Entrevista: Criaturas lança “Vestígios” ou o rock encontra a maturidade

entrevista por Leonardo Vinhas 

Talvez maturidade e rock pareçam elementos inconciliáveis para quem tem uma visão superficial do gênero. Ou talvez essa seja uma associação mais pertinente ao rock brasileiro, já que pouquíssimos artistas mainstream do estilo tenham conseguido envelhecer sem abandonar a eterna adolescência, apegando-se a canções de amor banal, regatinhas justas ou o kit básico de clichês do gênero. Felizmente, há exceções notáveis a esse cenário entre artistas menos conhecidos, e o quinteto curitibano Criaturas soma-se a esse grupo com louvor com “Vestígios”, seu primeiro lançamento em 11 anos.

Fundada em 2003 por Xanda Lemos (voz e guitarra) e pelos irmãos Bruno e Caetano Zagonel (bateria e baixo, respectivamente), a banda teve algumas flutuações na formação e embarcou numa onda mod punk bem cara à cena da capital paranaense na época. “Lugares Comuns”, de 2005, reflete bem esse momento. Já “O Sexto Dedo” (2009) tem uma ponte entre MPB e o rock sessentista que por vezes funciona, por vezes soa incompleto. “Vestígios” (2020) é um animal de outra espécie, com uma resolução musical superior aos lançamentos anteriores e a muito do que tem sido feito a partir de guitarras no Brasil.

O disco traz cinco canções onde a psicodelia é um elemento presente, porém jamais dominante, em meio à concisão pop. Há espaço para delicadezas, silêncios e passagens uptempo; cabem, ainda, percussões e flautas, letras em três idiomas diferentes e uma poética direta, solar mesmo quando fala de temas mais obscuros. As mesmas cinco canções são reapresentadas no disco em versão instrumental, e o álbum deve ser lançado em vinil em breve.

A pré-produção do disco ocorreu em grande parte nos Estados Unidos onde Xanda e Bruno Zagonel, seu marido, residem desde 2009. Mesmo não morando no estrangeiro, Caetano também participou ativamente do álbum, que foi completado em estúdio com a incorporação dos sobrinhos de Xanda, os irmãos Yan e Yuri Lemos, nas guitarras. Xanda “recebeu” o Scream & Yell em sua casa via teleconferência, em intervalo entre suas responsabilidades como doutoranda em História e mãe – dois aspectos de sua vida que influenciam bastante no disco. A conversa foi além de “Vestígios” e passou pelos temas de maturidade, maternidade e mais.

Há muito tempo a Criaturas é uma banda adequada a essa característica “remota” da qual tanto se fala nesses tempos de Covid-19. Isso ajudou vocês a lidar com o fato de o disco não ter circulado em turnê, ou isso é algo que nem incomoda vocês?
Não nos incomoda. O tanto que o disco já andou, já conseguimos mais de 20 mil streamings, tem canções que estão tocando em rádios aqui [nos EUA] e aí [no Brasil]. Mas sobre isso de trabalharmos à distância: a gente entrou na cena numa época de transição, era MySpace, Orkut, o começo dos anos 2000. E quando eu e o Bruno viemos para cá em 2009, lançamos “O Sexto Dedo”. Esse sim ficou completamente estancado. Não usamos as mídias para divulgá-lo como se deveria. Estávamos nos adaptando a uma nova cultura, eu estava iniciando o meu mestrado, e tudo isso demanda uma grande energia. “Vestígios” está alcançando agora um espaço muito maior que eu imaginei. Foi uma surpresa em vários sentidos.

O disco nasceu de uma maneira bastante imprevista, não?
Sim. Quando fomos pro Brasil pela última vez, não pensávamos em gravar. Tínhamos gravações caseiras, as quais mostramos pro Marcelo Crivano (do selo Volts) e ele disse que seria o primeiro lançamento do selo. Foi muito inusitado, mas veio muito a calhar. A gente já tinha falando com meus sobrinhos, o Yan e o Yuri Lemos, sobre fazer alguns revivals do Criaturas, então já tinha algo meio que preparado. Conseguimos tempo só no Carnaval de 2019: ficamos cinco dias enfurnados dentro do estúdio, enquanto todo mundo pulava (risos). O resultado ficou muito acima do que nós esperávamos. Foi feito com muito profissionalismo, num estúdio muito bom (Nico’s Studio), com produção do Bruno Sguissardi, um grande músico que está se revelando um excelente produtor. E a gente ainda teve a felicidade de masterizar com o JJ [Golden], que é um cara da Califórnia que faz muitas mixagens para a Daptone (nota: selo de soul, funk e r&b que lançou Sharon Jones, Charles Bradley, The Sugarmen 3 e outros). Entramos em contato e ele topou fazer de boa. A qualidade sonora desse EP ficou muito superior a qualquer coisa que gravamos em nossa carreira.

