Entrevista: Tico Santa Cruz (Detonautas Roque Clube)

entrevista por Bruno Lisboa

Com mais de 20 anos de estrada, o Detonautas Roque Clube faz parte da frutífera cena rock brasileira do fim dos anos 90 / início dos 2000, período em que nomes como Tihuana, Strike, Fresno e Nx Zero conquistaram popularidade e grande veiculação midiática, numa época em que rádios e MTV ainda cediam espaço para bandas novas.

De lá para cá a indústria fonográfica passou por diversas transformações e o rock acabou por ceder espaço para outras manifestações musicais que conquistaram o público jovem. Com essa perda de popularidade, o rock voltou-se ao underground (sem nenhum demérito) atendendo a demanda de um público cativo e segmentado.

Muitas bandas ficaram pelo caminho após tantas mudanças de mercado, mas este não foi o caso do Detonautas. Aos trancos e barrancos, o quinteto seguiu na ativa produzindo álbuns de estúdio (são seis ao todo) e singles de sucesso, apostando em novos formatos e figurando em grandes festivais Brasil a fora.

Neste período infindável de pandemia, a banda tem apostado no lançamento de singles com temáticas político / sociais (a saber: “Carta Para o Futuro”, “Micheque”, “Mala Cheia” e “Kit Gay”) que problematizam o Brasil contemporâneo e, por isso, acabaram por atingir um novo público, ainda não iniciado no trabalho do grupo carioca.

Nesta entrevista concedida por e-mail, o vocalista / compositor Tico Santa Cruz fala sobre a pandemia, o posicionamento político de figuras públicas, polarização, a repercussão das novas músicas, o discurso reacionário presente nas artes, a importância da mobilização artística, planos futuros e muito mais.

Primeiramente, como você está e o que tem feito nesta pandemia?
Nesse momento estamos caminhando para oito meses sem shows. Passei por todas as etapas emocionais que a pandemia causa. Medo, angústia, preocupação, ansiedade, nervosismo, mas aprendi nesse período a controlar melhor minhas emoções e usei o tempo de isolamento para criar muito. Canalizar tudo isso para músicas e para realizações de produções que alavancaram muito o trabalho do Detonautas.

Você é uma figura pública que tem se posicionado politicamente e este exercício tem crescido, devido à presença cada vez maior da classe artística. Você acredita que este movimento cada vez mais comum precisa crescer ainda mais ante ao cenário que nós estamos?
Sempre me questionei dos motivos que faziam a classe artística, de modo geral, ser alheia às questões políticas. Quando muito a gente via envolvido em uma ou outra campanha de cunho ambiental, ou pontualmente sobre temas como desarmamento nos anos 90, campanha contra a fome na época do Betinho. Mas, efetivamente, de forma política, passamos por muitas fases onde muitas coisas aconteciam no Brasil e havia um silêncio completo. Quando o impeachment começou a ser sinalizado, pouquíssimos artistas se posicionaram, me lembro de ver por perto no máximo uns cinco ou seis que pertenciam ao mainstream. As fake news sobre Lei Rouanet, e milícias digitais já estavam a todo vapor em 2014, 2015, 2016, e nada da classe se levantar! O que só aconteceu quando o Golpe contra a democracia aconteceu e atingiu frontalmente os setores da cultura. Aí a classe despertou como um todo. Então, fico feliz de ver artistas se posicionando atualmente, atuando, lutando, combatendo, mas creio que poderíamos ter evitado que se chegasse a esse ponto se o despertar tivesse ocorrido antes. Diante do cenário atual, acredito que mais e mais artistas perderão o medo de se posicionar por uma questão de sobrevivência. Mas ainda existem aqueles que se silenciarão com medo de perder patrocínio, público ou por mero comodismo mesmo, porque já estão com a vida ganha.

A polarização tem tomado conta da sociedade de tal maneira que, por vezes, ficamos impressionados quando muitas bandas (como aconteceu com o System of a Down) tem vertentes políticas radicalmente opostas dentro do mesmo grupo. Quando você se posiciona politicamente (seja dentro ou fora da banda) os integrantes compactuam com a sua linha de pensamento? E como vocês lidam com as diferenças, caso elas existam?
No Detonautas temos posições semelhantes! Entendemos claramente o que se passa pelo mundo e não apenas no nosso país. Eles sinalizaram quando eu estava exagerando nas minhas ações. Respeitei a sinalização e busquei outras formas de atuar. Hoje estamos focados na música e usando isso para falar com o público! Tem funcionado melhor e percebemos que a arte é temida por governos autoritários justamente porque invade um espaço que eles não tem como bloquear: o imaginário do público.

Canções como “Ladrão de Gravata” (2002), presente no primeiro disco do Detonautas, mostram que a verve política da banda sempre se fez presente. Porém canções como esta tem em si uma inquietante atemporalidade. Você acreditava que, passado tanto tempo, ela continuaria tão atual?
Infelizmente o Brasil é um país com problemas políticos e sociais muito profundos. E como as mudanças demoram, são muito tímidas, logo retomamos ciclos de destruição dos poucos avanços sociais. Músicas feitas nos anos 70, como “Que País é Esse” que é de 79, nos anos 80 como “O Tempo Não Para” ou mesmo a “Inútil” que retrata bem, por mais irônico que seja o Ultraje ser uma banda Bolsonarista, ainda representam a realidade do Brasil. “Ladrão de Gravata” não tem prazo de validade! O sistema desse país é corrupto e a sociedade é conivente embora finja que não.

