Faixa a faixa: “Saída”, de Marcelo Callado

introdução por Leonardo Vinhas
Faixa a faixa por Marcelo Callado

Marcelo Callado é normalmente referenciado – com justiça – a partir dos projetos pelos quais fez ou faz parte (Do Amor, Banda Cê, o excelente álbum com Nina Becker), mas a verdade é que se fosse necessário buscar uma “paridade” para sua música, seria com a de Arnaldo Antunes, uma de suas grandes influências.

Assim como o ex-Titã, Callado transita entre entre rock e MPB e entre a estranheza e a acessibilidade pop. Também cabe citar o cuidado com a palavra, não só nas construções poéticas como na sonoridade, e a depuração dos arranjos, que evitam o excesso sem escapar para o minimalismo.

Depois de três álbuns bastante diferentes entre si (“Meu Trabalho Han Sollo Vol. II”, de 2015; “Musical Porém”, de 2017; e “Caduco”, de 2019), Callado entrega “Saída” (2020). Esse quarto lançamento não traz tanto a carga pessoal dos dois antecessores, mas mantém tanto a influência do rock brasileiro do fim dos anos 60 e começo dos 70 como as dissonâncias e idiossincrasias inspiradas por “malditos” como Jards Macalé e Walter Franco. E se, musicalmente, não recupera todo o frescor exibido em 2017, também não investe tão profundamente no universo obscuro e dolorido de 2019.

“Saída”, na verdade, é um disco feito tanto “de dentro pra fora” como “de fora pra dentro”. É Marcelo Callado isolado em plena pandemia, tratando de suas sensibilidades mais pessoais, mas também buscando parcerias e colaborações que o ajudem a criar e a viver o momento em tons mais otimistas e agradáveis. O resultado é um disco bruto, honesto e muito bom.

Faixa-a-faixa, por Marcelo Callado:

“‘Saída’ veio de um momento sensível e importante na minha vida. Ele foi feito dentro desse período de reclusão, um tempo único, sui generis, onde vários sentimentos diferentes afloraram, e pude ter contato, e muita conversa comigo mesmo. A feitura do disco foi a saída para que me mantivesse nos trilhos, seguindo em frente. Uma coisa curiosa no processo de feitura do álbum foi que apesar do isolamento, é meu disco com mais trocas musicais no processo de composição. Das 12 canções, 9 são parcerias, o que demonstra a importância dos amigos num momento tão delicado”, reflete Marcelo Callado.

01. Tudo é Natureza: A ideia da música surgiu a partir da leitura do livro “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” do Ailton Krenak, presente da amiga e parceira Rosa Barroso. Inspirado por alguns pensamentos do autor, me pus a refletir e a escrever sobre a importância fundamental do exercício do diálogo em nossa existência, a fala e a escuta, de um modo geral, não só entre uma humanidade homogênea que somos instruídos a crer, mas sim entre tudo que constitui a natureza; nós (e nossas diferenças), a terra, os rios, as montanhas, as árvores, os bichos, o cosmos.

02. Verso Vivo: Estava assistindo a live do Gilberto Gil, quando no fim ele disse “como diz a mãe de Caetano, Dona Canô: quem não morre, envelhece”. Me veio a inspiração de escrever algo a partir dessa ideia. Comecei a letra e fiz toda a melodia e harmonia, mas acabei empacando na parte B, não conseguia concluir a ideia. Liguei pra Ava Rocha e pedi ajuda pra terminar. Acho que no dia seguinte ela me mandou o complemento lindo e assim a canção foi finalizada.

03. Assis Bueno 37: É o endereço da casa de minha avó em Botafogo. Casa que já não existe mais fisicamente, mas sim em minha memória e na de meus familiares e amigos mais próximos. Foi uma homenagem a todos que viveram momentos por lá, um local de suma importância em minha vida, e o fato de tê-la escrito e ouvido repetidas vezes, serviu como um acalanto pra alma.

04. Toque de Mãe: Surgiu de um texto que o Daniel Gnattali, meu eterno cunhado, escreveu no Instagram dele no dia das mães. Li o texto e já foi me vindo um ritmo e uma melodia na cabeça. Aí foi só sentar, tirar a harmonia e meter bronca.

