Faixa a faixa: “Around The World”, de Badi Assad

introdução por Marcelo Costa
faixa a faixa por Badi Assad

Around The World”, o novo disco da cantautora Badi Assad, traz 10 canções que soam como uma volta ao mundo que resgata composições de Alt-J (Inglaterra), Camila Moreno (Chile), Björk (Islândia), Lorde (Nova Zelândia), Hozier (Irlanda), pelos brasileiros Chico César e Lenine, além de passear pelo mundo árabe, representado pela bela “Lamma Bada”.

Não é mero acaso. O repertório de “Around The World” é baseado em “Volta ao Mundo em 80 Artistas”, que foi lançado inicialmente no Brasil em um livro imperdível pela editora Pólen – o primeiro escrito pela cantora, violonista e compositora. Na sequência, Badi estreou o show homônimo e circulou com ele por diversas partes do país.

Gravado em formato solo, apenas com sua voz e violão, no Historic Studio, em Berkeley na Califórnia, pelo engenheiro (e baterista de Bonnie Raitt) Ricky Fataar, “Around The World” ganhou lançamento pela gravadora americana Ropeadope Records, e encerra uma trilogia de livro, show e, agora, disco.

Badi não havia planejado lançar este projeto em música, porém recebeu o convite de Fataar e imaginou, então, a possibilidade de gravar solo, algo que fez somente uma vez, no álbum de estreia pela Chesky Records, “Solo” (1994). O disco seria lançado apenas em formato digital, mas o interesse da gravadora norte-americana Ropeadope alavancou o formato em CD, que será distribuído inicialmente nos Estados Unidos e na Europa.

Abaixo, Badi comenta cada uma das 10 faixas do disco, e ainda conta que “Volta ao Mundo em 80 Artistas” foi “um projeto que me trouxe muitas alegrias, ao possibilitar o compartilhamento de minhas influências diversas, minha forma de ver o mundo, minhas viagens internacionais, bastidores e particularidades, algo que, de certa forma, era desconhecido do meu público”.

“Este repertório sintetiza uma viagem ao mundo com este olhar aberto, misturando sons que se divertem com sua própria liberdade de existir, sons que derrubam quaisquer fronteiras e preconceitos possíveis. São canções de eras distintas que me inspiraram a debruçar-me sobre elas devocionalmente”, explica. Ouça o disco e leia o faixa a faixa completa abaixo.

Faixa a faixa de “Around The World” com comentários de Badi Assad:

01. Zoar – Parceria com o cantautor paraibano Chico César. A música conta sobre maus tratos e desrespeitos aos animais, pelos humanos que se consideram superiores, ao mesmo tempo em que presta uma homenagem ao Reino Animal. Meu irmão, o violonista e compositor Sérgio Assad, fez o arranjo juntamente comigo e Chico, num estilo Reggae Brasileiro. A escolha desta faixa se deu por conta da insana e constante atualidade do tema.

02. Acredite ou Não – Música de Lenine (Pernambuco) e Bráulio Tavares (Paraíba), usando várias imagens inteligentemente irônicas, que tecem uma rede de protestos. Ao final da canção cito um trecho da “Fora da Ordem’, de Caetano Veloso. O arranjo do violão é do multi-instrumentista Carlinhos Antunes. Canção que se mostra infeliz e eternamente atual.

03. Bachelorette – Começando minha volta pelo mundo, gosto de imaginar que entro em uma espécie de nau mágica onde convido artistas diversos para um embarque livre, em uma viagem onde mesclo seus estilos. Aqui faço minha primeira paragem, na Islândia. Uma ilha fria no meio do oceano. Porém, e interessantemente, um dos lugares com mais gêiseres do mundo! Esta canção foi escrita pela islandesa Bjork e com ela onboard fiz uma segunda paragem, na Argentina, para dar um toque caliente ao frio (mas repleto de gêiseres) som de Bjork. E não é ela mesmo assim? Uma mistura de sons eletrônicos com emoções intensas? Quando ouvi esta canção (no incrível “Homogenic”, de 1997) e sob a batuta do maestro (brasileiro) Eumir Deodato, me ascendeu a possibilidade da mistura. Pronto. Astor Piazzolla e seu Novo Tango entraram comigo e meu irmão Sérgio, para esta mistura de frio e calor. Já que Piazzolla sempre foi uma referência para mim também.