Mas tem uma diferença na qualidade de composição. O “Lugares Comuns” tem umas coisas quase punk, “O Sexto Dedo” tem um lado diferente, mais próximo do que se tem hoje no “Vestígios”, mas ainda é distante do resultado desse EP. Nesse, vocês dilapidaram muito as possibilidades de cada canção, avançando no que elas poderiam oferecer sem jamais alienar o ouvinte. O que você acha que contribuiu para essa particularidade do disco?
As músicas mostram mesmo uma outra faceta, mas ao mesmo tempo resgatam muito do que já foi o Criaturas em outros momentos da existência. Parte disso é porque essas músicas foram sendo produzidas entre 2015 e 2019, tivemos muito tempo para trabalhar os arranjos. Tanto que os arranjos do disco são muito fiéis ao que desenhamos aqui em casa. Os meninos (Yan e Yuri) contribuíram com muita coisa, é óbvio, deram muita ideia legal. Tem uma ponte que tem dois solos em “Sunday”, ela veio quando Bruno Sguissardi notou que a canção não tinha uma parte C, então fomos pra um fá, uma relativa do acorde. Foi toda uma coisa colaborativa com o Bruno e com o Yan e o Yuri, que também são produtores e músicos muito dedicados. Agora, a diferença do “Lugares Comuns” pro “Sexto Dedo” tem a ver com esse esmero que demos às músicas. O “Lugares Comuns” foi praticamente ao vivo, gravado em uma tarde de estúdio. Já “O Sexto Dedo” levou quase um ano. O “Vestígios” foi gravado em cinco dias, mas levamos quase quatro anos trabalhando nas canções. E tem outra coisa: a gente nasceu muito influenciado por Mutantes, Kinks, eu não usava nem guitarra no começo, tocava violão (risos). Aí o Rafa [Rodrigues, guitarrista] entra e vem com uma referência forte do punk, que influenciou muito o primeiro EP. Mas em 2007 ele saiu da banda, e o punk rock meio que saiu junto com ele. Além disso, o produtor era o Fred Teixeira, muito mais da praia da MPB que do rock. O disco tem bastante guitarra, mas puxa muito para minha veia MPB e menos para a veia rock da banda em geral.

E qual é a de “Omalola”? Imagino que já tenham te perguntado sobre ela, mas a versão de vocês impressiona, e realmente me intriga uma releitura de uma canção do folclore nigeriano.
Essa música simplesmente entrou na nossa vida de uma forma muito impactante. Chegamos em Atlanta em 2015 e eu estava grávida de sete meses. O Anthony nasceu com uma cardiopatia muito grave, e como a diária na UTI era muito cara, o médico recomendou que o trouxéssemos para casa com o cilindro de oxigênio, vários cuidados. Para isso, tivemos que assinar um documento atestando que iríamos contratar uma enfermeira que iria diariamente ver a evolução do quadro dele em nossa casa. Nós ligamos para uma empresa, que enviou essa mulher chamada Omalola. Era uma mulher negra, com três cicatrizes grandes na bochecha, e eu queria saber mais sobre aquilo, mas não queria ser invasiva. Perguntei de onde ela vinha, e ela me contou que nasceu na Nigéria e veio para New Jersey com sete anos. Ela ficou um mês com a gente e acabou ficando mais amiga. Ela cuidava do meu filho e de mim – eu tive depressão pós-parto, eu não tinha leite e ela me ajudou a amamentar. Eu não tenho palavras para descrever o que essa mulher representa na minha vida. Quando o Anthony ganhou alta do cardiologista, pedi pra Omalola gravar uma música da infância dela. Eu queria ter algo dela para poder gravar no meu celular para ter um jeito de me lembrar dela e também para cantar pro Anthony uma música da Omalola. Aí ela me gravou esse voice memo com uma canção em iorubá sobre o que fazer para deixar uma criança feliz. “Omalola” é também uma palavra que remete à “criança”. A música fala em dançar com a criança, é quase uma canção de ninar. Ela abre o voice memo falando “this is Omalola” e foi o sample disso que a gente colocou na canção. O Caetano, meu cunhado, estava aqui, conheceu o sobrinho recém-nascido, e logo propôs fazer uma versão dessa música. Começamos a ouvir muita música nigeriana, principalmente Fela Kuti, para entender a estrutura e construir as linhas de baixo e percussão da música. A música dele tem muitos sopros, também, mas optamos por nos concentrarmos nas camadas de percussão. Mas as percussões que gravamos aqui ficaram horríveis, porque nenhum de nós manja disso. Quando o Caetano voltou para o Brasil, botou a música na mão do Gui Miúdo e da Mari Zibáh, que tocam na Central Sistema de Som. Eles fizeram a linha percussiva e a de flauta, respectivamente. É uma música tricontinental: nasce na memória de uma nigeriana que canta com sotaque americano, foi pré-produzida nos EUA e gravada no Brasil. Essa música me deixou com a pulga atrás da orelha, porque é difícil saber o que é apropriação e o que é apreciação; E estamos em tensão racial muito forte em pleno século XXI, o momento hoje é muito diferente de 2015. A relevância dessa música tomou outras proporções, é revolucionária em vários sentidos: lembra a revolução tricontinental do Che Guevara, e marca esteticamente essa coletividade que existe em algumas partes da África que não foram totalmente ocidentalizadas. Por outro lado, a conexão dela conosco é muito forte: eu e o Bruno estávamos nascendo como mãe e pai, depois vivenciando isso de vir para casa e deixar o filho no hospital, e depois ter esse momento em que a Omalola nos ajudou tanto. A música começa com o batimento cardíaco do Anthony ainda na minha barriga, mas ela não é uma música nossa, nem da Omalola, ela representa algo muito maior e espero que as pessoas não a interpretem como uma apropriação.