05. Curtavida: Uma das duas músicas que não foram compostas durante a pandemia. O Bruno di Lullo me pediu alguma letra para musicar há uns três anos atrás. Tinha esse poema feito, e mandei pra ele. No dia seguinte ele mandou a música pronta.

06. Borboletas: Na mesma conversa que tive com a Ava Rocha, para resolver a letra de “Verso Vivo”, acabamos trocando uma ideia sobre como estava a vida, o momento na pandemia e tal, e contei a ela sobre as dificuldades que estava passando devido ao término de meu relacionamento amoroso. Com uma sensibilidade acima do normal, Ava me mandou a letra inteira da música e o começo da melodia. Peguei o violão terminei a música e fiz apenas algumas inserções de algumas palavras pra acertar a letra na melodia. Amizade é tudo!

07. Agora Créu: Numa conversa com o amigo Pedro Montenegro, acabamos constatando que tínhamos alguns versos escritos separadamente que poderíamos juntar numa letra de música só, e assim se deu. Juntei os versos dele com os meus e musiquei-os.

08. À Prova: Das parcerias pandêmicas, a mais recorrente foi com a Rosa. Acho que fizemos quatro músicas juntos, e trocamos muito sobre muita coisa. Uma delas, a segunda, eu acho, foi essa letra minha que Rosa lindamente musicou.

09. Simbora: Outra música da Rosa Barroso a partir de uma letra minha. Nessa Rosa acabou complementando a letra também com a segunda parte dos versos. Numa conversa super informal pelo Instagram sobre outras coisas, acabei chamando a Silvia Machete pra dividir os vocais comigo nessa música. Ela topou e gravou. Adorei!

10. Conte Comigo: Parceria com o Bem Gil. Junto com “Curtavida”, também foi feita anteriormente à pandemia, mais precisamente no fim de 2016. Bem fez a música e me mandou pra letrar, e assim o fiz.

11. O Horror: Música triste. Gosto dela, pois além de ter um cello lindo gravado pelo Moreno Veloso, conseguiu juntar na letra a ideia do horror e da dor de uma forma geral com a situação mundial da pandemia, e do descaso do nosso (des)governo, com minha situação pessoal de solidão pós separação.

12. Se Quiser Que Vá: Parceria de letra e música com Pedro Sá. Essa é engraçada pois é bem antiga. Começou a ser feita numa passagem de som da turnê do “Abraçaço” em 2015, mas acabou sendo finalizada somente agora. Foi no tempo certo!

Ficha técnica
“Saída” – Marcelo Callado
produzido por Marcelo Callado
mixado por Iuri Brito
masterizado por Cacá Lima
gravado por Marcelo Callado no Vovó Estúdio (RJ) entre março e agosto de 2020,
exceto:
vozes da Silvia Machete gravadas por Dudinha no Buena Família Studio (SP);
guitarras da Karin Santa Rosa gravadas por Marcelo Santa Rosa no Estúdio Capitania do som (Cabo Frio – RJ);
flautas do Vovô Bebê gravadas por ele mesmo no Estúdio do Vovô (RJ);
guitarras do Caio Paiva gravadas por Gael Sonkin na casa do Vitor Paiva (RJ);
baixo da Ana Frango Elétrico gravado por ela mesma no Eletric Chicken Enterprise Studios (RJ);
guitarras, baixo e vozes do Paulo Emmery, gravados por ele mesmo em sua casa;
cello do Moreno Veloso gravado por ele mesmo no estúdio Casinha (RJ);
guitarra do Iuri Brito gravada por ele mesmo no estúdio Nagasaki (RJ);
todos os instrumentos tocados por Guilherme Lirio, gravados por ele mesmo na Casa Delírio (RJ);
percussões de Rodrigo Maré gravadas por ele mesmo no Estúdio Maré (RJ);
percussões de Pedro Fonte gravadas por ele no Estúdio Fonte (RJ);
teclados da Raquel Dimantas gravados por Kelly Diamond no Kelly Diamond Productions (RJ);
guitarras do Pedro Sá gravadas por ele mesmo no estúdio Tilt (RJ);

Equipe capa:
Design: Paula Delecave
Pintura: João Rivera
foto da pintura: Nelson Monteiro
foto do Marcelo Callado: Cora Becker

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