Série: “Amor e Sorte” traz o olhar delicado de Jorge Furtado sobre a pandemia

texto por Renan Guerra

É completamente natural que uma pandemia como a enfrentada em 2020 gerasse reflexões nas nossas produções culturais, foi assim em nossa história, desde a peste negra até o HIV/AIDS. Porém, depois de tanto tempo em casa e já fazendo coleção de máscaras, também é natural que muita gente crie certa resistência, do tipo “não quero pensar em pandemia, só quero ver uma série que não seja sobre isso”. Mesmo assim, séries como a internacional “Grey’s Anatomy” e a brasileira “Sob Pressão” já estão abordando o coronavírus sobre a ótica da saúde.

“Amor e Sorte” (2020), série de quatro capítulos exibidos pela Rede Globo e agora disponíveis pelo Globoplay, opta por outro olhar: as nossas relações mais íntimas no momento de isolamento social. Mãe e filha, maridos e mulheres e casais recém-conhecidos, todos trancados em casa com o receio de um vírus desconhecido. Criada por Jorge Furtado, com direção de Patricia Pedrosa e Andrucha Waddington, a série reúne uma turma pesada de roteiristas: Alexandre Machado, Jô Abdu, Adriana Falcão, Antônio Prata e Chico Mattoso.

É em seus roteiros simples que “Amor e Sorte” nos capta: não há nenhum tratado filosófico nos episódios, é tudo mundano, comezinho, assim bem de casa e, por isso mesmo, é como um afago nesses tempos de distanciamento. É sobre a solidão e sobre o que aprendemos e trocamos com que está ao nosso lado nesses momentos. É sobre como brigamos, rimos e nos descabelamos na presença do medo.

Cada episódio conta com uma dupla de atores: Fernanda Torres e Fernanda Montenegro em “Lúcia e Gilda”; Lázaro Ramos e Taís Araújo em “Linha de Raciocínio”; Fabiula Nascimento e Emilio Dantas em “Territórios” e Caio Blat e Luisa Arraes em “A Beleza Salvará”. Todos os atores, essencialmente, moram juntos na vida real e foram eles que operaram os equipamentos em casa, que arrumaram o foco e a luz, tudo com o auxílio de uma equipe remota, que os dirigia através de videochamadas.

Ao final de cada episódio temos uma espécie de mini making of da produção e é surreal o que foi feito, como os atores se viraram em diferentes situações e como a equipe conseguiu dar conta de tudo mesmo a distância. É uma série com o clássico padrão Globo, porém com um nível de experimentação amplo, já que eles estão trabalhando sob novas condições. Nenhum dos curtas de Jorge Furtado, com todas as suas experimentações metalinguísticas, teria previsto um projeto desses, em que eles passam o texto por um computador, um drone filma as Fernandas à distância e os casais de atores precisam montar e desmontar seus cenários.

Cada episódio tem suas particularidades: “Lúcia e Gilda”, por exemplo, é um trabalho em família total, com direção de Andrucha Waddington (marido de Fernanda Torres) e com participação dos netos de Fernandona, tanto na atuação quanto nas funções de produção. “Linha de Raciocínio” filma os panelaços do início da quarentena com uma sinceridade única. “Territórios” conta com participação especial dos cachorros de Fabiula e Emílio. Já “A Beleza Salvará”, o episódio final, faz uma espécie de link sutil entre os personagens, algo meio na linha do fecho que “A Fraternidade é Vermelha” (1994) faz pela trilogia das cores de Krzysztof Kieślowski. Além disso tudo, há algo que é interessante: o cenário é a casa dos artistas e, querendo ou não, nosso lado bisbilhoteiro adora ficar reparando em quadros, livros e objetos decorativos, é uma diversão à parte.

“Amor e Sorte”, no fim das contas, não é nenhum tratado sobre a pandemia, é apenas um olhar divertido sobre esse momento assustador pelo qual ainda estamos passando. É como um acalanto em meio ao medo e à solidão desses tempos, por isso veja sem pretensões e se divirta muito.

Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz. 

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