Três discos: Noiserv, Samuel Úria, Selma Uamusse

Resenhas por Pedro Salgado, de Lisboa

Uma Palavra Começada Por N”, Noiserv (Edição de Autor)
Com 15 anos de carreira, Noiserv, o projeto musical do produtor e multi-instrumentalista David Santos, gradualmente conquistou o estatuto de artista de culto em Portugal pela criatividade e simplicidade da sua proposta, destacando-se o aclamado disco “One Hundred Miles From Thoughtlesness” (2008), a participação na trilha sonora do filme “José e Pilar” (2010) e diversas atuações em palcos internacionais, como na Alemanha, Áustria, Inglaterra e Escócia. Seu quarto e novo álbum, “Uma Palavra Começada por N” (2020), revela maior cuidado na elaboração das várias paisagens sonoras e tematicamente aposta na relativização das emoções e dos fatos, adotando um imaginário existencialista (recorrente no seu trabalho) e, acima de tudo, uma auto-avaliação criativa que põe à prova os receios pessoais de David, em confronto com as diferentes expectativas, para almejar um bom resultado final. Num disco marcado por letras reflexivas e por um fundo musical que compatibiliza o classicismo e o arrojo sonoro, destacam-se a caminhada acelerada de “Eram 27 Metros de Salto”, a melancólica “Sem Tempo” e nas letras da abrangente “Sempre Rente ao Chão”, David, empregando a sua voz grave, renova a procura de significado para a vida. No geral, “Uma Palavra Começada Por N” é um trabalho meritório, na medida em que aponta novos caminhos para a música de Noiserv sem desvirtuar o seu trajeto.

Nota: 7,5

Canções do Pós-Guerra”, Samuel Úria (Edições Valentim de Carvalho)
Os aspectos mais salientes de “Canções do Pós-Guerra” são o evidenciar da maturidade de Samuel Úria (completou recentemente 41 anos), a sua auto-análise e a avaliação geracional daí resultantes. Para além desses elementos, o novo trabalho revela um tom previsional em face de alguns conflitos raciais e de tumultos políticos e ideológicos que o mundo tem vivido, contemplando as brigas pessoais e alguns efeitos sociais decorrentes da pandemia, como o isolamento. A força das palavras e o sentido direto de Úria marcam o álbum, denotando uma observação sobre o falhanço coletivo e a realidade pós-moderna, mas sem enveredar numa perspectiva demasiado negativa, abrindo igualmente caminho para temas românticos, reflexões, bem como um punhado de faixas animadas. Na canção “Cedo”, em dueto com Monday (nome artístico da cantora Catarina Falcão), Samuel assume a meia-idade de uma forma agradável e a roqueira “Fica Aquém” concilia a escrita afiada com um grau de insatisfação e incomodo superiores. A romântica “O Muro” discorre intensamente sobre o amor e o perdão, enquanto o folk rock animado de “A Contenção” e o blues rock “As Traves” (com a participação de Miguel Araújo na guitarra) representam dois momentos de elevação sonora que conferem mais amplitude ao disco. O mérito de “Canções do Pós-Guerra” reside no encontro entre uma lírica intimista apurada e uma paisagem sonora convidativa.

Nota: 8

Liwoningo”, Selma Uamusse (Sony Music Portugal)
O novo álbum de Selma Uamusse, uma cantora e compositora moçambicana radicada em Portugal desde os seis anos, mantém o foco na fusão sonora e no apego às suas raízes africanas, que caracterizavam a boa estreia com o disco “Mati” (2018), e é igualmente interpretado em português, inglês, changana e chope (duas das línguas de Moçambique). “Liwoningo” (que significa luz em chope) foi produzido pelo músico e produtor brasileiro Guilherme Kastrup e incluiu diversas participações musicais, tais como Mbye Ebrima (Gâmbia), o instrumentista moçambicano Chenny Wa Gune e a seção de sopros da banda brasileira Bixiga 70, entre outros. Comparativamente com “Mati”, o novo trabalho revela maior ambição e a visão musical ampla de Kastrup é acompanhada por um conjunto de interpretações simultaneamente confiantes e ousadas de Selma Uamusse. Nesse sentido encontram-se o single “Hoyo Hoyo”, uma ode à família que cruza o rock, a soul, o gospel, o experimentalismo e os blues, na qual Selma assina um desempenho forte, “Maputo” (com a participação dos sopros do Bixiga 70), que antecipa as preocupações sobre a pandemia (foi gravada antes do eclodir do surto) e o cântico de paz “No Guns”, que exibe uma toada envolvente. Na parte final do disco destaca-se a harmonia acústica de “Xikwembu” (um tema composto por Tó Trips, dos Dead Combo). Enquanto o pop afro “Mbilo”, bem como a relaxante “Khanimambo Liwoningo” (uma música totalmente cantada em português) sugerem uma evocação espiritual. Em função da sua inegável qualidade sonora, do magnífico trabalho vocal de Selma e da mensagem de esperança que atravessa o disco, “Liwoningo” representa uma etapa ultrapassada com distinção.

Nota: 9

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.

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