04. O Barco Daqui de Dentro – Canção sobre a imaginária existência de um barco que nos navega internamente, conhecendo todos os nossos caminhos e paragens, melhor até do que nós mesmos. Com um comandante, que podemos chamar de intuição, este barco sabe muito bem quando devemos nos movimentar ou acalmar, continuar ou simplesmente aguardar. Este barco pode muito bem ser traduzido pela nau que viaja também pelo mundo misturando estilos de artistas diferentes e de distintas épocas. Uma espécie de universo paralelo musical 🙂

05. Hunger of the Pine – Alt-J é um grupo inglês que despontou no cenário pop internacional. Carregados de nuances singulares (e distantes do convencional) com uma forma muito peculiar de investigação de vários assuntos, no caso desta canção, do amor. Aqui, criei uma atmosfera de camadas densas sobre um amor profundo e sofrido. No meio da canção, cito um trecho da música de Sting “A Thousand Years” – I still love you, I still want you…

06. Lamma Bada – Considerado um dos poemas árabes mais famosos desta época, escolhi para representar o Oriente Médio no livro “Volta ao mundo em 80 Artistas” e, consequentemente no show e CD. Afinal ela tinha que ter este canto do mundo representado minha jornada, assim como minhas raízes libanesas. Conheci esta canção na ocasião de uma apresentação, como integrante do grupo Saffran Caravan que trabalha na construção da paz mundial através das artes, durante o projeto “Complete Freedom of Truth” em Srebrenica, cidade dizimada durante a guerra da Bósnia, 1992-1995.

07. Millones – Camila Moreno cantou essa música, que foi vencedora na categoria melhor canção do ano, quando foi receber o prêmio, no programa de importância unânime exibido pela TV Chilena. Todavia antes de cantá-la, ela disse: “Dedico esta canção a todos aqueles que acreditam que o dinheiro pode comprar tudo, inclusive um país”. Com esta declaração sua participação foi editada fora, logo após o término do programa. Camila soube usar sua voz como arma e através desta música, eu também a alavanco com a minha própria. Em um mundo dominado pelo poder e ganância, os artistas compartilham seus pensamentos e instigam seus públicos a refletirem mais profundamente sobre assuntos pertinentes.

08. Royals – A cantora neozelandesa Lorde, de reconhecimento internacional, escreveu esta canção aos 16 anos de idade. Escolhi por saber da importância de sua voz ter sido ouvida por tantos jovens em todo o mundo, recebendo o plantio de suas sementes reflexivas. Com letras significativas, Lorde discute em “Royals” a noção de que não precisamos nos vender, assim como não precisamos idolatrar a riqueza supérflua, para encontrarmos nosso lugar ao sol dentro de uma sociedade que vende, incessantemente, a ideia de que a felicidade está em algo material e do lado de fora de nós mesmos. Para este arranjo, trouxe uma roupagem olodum brasileira, imaginando um desfile alegórico com as imagens construídas pela cantora, ao mesmo tempo em que celebra a liberdade conquistada por seus ideais.

09. Sedated – Hozier é um pensador, cantor irlandês que representa a contracultura de sua época. Suas letras são instigantes e questionam assuntos conturbadores e arraigados de preconceitos. “Sedated” fala sobre estarmos completamente absortos e viciados em um tipo de droga que nos anestesia a vida.

10. Ondas – Esta minha composição reverencia a mãe natureza, seus elementais, pássaros e bichos que habitam fora e dentro de nós. Com esta interpretação, convido a uma viagem mística de força, leveza, liberdade e aterramento. Prestando minha homenagem a tantos que me influenciaram em minha nau particular: Naná Vasconcelos, Uakti, Marlui Miranda, Huun-Huur-Tu… Uso apenas voz e violão, emitindo vários sons simultâneos buscando seduzir, de uma certa forma mágica, a sermos um só com a natureza.

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina o blog Calmantes com Champagne

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