Meu disco favorito de 2020: Elvis Costello

MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #9
“Hey Clockface”, Elvis Costello
escolha de Alessandro Andreola

Artista – Elvis Costello
Álbum – “Hey Clockface”
Lançamento – 30/10/2020
Gravadora – Concord

Elvis Costello foi para Helsinque, na Finlândia, porque — segundo ele — lá ninguém o conhecia. Aproveitou para gravar três canções: “No Flag”, “Hetty O’Hara Confidential” e “We Are All Cowards Now”, nas quais, além de cantar, toca todos os instrumentos. Há no mundo pop de 2020 uma metáfora mais perfeita para o isolamento social?

As três canções foram os aperitivos para “Hey Clockface”, que ainda passou por gravações em Paris (“Finalizamos nove canções em dois dias. Falamos muito pouco. Quase tudo que os músicos tocaram foi uma resposta espontânea ao que eu estava cantando”) e em Nova York, onde Costello nem colocou os pés — as sessões foram comandadas pelo trompetista Michael Leonhart e o cantor gravou seus vocais remotamente.

De toda maneira, a trinca gravada na Finlândia já sugeria um grande disco. Nenhuma surpresa: em seu período “maduro”, Costello vem entregando trabalhos nunca menos que dignos, o que não deixa de ser uma façanha dada sua predisposição a explorar tantos novos territórios, que vão da ópera ao jazz e da música caipira americana ao hip-hop.

E nesse sentido, “Hey Clockface” mais uma vez está longe de ser um álbum de rock “puro”. O disco oferece sucessivas guinadas inesperadas e Costello vai fundo em um balaio que parece revisitar partes distintas de sua carreira — o trompete de Leonhart a toda hora evoca o Chet Baker de “Shipbuilding”, assim como “No Flag” poderia estar em “When I Was Cruel” e o conto noir de “Hetty O’Neil Confidential” parece pertencer às letras de “Imperial Bedroom”.

Falando em letras, esse é possivelmente o grande ponto de unidade do disco. “Hey Clockface” traz um conjunto de carga poética inspirada, além de flertar com coisas ainda pouco exploradas por Costello (e nessa altura é um pouco surpreendente que elas existam): os versos falados da abertura “Revolution #49” e de “Radio Is Everything” (essa gravada pela turma de Nova York, com participação do guitarrista Nels Cline), mas principalmente o ragtime da faixa título, que empresta a melodia de “How Can You Face Me”, do pianista Fats Waller, para brincar livremente em cima do mesmo tema da original. Costello aqui soa um pouco como Randy Newman e é interessante que o disco mostre variações não tão comuns na voz dele, no que é uma das surpresas do disco — ao longo de “Hey Clockface” ele faz pequenos desvios da dobradinha “cantor de rock/crooner”, suas facetas mais evidentes, para se arriscar em falsetes e na declamação de poesia, entre outros recursos.

Os anos vêm provando que é difícil esperar um mau disco de Costello, mesmo que a essa altura não se espere mais dele um novo clássico absoluto. Mas “Hey Clockface”, com seus picos de perfeição, é sério concorrente a uma vaga nos destaques da discografia do homem.

Alessandro Andreola é jornalista, autor dos livros “Música do Dia” e “The War On Drugs: Lost In The Dream” e um dos responsáveis pela Editora Barbante

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