Esse você precisa ouvir: 30 anos de “Nowhere”, Ride

Texto por Luciano Ferreira

Quem nasceu nos anos 70 há que se lembrar com alguma clareza dos acontecimentos históricos marcantes das décadas de 80 e 90, dentre eles a Queda do Muro de Berlim, a campanha pelas Eleições Diretas aqui no Brasil (ou o fim da Ditadura), a Perestroika. O início da década de 90 viu ainda a soltura de Nelson Mandela, a derrota de Thatcher e, no nosso contexto, o infame sequestro da poupança pelo governo Collor.

Imperavam as fitas VHS e as locadoras, as calças bag, e a Internet era um sonho distante; informações, primordialmente, só através da Revista Bizz, que só nos abria o apetite com tantos nomes de bandas novos e definições que atiçavam a curiosidade. Ride era um deles.

À parte o turbilhão de acontecimentos históricos/culturais e nosso precário acesso ao que acontecia lá fora, o início da década que precedeu o fim do milênio viu alguns álbuns basilares serem lançados naquele ano: “Violator” (Depeche Mode), “Bossanova” (Pixies), “Pills’N’Thrills and Bellyaches” (Happy Mondays), “Fear of Black Planet” (Public Enemy), “Goo” (Sonic Youth) e “Nowhere”, marcante álbum de estreia de um quarteto de Oxford, Ride. Um “estranho no ninho” dentro do contexto musical reinante, mas que se alinhava, por exemplo, com “Isn’t Anything”, estreia dos irlandeses do My Bloody Valentine lançada dois anos antes.

Na contramão da vigente cena Indie-Dance ou da Dance-Music que imperava em solo britânico com força e se espalhava pelo mundo, onde as boates eram como templos e as raves como “missas”, só que regadas a ecstasy e música para chacoalhar o esqueleto, o quarteto capitaneado pela dupla de vocalistas e guitarristas Andy Bell e Mark Gardener surgia com um álbum que recolocava as guitarras como elemento principal das canções, numa profusão de riffs barulhentos, mas também com belas e empolgantes passagens melódicas e harmonias vocais, escudados pelas linhas de baixo densas de Steve Queralt e a precisão rítmica de Laurence Colbert. Ah, e sem esquecer os muitos Ah-Ah-Ahs, elemento chave de várias canções.

Se no ano anterior seus contemporâneos do Stones Roses sacudiram as paradas, as pistas, e a música pop com seu perfeito álbum de estreia, o Ride, em “Nowhere”, sem o mesmo estardalhaço e sem o hype, surpreendeu a muitos com um perfeito e coeso conjunto de canções tão boas quanto e que também buscavam inspiração nos anos 60, essencialmente nas melodias assobiáveis e harmonias vocais de grupos como The Byrds e Beatles – lembrado já na abertura com a linha de baixo de “Seagull” e sua aproximação com “Taxman” (do álbum “Revolver”) –, mas temperavam os arranjos com muralhas de guitarras envoltas em distorções, feedbacks e microfonias, seja nos momentos mais explosivos como na citada faixa de abertura ou em “Kaleidoscope” e “Decay”, as faixas mais esporrentas do álbum.

Apesar da tendência de enveredar pelas camadas de barulho, olhando de perto percebe-se que a predominância é de passagens mais melódicas, construídas principalmente com o uso da Rickenbacker de Andy Bell. Nesses momentos, o grupo consegue esculpir uma obra prima na quase balada “Vapour Trail”, primeiro single do álbum: “Você é meu trem a vapor em um profundo céu azul”. De autoria de Andy, é uma das canções mais belas da banda e também dos anos 90. Não há como não sonhar com o cadenciamento hipnótico e texturas melódicas de “In A Different Place”. Enquanto arrancam “lágrimas de pedras” na subestimadamente emocionante “Paralysed”, onde a mescla melodia e barulho atinge os pontos mais altos, enquanto se encharca em efeitos fuzz e wah-wahs.

Importante lembrar que a banda havia sido formada cerca de dois anos antes, em 1988, e que antes de lançarem “Nowhere” haviam soltado três bons EP’s, todos em 90. A banda vivia num período tão prolífico que, das faixas que entraram na versão final do álbum em vinil, apenas “Seagull” já havia sido lançada, no EP “Fall”. E, com certeza, foram os anos mais luminosos do quarteto.

Sediados na mítica gravadora Creation, de onde saíram nomes importantes da cena musical britânica e mundial como The Jesus and Mary Chain, Primal Scream, The House of Love e tantos outros, o Ride, junto com o My Bloody Valentine e o Slowdive, é considerado um dos pilares do que se convencionou chamar de Shoegaze, junto com Lush, Swervedriver, Pale Saints, Catherine Wheel, Chapterhouse e Boo Radleys.

Gravado por Mark Waterman e mixado por Alan Moulder, que posteriormente produziria trabalhos de um monte de gente do meio alternativo, “Nowhere” foi oficialmente lançado no dia 15 de outubro de 1990, há exatos 30 anos. Sua capa, uma fotografia de Warren Bolster que na versão original traz absolutamente nada escrito (o nome Ride / “Nowhere” passou a ser adotado nas reedições em CD pós 2001), mostra um mar aparentemente tranquilo em tons azulados e com uma leve ondulação. Ela capta de forma perfeita a música do grupo, equilibrada entre placidez melódica e tempestades de barulho. No aniversário de 20 anos, em 2010, o selo Rhino relançou o álbum estendendo o tracking list de 8 canções do disco original para 15 faixas, acrescentando ainda um álbum ao vivo extra, de 11 faixas, com um show de 1991.

Poucas bandas conseguem já em seu álbum de estreia alcançar um patamar tão elevado que tudo que venham a lançar na sequência seja sempre comparado com seu debute, e o Ride entra nesse panteão: “Nowhere” é disco de estreia grandioso, um clássico que nunca ganhou edição brasileira. O próprio Ride manteve as guitarras altas apenas até 1996, quando se separaram após quatro discos, que influenciaram um mundo de bandas indies planeta afora (Brasil incluso). Retornaram em 2014 e finalmente fizeram um grande show em São Paulo, em 2019, possibilitando que velhos fãs pudessem soltar, enfim, a voz e gritar os hinos do “Nowhere”, um disco que você precisa ouvir.

Luciano Ferreira é editor e redator na empresa Urge :: A Arte nos conforta

4 thoughts on “Esse você precisa ouvir: 30 anos de “Nowhere”, Ride

  1. Apenas uma correção, Vapour Trail não se traduz como trem a vapor (que seria algo como steam train ou steam locomotive). Trail é uma trilha/rastro, e nesse caso a analogia é sobre aqueles rastros de fumaça que os aviões deixam no deslocamento pelo céu. Por isso mesmo, in a deep blue sky.

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