, pêssego e amargor marcante na casa dos 60 IBUs, com leve traço dos 8.3% de álcool. A textura é sedosa e picante (de álcool). Dai pra frente, uma cerveja deliciosa 95% DIPA e 5% Blond Ale confortavelmente alcoólica. No final, frutado cítrico, amargor e limão. No retrogosto, limão siciliano.

Do Rio de Janeiro para a Fazenda Santa Terezinha, em Paraisópolis, Minas Gerais, com a primeira de duas Zalaz, a Beta, uma Berliner Weisse mineira (feita sem fervura) que recebe adição de beterraba, goiaba e suco de limão cravo, tudo da própria fazenda, e é fermentada com leveduras selvagens locais. De coloração avermelhada clarinha com creme branco pujante, espesso, de boa formação e média retenção, a Zalaz Beta apresenta um aroma bastante refrescante que combina notas sutis de beterraba e goiaba, com limão cravo ainda mais sutil e percepção leve de acidez. Na boca, beterraba no primeiro toque seguida de leve terroso, goiaba e acidez bem mais sutil do que se espera – há leve doçura, que soa mais aconchegante. A textura é leve e delicadamente frisante. Dai pra frente, uma kettle sour levíssima e deliciosa, que mais parece um suquinho azedinho de beterraba e goiaba, decepcionando quem esperava algo levemente mais radical. No final, doçurinha de trigo, azedinho e goiaba. No retrogosto, mais beterraba.

O segundo experimento da Zalaz é uma Belgian Blond Ale que recebe adição de chá da casca do café cultivado na própria fazenda. Trata-se de uma cerveja de coloração âmbar amarelada turva com creme branco de boa formação e retenção. No nariz, doçura de mel de laranjeira bem sutil, laranja e pêssego. Há, ainda, leve condimentação e um carameladinho sutil. Na boca, mel de laranjeira no primeiro toque, bem leve. Na sequencia, uma combinação saborosa de pêssego, laranja e damasco aliada ao mel e a uma leve condimentação. O amargor não deve passar da casa dos 20 IBUs, o que dá a impressão de um conjunto bem docinho. Já a textura é leve querendo ser suave. Dai pra frente, uma Belgian Blond sem tanta mineirice como se esperava, mas, ainda assim, uma bela cerveja básica. No final, doçura e laranja. No retrogosto, laranja, damasco e mel.

De coloração amarelo palha e creme branco de média formação e retenção, a Tupiniquim Witbier apresenta um aroma pálido, com doçura de trigo em destaque, casca de laranja quase esquecida, nada de coentro e, com vontade, é possível perceber um pouquinho de zimbro. Na boca, doçurinha de trigo no primeiro toque replicando o que o aroma adianta, e trazendo na sequencia pálidas nuances de notas clássicas do estilo (cítrico e condimentado). O amargor é baixo (e pálido) e a textura, leve. Dai pra frente, uma Witbier que refresca, e só, deixando escondidos belos atributos do estilo clássico. No final, amargor leve. No retrogosto, refrescancia.

A segunda da linha básica dos gaúchos é a Tupiniquim Red Ale, uma Irish Red Ale que apresenta uma coloração âmbar acastanhada com creme bege de média formação e retenção. No nariz, bastante percepção de caramelo tostado, que traz consigo sugestão de frutas escuras, de nozes, de biscoito e leve toffee. Na boca, o caramelo tostado continua brilhando dando as cartas do primeiro toque em diante, mas deixando perceber também biscoito, toffee e até sugestão suave de chocolate. O amargor é baixinho, 22 IBUs que soam 2. Já a textura é leve, com discreta suavidade. Dai pra frente, uma Irish Red Ale bastante simplória, mas correta, sem nada que desabone o estilo, ainda que falte uma pegada que faça o bebedor desejar ardentemente por outra garrafa. Não compromete, mas não conquista. No final, tosta. No retrogosto, chá e biscoitos.

Bold Never Enough Respect
– Produto: Double NE
– Nacionalidade: Fortaleza, CE
– Graduação alcoólica: 8.3%
– Nota: 3.65/5

Bold Never Enough Love
– Produto: Double NE
– Nacionalidade: Fortaleza, CE
– Graduação alcoólica: 8.3%
– Nota: 3.90/5

Trilha Mosaic-Me
– Produto: New England IPA
– Nacionalidade: São Paulo, SP
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3.65 /5

Trilha Double Galaxy-Me
– Produto: Double NE
– Nacionalidade: São Paulo, SP
– Graduação alcoólica: 8.4%
– Nota: 3.33 /5

Quatro Graus Better Together
– Produto: Speciality Beer
– Nacionalidade: Rio de Janeiro, RJ
– Graduação alcoólica: 8.1%
– Nota: 3.30/5

Quatro Graus Comfort Hoppy Blonde
– Produto: Blond Ale / DIPA
– Nacionalidade: Rio de Janeiro, RJ
– Graduação alcoólica: 8.3%
– Nota: 3.71/5

Zalaz Beta
– Produto: Brazilian Weisse
– Nacionalidade: Paraisópolis, MG
– Graduação alcoólica: 4.1%
– Nota: 3.38/5

Zalaz Do Rancho
– Produto: Belgian Blond
– Nacionalidade: Paraisópolis, MG
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3.32/5

Tupiniquim Witbier
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Porto Alegre, Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 2.49/5

Tupiniquim Red Ale
– Produto: Irish Red Ale
– Nacionalidade: Porto Alegre, Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 2.99/5

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