Meu disco favorito de 2020: Taylor Swift

MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #4
“Folklore”, Taylor Swift
escolha de Rodrigo James

Artista – Taylor Swift
Álbum – “Folklore”
Lançamento – 24/06/2020
Selo – Republic

No ano mais difícil de nossas vidas, uma pergunta se fez presente e a resposta foi fundamental para que entendamos quem somos: o que te move?

Foi preciso – e ainda vai ser por um bom tempo – olhar para dentro e buscar nas emoções, nas razões, nas ações, algo que nos fizesse olhar para frente e caminhar. Esperança? Para muitos, ela esteve nas coisas mais simples: um olhar, um gesto, um encontro virtual, o sorriso de uma criança, uma notícia acalentadora. Não foi fácil. Não está sendo fácil.

Não houve uma só pessoa que não tivesse buscado estas respostas. E nisso somos todos iguais. Homens, mulheres, pretos, brancos, heteros, homos. Todos iguais perante qualquer lei que exista ou venha a ser criada. Foi o ano em que mais estivemos iguais, compartilhando do mesmo sentimento, a cada despertar.

E mais do que nunca a arte foi nossa companheira, ainda que os artistas também sejam humanos e tenham buscado suas respostas, assim como nós. Foi o ano em que muitos questionaram suas condições, suas relevâncias e, principalmente, se seus públicos encontrariam em suas palavras algo que os ajudassem com suas próprias respostas. Não foram poucos os que sucumbiram e transformaram 2020 em um ano sabático. Não deve mesmo ser fácil não ter o que dizer quando seu ofício é dizer.

Nunca fui um fã de carteirinha de Taylor Swift. Sempre admirei uma ou outra canções, mas não acompanho sua carreira com o afinco e a dedicação de seus milhões de fãs. Uma das artistas mais populares do mundo, Taylor Swift é daquelas que sempre transitou fácil por vários gêneros musicais. É possível enxergar nela uma artista irrequieta, que busca caminhos na medida em que vai amadurecendo e criando calos na alma.

E então, Taylor Swift me conquistou.

Em primeiro lugar porque ela fez o que quis. Ok, todos os artistas fizeram o que quiseram neste ano, mas Taylor foi além. E nem estou falando de sua briga com Scooter Braun, que a levou a regravar todos os seus discos anteriores (o que, por si só, é um projeto mais do que ousado e inédito), mas de sua vontade em produzir mais. Ao se reunir com Aaron Dessner, uma das cabeças pensantes por trás do The National, Taylor encontrou não só um parceiro, mas um novo caminho para sua carreira, principalmente ao flertar com um tipo de som que não havia experimentado até então.

“O disco da cabana” ou o disco “indie” de Taylor Swift foi lançado de forma repentina em julho e levou o nome de ‘Folklore”. Logo na capa, um aviso do que estaríamos prestes a ouvir: uma Taylor sozinha, em meio a uma paisagem bucólica, que poderia ser no Wisconsin, no Maine ou em qualquer outro estado longínquo norte-americano, mas que de certa forma reflete um pouco do que atormenta sua alma. Ali, sozinha em sua casa, envolta em uma paisagem preto-e-branca, Taylor embarcou em uma jornada que acabou mostrando não um despojamento, mas um novo estilo de vida e uma nova personagem. A Taylor das super produções, das turnês gigantescas deu lugar a uma Taylor mais insegura, frágil e artesanal, ainda que focada em realizar seu melhor trabalho.

O que muita gente não percebeu logo de cara é que “Folklore” não é um disco em que Taylor sai da sua zona de conforto e envereda por outros estilos musicais. É um trabalho em que ela incorpora estes novos sons ao seu próprio universo e se permite até mesmo contar outras histórias que não as suas. Acostumada a fazer canções autobiográficas, Taylor Swift olhou ao seu redor e percebeu que poderia contar outras histórias e que isso não só faria muito bem a ela como a colocaria em um outro patamar de composições. “The Last Great American Dynasty” e “Exile” talvez sejam as canções que melhor representam a proposta do álbum e desta nova Taylor. Enquanto a primeira conta uma história que poderia ser contada pelo… The National; na segunda ela busca a ajuda de Justin Vernon, do Bon Iver, para falar do fim de um relacionamento, mas de uma forma madura, ainda que guardando algumas semelhanças com as letras autobiográficas do passado. É Taylor Swift deixando claro que, ao evoluirmos, não desprezamos os sentimentos que ficaram para trás, mas os superamos e construímos uma nova forma de sentir.

Talvez esta ultima frase sirva também para sintetizar o que é “Folklore”, um álbum que não esquece a Taylor Swift do passado, mas aprende com ela, incorpora novos elementos e dá alguns passos adiante para um futuro ainda incerto. Se a Taylor cidadã ainda está como todos nós, receosos com o que pode estar por vir e com muitas dúvidas sobre o nosso futuro, a Taylor artista encontrou sua palavra e a está espalhando por aí, para que ela possa ser ouvida, interpretada e, quem sabe, traga algum acalento para seus novos e velhos amigos.

Rodrigo James é Publicitário. Jornalista. Produtor. Crítico. Cafezeiro. Cervejeiro. Podcasteiro. Videomeiquer. Digital Creator. https://esquemanovo.com.br

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