Meu disco favorito de 2020: Fontaines D.C.

MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #7
“A Hero’s Death”, Fontaines D.C.
escolha de Thiago Pereira

Artista – Fontaines D.C
Álbum – “A Hero’s Death”
Lançamento – 31/07/2020
Selo – Partisan / Rough Trade

De certa maneira, a trajetória fonográfica do Fontaines D.C. me serve como alegoria pessoal nos últimos dois anos- e acho que é também por isso que essa banda (sem absolutamente nada de especial, convenhamos) ganhou um lugar mais ou menos especial na categoria ‘coisas novas que gosto’. Penso que os conheci no ano passado, durante uma temporada europeia, onde “Dogrel” me acompanhou por andanças por lá. Assim como a banda, estreante em disco (e denotava essa euforia em vários momentos do álbum), tudo pra mim soava meio ‘estado de graça’. Paisagens e vivências novas eram muito bem sonorizadas pelos grandes momentos do disco- não muitos, mas, para meus ouvidos, realmente grandes, como intencionavam a faixa de abertura, “Big” (o clipe é obrigatório também).

Os morrisseyanos versos iniciais “Dublin in the rain is mine/ A pregnant city with a catholic mind” me fizeram pesquisar voos para a cidade irlandesa (caríssimos, ficou pra próxima); o refrão sintetizava meu estado de espírito enquanto me perdia em algum subúrbio em Manchester ou Porto (“My childhood was small/ But i’m gonna be big!”). E o disco guardava coisas que batiam (e ainda batem…) mais fundo, como a beleza pós-punk de “Television Screens” e a melhor homenagem feita a mais irlandesa das bandas de rock (The Pogues, claro), a esplendorosa “Dublin City Sky”, pequeno conto romântico perfeito para sonorizar algumas tardes solitárias e bêbadas (“As drunk as love is lethal, I spun a lady ‘round/ And I kissed her ‘neath the waking of a Dublin City sky”) em tediosos pubs…

Corta para Brasil, 2020, um ano que…bem, todos já sabemos. Sobre música, particularmente, o que posso dizer é: nunca precisei e usei tanto. Ao mesmo tempo, nunca estive tão desinteressado em coisas novas, desconectado, impaciente, portanto com um poder de descarte impiedoso. Ou seja, um dos meus maiores medos se concretizou temporariamente este ano, mas…este ano né? Temos que passar um paninho para nós mesmos em 2020… De qualquer forma, um pouco culpado com essa situação (a deusa me livre de me tornar o tiozão-no-meu-tempo-que-era-bom) em algum momento fui consultar os lançamentos.

Para minha surpresa, encontrei um disco novo do Fontaines D.C. Mas já? Não tão surpreso assim, escuto que “A Hero ‘s Death” é o famoso, temível e indefectível, ‘segundo disco’. Aquele mesmo, que em um olhar generoso ganha o adesivo quase charmoso de ‘difícil’, mas que muitas vezes é a materialização da lei escrita em rock em muitos túmulos de bandas novas: “Não cumpriste o que prometeste, adeus”. Meu saldo final é um pouquinho das duas coisas: trata-se de um trabalho que, em linhas gerais, no conjunto, é até mais regular, mais coeso que a estréia. Mas não alcança os brilhos intensos que esta ofereceria (basicamente: não tem momentos pessoais inesquecíveis como os citados anteriormente), o que pavimenta com alguma chance a estrada para o esquecimento.

Mas … 2020 né? O que a vida pediu da gente foi coragem, honestidade, sinceridade e alguma força. E olha, quando eu mapeio o disco ao redor do meu (e só meu) umbigo…Meu chapa, funciona, bate legal, serviu bem. Literalmente (em função das letras), sonorizou e afirmou declarações pra mim mesmo em semanas vazias de tudo nessa quarentena. Do início com os tons lúgubres de “I Don’t Belong” (“Não pertenço a ninguém, e nem quero”), seguida por “Love Is The Main Thing” (e não é, sempre?), alcançando uma boa e inspiradora dobradinha dos arranjos deliciosamente 80s, na chave The Sound/ Bunnymen, de “Televised Mind” e “A Lucid Dream”, até chegar a faixa título (” A vida nem sempre é vazia…não se prenda ao passado”) a mensagem vai sendo escrita, de forma impressionantemente nítida: ACORDA E SEGUE O BAILE NESSE BRASIL DE MERDA.

Se o miolo do disco (“Living in America”, “You Said”) pouco inspirado, esquecível, parece uma âncora que quer afundar a qualquer custo a admiração pela ‘coragem’ dos caras em fazer um disco tão sincerão nessa altura do campeonato (parece estranho, mas o Fontaines DC não fez um punhado de músicas, fez algo próximo a uma obra mesmo), na última faixa do disco (“No”) eles meio que repetem o truque musical do primeiro (que fechava com “Dublin City Sky”). Jogando acordes parcos de guitarra para fazer climinha, deixando a voz em primeiro plano, fazem uma bela canção sobre a culpa, mas principalmente, sobre a redenção (And we know what freedom brings/ The awful songs it makes you sing/Don’t you play around with blame/ It does nothing for the pain). E de repente, o disco e a trajetória do grupo se faz entender; e esse esforço (quase heróico), como as cachaças todas que bebemos por estes dias estranhos, pode comover feito o diabo, viu?

Porque muitas vezes, a única coisa que queremos é um disco que fale: tudo vai se acertar. Ou ainda, como parece ser a mensagem escondida do Fontaines D.C. nessa empreitada: tudo já se acertou, porque ainda estamos aqui. E que ela venha em um disco ‘difícil’, ‘irregular’ parece só deixar ainda mais interessante sua intenção.

– Thiago Pereira  é jornalista, professor, pesquisador e divulgador voluntário da campanha “Eu Avisei”, em curso no Brasil até 2022. Cruzeiro acima de tudo: deboche acima de todos.

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