O Detonautas passou por diversas fases, conquistou popularidade, apresentou-se em grandes festivais, foi atração de abertura de atrações internacionais, entre tantos outros feitos. Nestas quase duas décadas de trabalho existe algo que a banda almeje alcançar?
Nossa missão é viver de música. É isso que desejamos para a vida toda! Tivemos muitos altos e baixos e se há algo que quero alcançar com o Detonautas é o reconhecimento de nosso trabalho como um todo. Acho que, tirando nossos fãs, muita gente não conhece de fato o que é o Detonautas e muito por conta dos estigmas que encaro, por conta dos meus posicionamentos, acabam gerando certas distorções da percepção da parte musical da banda.

Os singles mais recentes (“Micheque”, “Kit Gay” e “Mala Cheia”) trouxeram uma certa revitalização do cenário rock que por anos não figurava nas paradas de sucesso. Para além disso, o poder de alcance das faixas rompeu as barreiras tradicionais, conquistando o interesse de roqueiros ortodoxos e pessoas que não tinham relação com o gênero. Como se bastasse as faixas ganharam bastante exposição midiática e trouxeram à tona discussões importantes ligadas a liberdade de expressão. Como foi o processo de criação destas faixas? Vocês tinham expectativas que elas trouxessem tamanha repercussão?
Começamos esse processo com “Carta ao Futuro”, que tem uma letra incrível, talvez uma das mais fortes que eu já tenha escrito e ganhamos adesão de muitos nomes importantes do meio artístico, cultural de modo geral, que gravaram um vídeo recitando essa letra. Após esse primeiro passo, percebemos que havia um enorme hiato de músicas de protesto dentro do Rock e, então, ocupamos esse espaço e passamos a fazer esse trabalho de maneira a criar um link com a indignação das pessoas, usando estéticas que conversam com os mais diversos públicos! Funcionou, principalmente, porque no rock hoje, apenas nós estamos fazendo! Nossa expectativa era chamar atenção para as questões, mas não imaginávamos que tomaria tamanha proporção! E com o flerte com a censura que esse governo sustenta, acabou potencializando as músicas!

Não seria de certa forma pretensioso afirmar que houve um “enorme hiato” na cena rock quanto as canções de protesto? Digo porque bandas como o Dead Fish, só para citar um exemplo, sempre se posicionaram e ainda o fazem há bastante tempo!
O Dead Fish é uma banda importantíssima na cena do HC brasileiro, e merece todo reconhecimento, mas não é um artista mainstream e quando falo sobre este hiato me refiro ao mainstream.

Nos últimos tempos o discurso reacionário tem invadido o mundo das artes e com o rock não é diferente. E se antes a cena era um terreno fértil de discussões e pautas progressistas hoje a omissão tem se tornado regra para muitos. A que se deve esta mudança e como você a vê?
O público de rock se concentra muito na classe média e ela, volta e meia, se agrupa em setores conservadores, reacionários e autoritários. Outra questão que explica um rock com comportamento alinhado a uma atitude omissa ou mesmo conivente com ações desse governo é o medo dos artistas de desagradarem seu público que envelheceu. O rock fala muito pouco com os adolescentes, como era de praxe em sua história, e hoje é muito comum ver roqueiros bradando coisas que seriam inimagináveis em outros tempos, porque o estilo está associado a contestação, transgressão e não a certos discursos elitistas e conservadores. Em suma, as redes sociais que passaram a pautar os artistas, criaram também algumas mordaças que muitos evitam retirar por receio do desgaste.

Saindo um pouco da política, mas nem tanto, você estudou Ciências Socais na UFRJ. Nesse sentido o quão transformador foi o universo acadêmico para você? E em tempos onde o governo federal trata com desdém as ciências qual a resposta a ser dada pela sociedade?
Fiquei pouco mais de um ano na UFRJ. Depois fiz Comunicação e Educação Física. O Detonautas já existia e era um sonho real! Não tive tempo suficiente na academia para desenvolver tantos vínculos com o ambiente acadêmico. Meu interesse pelo tema e meus estudos por conta própria me trouxeram uma bagagem maior de entendimento das questões políticas e sociais. Foi com o tempo que aprendi a perceber melhor o que acontece no Brasil, as questões geopolíticas, sociais, antropológicas, institucionais. O governo testa até onde vai e usa as redes sociais como termômetro! O que demonstra uma inteligência por conta da impressão que o brasileiro tem sob a ótica da utilização exacerbada desses meios de comunicação, porém, não me parece ser de fato a maioria das pessoas que concordam com essa visão distorcida que eles empregam em direção a ciência, a cultura, as artes, a educação. E isso o tempo irá mostrar! A sociedade ainda está muito polarizada e isso dificulta bastante a unidade de resistência porque ainda que muitos concordem em vários pontos, se olham torto por conta dos “conceitos” que adotaram no cenário “direita x esquerda”. Quanto tempo isso vai demorar? Não sei! Mas é evidente que não é a maioria do povo que compactua com esses ataques.

A banda durante a pandemia tem estado na ativa, apesar de todas as dificuldades que o período exige. Qual tem sido a maior dificuldade para vocês nesta época? Qual a perspectiva de futuro vocês alimentam?
A maior dificuldade é financeira, a preocupação com nossa equipe, com a sobrevivência de todos que fazem parte dessa indústria. Não sabemos quando voltaremos! Nossa esperança é que a ciência disponibilize uma vacina e que possamos voltar a fazer nossos shows!!!

– Bruno Lisboa  é redator/colunista do O Poder do Resumão. Escreve no Scream & Yell desde 2014.

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