Meu disco favorito de 2020: Waxahatchee

MEU DISCO FAVORITO DE 2020 #2
“Saint Cloud”, Waxahatchee
escolha de Pedro Hollanda

Artista – Waxahatchee
Álbum – “Saint Cloud”
Lançamento – 27/03/2020
Selo – Merge

O caminho da recuperação é difícil, cheio de pequenos e grandes fracassos, incertezas, mas também uma oportunidade de descoberta. Katie Crutchfield parou de beber em 2018 num processo descrito por ela própria em entrevistas como tentar se tornar uma “pessoa pessoa” ao invés de uma “pessoa do mundo da música”. Com essa decisão, deu-se início um processo de auto-descoberta e reavaliação de sua vida que acabaram mudando o som de Waxahatchee, projeto pelo qual ela lança discos desde 2012.

Distorção e letras tortuosas onde tripas são feitas coração constantemente deram lugar para a paisagem da estrada mítica americana e a sabedoria de quem comeu o pão que o diabo amassou e sobreviveu para contar as lições aprendidas. Crutchfield abraçou suas raízes sulistas, com influências do country de Loretta Lynn, Tammy Wynette e Lucinda Williams, além do rock melódico de Tom Petty and the Heartbreakers para fazer talvez seu trabalho mais bem realizado até agora.

Enquanto antes traumas eram minados para inspiração e a compositora parecia viver em meio às suas inseguranças, quando não dominadas por elas, agora ela demonstra sabedoria ao explorar seus erros e entender que pequenos fracassos são meras pedras no caminho, não abismos intransponíveis forçando-a a voltar para trás.

Em “Lilacs”, um dos destaques do álbum, ela descreve como em relacionamentos busca validação no outro, num estado constante de dependência, como isso acabou a fragilizando e agora ela se esforça para flagrar em si e mudar esses padrões. Essa canção dialoga demais com “Fire”, uma das mais lindas canções de 2020, em que ela faz uma declaração de amor ferido à ela mesma, prometendo trabalhar nos próprios defeitos de maneira constante para se amar mais.

Esse trabalho constante é o tema central de “Saint Cloud“. O caminho de auto-descoberta e afirmação não é uma linha reta. Sentimos medo de voltarmos a hábitos antigos porque esse perigo existe. Nos enganamos ao pensar ser mais fácil e conveniente viver de maneira bagunçada para sermos interessantes, como a própria Katie Crutchfield falou numa entrevista para o Pitchfork, mas existem recompensas ao procurarmos o amor em nós mesmos. O mundo de repente se abre com a imensidão de uma estrada infinita e é possível explorar lugares nunca antes vistos. E “Saint Cloud” é a trilha perfeita para essa jornada.

Pedro Hollanda (@phollanda) é formado em comunicação social, tenta fazer filmes e escreve o blog de cinema Teatro Magnético

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