Meu disco favorito de 2020: Fiona Apple

MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #11
“Fetch The Bolt Cutters”, Fiona Apple
escolha de Manoel Magalhães

Artista – Fiona Apple
Álbum – “Fetch The Bolt Cutters”
Lançamento – 17/04/2020
Selo – Epic – Clean Slate

Discos como “Fetch the Bolt Cutters” não aparecem todo ano. A indústria da música, renascida com o advento do streaming, não encoraja experimentos ou despadronização. Não existiria ano mais apropriado para um álbum que fala sobre usar um alicate para livrar-se dos demônios, individuais e coletivos, do que este período de reclusão para reflexão forçada. Passamos 2020 trancados em casa, sem perspectivas de retorno à normalidade, alimentando ansiedades e incertezas. O ano e o disco serviram para reforçar que mesmo com tudo parado, muita coisa pode mudar. Protestos por igualdade racial eclodiram em diversos países, o conservadorismo pós-verdade de Donald Trump foi derrotado nos EUA, casos de abuso sexual na indústria do entretenimento continuaram a emergir e gerar debate na mídia. Assim como na letra de “Under the Table”, depois de tantos chutes por debaixo da mesa nos últimos anos, as pessoas aprenderam a resistir e continuar falando o que pensam.

Fiona levou oito anos para produzir seu quinto álbum (só a gravação durou cinco), o que é atípico até para artistas fora do mainstream. A bíblia do marketing digital na música repete que é imperioso alimentar o algoritmo. Todo mês, todo semestre, ano após ano. Obviamente, uma obra que teve o benefício de quase uma década de maturação vai destoar em profundidade e acabamento. Todas as escolhas parecem convergir para a expressão do conceito de luta por libertação. Letras longas, vocais despidos dos tratamentos pasteurizados da música pop, o cachorro latindo. Nada neste trabalho de Apple é pura despretensão, muito pelo contrário, é pretensão demais, de uma compositora de 42 anos que sabe muito bem o que está fazendo e sobre o que está cantando.

Não compro fácil o tipo de mítica que cercou o disco na imprensa: foi gravado em casa, de brincadeira, quase como em uma festinha entre amigos registrada no Iphone. O nível de realização vocal e instrumental de “Fetch the Bolt Cutters” é difícil de alcançar e o trabalho de mixagem de Dave Way é deslumbrante. O álbum está fora do padrão de qualidade da indústria porque é melhor e menos padronizado, só isso.

As letras confessionais, um grande exercício público de auto-análise, são o principal destaque. A minha favorita é “I Want You to Love Me”, que abre o disco com o piano de Fiona e o lirismo de uma declaração de amor a um futuro amante. A canção soa também como um inventário do estado de espírito que a cantora precisa alcançar para apaixonar-se outra vez, agora mais segura da vida que deseja viver. Para os obcecados nos detalhes de letras, recomendo a entrevista e o faixa a faixa que a Vulture produziu com Apple. Ela explica muitos versos e esmiúça o processo criativo.

“Fetch the Bolt Cutters” é um disco que trata essencialmente da luta por liberdade individual, de pensamento e aceitação. É sobre não se conformar com os espaços designados e restrições pessoais ou socialmente impostas. Em um ano em que boa parte da população mundial lutou de forma ainda mais dramática que o normal por subsistência, pegar um alicate para livrar-se das amarras simbólicas é um conselho até bem direto para quem não quer permanecer letárgico. And next year, it’ll be clear.

– Manoel Magalhães (@manoelmagalhaez) é músico e jornalista. Vive no Rio de Janeiro.


MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #12
“Fetch The Bolt Cutters”, Fiona Apple
escolha de Pedro Salgado

Fiona Apple sempre nos habituou a melodias aprimoradas e a temáticas psicológicas que encontraram ressonância no público e na crítica. No entanto, nada nos preparou para a intensidade de “Fetch The Bolt Cutters” e para a sonoridade estimulante que foi trabalhada durante cinco anos, na casa de Fiona Apple, em Venice Beach, na Califórnia.

Ao longo do disco, Fiona revela uma imprevisibilidade interpretativa que, em conjunto com o desempenho eficiente dos seus músicos, resulta numa catarse emocional. Essa abordagem, transporta o ouvinte para uma viagem sonora, na qual a dimensão humana e as histórias cotidianas são apresentadas com urgência e em que a vertente musical revela-se sedutora.

O álbum vale como um todo e a experiência é única, mas faixas como a exploratória “I Want You To Love Me”, a fascinante “Under The Table” ou o carrossel sonoro a três tempos de “For Her” provam igualmente que o aventureirismo e a dinâmica de Fiona Apple também se convertem em momentos singulares de excelência. “Fetch The Bolt Cutters” é um magnífico trabalho pelo fato de exibir uma saga do dia a dia simultaneamente complexa e fascinante.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. 

TODOS OS DISCOS FAVORITOS DE 2020 ESTÃO AQUI

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.