Vocês chegaram a fazer alguma apresentação ao vivo nesse período aqui no Brasil?
Fizemos uns revivals com as músicas que a galera já sabe cantar, e tocamos “Vanity” e duas músicas novas minhas, mas nada de “Vestígios”, curiosamente.

E quando você voltou, se deparou com alguma banda curitibana que chamou tua atenção?
Teve o Wi-Fi Kills, que é uma banda do Chucrobilly Man com a Babi na bateria. A outra banda nova da Babi, Cigarras, eu achei maravilhoso. Mas não vi muitos shows, porque nessa temporada brasileira fiz muitas viagens ligadas ao meu mestrado, fui pesquisar registros históricos em São Paulo, Recife… Quando voltava para Curitiba, queria ficar com meu filho, então não saía muito. Mas fiz questão de ver as Cigarras, sou muito fã, mesmo. Meu sobrinho Yan toca no Escambau, que eu gosto também, mas minha praia é mais Cigarras e Wi-Fi Kills.

Voltando ao “Vestígios”: ele é um disco de “rock para adulto”, algo que me parece faltar no Brasil. Sei que soa engraçado pensar em “rock adulto” já que o estilo é juvenil desde o nascimento. Porém, o rock anglo ou mesmo o de países como Argentina e Uruguai tem um universo gigante de autores que tratam de um universo mais maduro, de temas menos urgentes. Eu vejo o “Vestígios” como um disco bem maduro nesse sentido, e, como eu disse, são poucos os que fazem isso no Brasil. Como você vê essa relação do rock com esse mito de juventude eterna?
O rock é um espaço para discutir qualquer coisa de qualquer fase da vida. Como ele foi criado com a coisa meio rebelde dos anos 1950, essa estética ficou muito associada ao estilo. Por outro lado, você vê que os Beatles começaram bem juvenis e tiveram uma evolução rapidíssima. David Bowie fazia rock e não falava só de festas, juventude e rebeldia. Ele trazia questões existenciais muito profundas. Concordo contigo: muitas das coisas que escutei de rock brasileiro quando eu estava em Curitiba me faziam sentir como se eu estivesse nos anos 2000 (risos). A galera ainda estava falando das mesmas coisas, e isso pra mim é um apego bobo. Se você perguntar pros meus sobrinhos se rock é música de jovem, eles vão dizer que não, que é música de velho (risos). Cada um fala e canta o que quiser, mas o que falta em geral no Brasil é conteúdo. As pessoas não leem muito. Caras como Tom Waits, Nick Cave, eles devoram livros, filosofias, e dá para você ouvir isso na música deles. No meu caso, a maturidade veio depois da maternidade, depois de 2015. Porque eu virei uma outra pessoa. Eu não sou mais aquela roqueira maluca que fundou os Criaturas. Sou uma mãe, uma pessoa que está fazendo doutorado, que leu muito. Não digo que tento colocar filosofia em minha música, mas quando canto sendo sincera comigo, a música reflete essa mudança, essa maturidade. “Réquiem” mesmo é uma reflexão sobre envelhecer, e não é nada profunda, é sobre uma mãe que está ficando careca (risos)… Ainda assim, tenho orgulho de falar que as músicas que toquei nos revivals não me deram vergonha, nem “Bianca”, que é toda bobinha. Mesmo tendo ingenuidade, é uma canção que trata de questões de auto-imagem que toda mulher passa. Mas realmente, muitas das coisas que ouvi recentemente me fizeram pensar porque as pessoas não crescem ou não refletem sobre esse momento novo da vida. E parte disso acho que vem porque há pessoas que se recusam a amadurecer. Tem muito cara grande por aí que é piazão de bosta. Mas tem ouvintes para tudo, e a gente tem que cantar, produzir e compor as canções que refletem nossa existência. O rock sempre foi muito antidemocrático em vários aspectos, e não quero praticar esse autoritarismo (risos). Então, cada um cante o que quiser.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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