Cinema: “Variações”, de João Maia, celebra o ícone pop português António Variações

Texto por Renan Guerra

António Variações foi um ícone pop português dos anos 80: gay, barbeiro e fã de Amália Rodrigues, o artista autodidata tinha uma paixão pelo canto e compunha suas canções mesmo sem saber uma nota musical. Ele morreu em 1984, aos 39 anos, sendo um dos primeiros portugueses a falecer de AIDS, em informação que se manteve nebulosa até os últimos anos – em grande parte pelo preconceito que ainda ronda o HIV.

João Maia, o diretor, faz sua estreia nos filmes de longa-metragem nessa cinebiografia intitulada “Variações” (2019), em um projeto que demorou 10 anos para ser finalizado e que ganhou corpo especialmente depois da entrada do ator Sérgio Praia. Praia é estrela da TV portuguesa, participando de novelas em emissoras como SIC e RTP; aqui ele assume a persona de António Variações de forma quase assustadora e é ele, talvez, a espinha dorsal do filme com sua interpretação tão precisa.

“Variações” foi lançado em 2019 em Portugal e bateu recordes de público, tornando-se o filme mais visto nos cinemas do país no ano passado e entrou na lista de filmes portugueses com mais público da história. Aqui no Brasil, o filme ganhou estreia especial no festival In-Edit, que neste ano, por causa da pandemia de coronavírus, está sendo realizado de forma virtual. O filme faz parte da Mostra Portuguesa do festival e foi exibido de forma gratuita entre o dia 15 e o dia 16 de setembro de 2020.

O longa de João Maia foca essencialmente nos anos finais da vida de Variações, especialmente nos caminhos tortuosos da carreira musical do artista, pouco enfocando sua vida familiar ou pregressa. Sabemos que ele vem do interior – Fiscal, em Amares, cidade próxima de Braga e a cerca de uma hora de Porto – e que ele tem uma boa relação com a mãe. Sabemos que ele é cabeleireiro, mas prefere que o chamem de barbeiro. Também o encontramos morando na Holanda. E deixa-se claro, logo no início, que ele é gay e veste-se de forma excêntrica para os padrões lusitanos.

O filme não é necessariamente didático, citando nomes e dando coordenadas, e, por isso mesmo, é interessante, pois opta por mergulhar na figura complexa de Variações e em como ele busca de forma decidida seguir a sua carreira na música de forma intensa – assim como se encanta também em construir sua própria barbearia, por exemplo. Nesse caminho, vemos António em sua relação conflituosa com sua gravadora, sua busca por uma banda que o entenda e o seus vínculos amorosos, tudo permeado por sua intensa composição musical.

Variações era essa figura esteticamente marcante e tinha uma sexualidade que gritava por si só, mas é curioso, como definiu Bruno Capelas aqui no Sream & Yell, em 2015, que “Variações parece optar por uma moral cristã, traduzida facilmente em versos como ‘Quando a cabeça não tem juízo/ o corpo é que paga’ ou ‘É pr’a amanhã, bem podias fazer hoje’”. E o filme parece medir-se com essa régua bastante familiar também: as roupas fetichistas e as baladas gays aparecem de forma até direta, mas o sexo em si nunca aparece. E é curioso ainda: Carolino Ribeiro, um dos irmãos de António, não gostou nada do filme, pois disse que “sem querer estão a alimentar ainda mais o preconceito em relação ao meu irmão”, pois na visão dele não deveriam falar da homossexualidade de António, mas sim que o artista esteve dois anos no Exército Português em Angola ou outras coisas consideradas por ele “mais interessantes”.

Chega a ser risível esse tipo de resposta ao filme, quando fica-se muito claro que muito da demora do sucesso na carreira de António está relacionado à homofobia. António não era de falar de sua sexualdiade, mas tudo estava latente em suas roupas e em sua performance e isso é o mais importante. Variações é, essencialmente, um ícone queer e o preconceito não pode apagar isso. É interessante que o filme de Maia consegue dosar de forma cuidadosa: o filme é sim familiar e se vende bem ao grande público, mas em nenhum momento apaga a existência afetiva de António. Para além disso, por exemplo, fica bem claro no filme que Variações morreu de AIDS, com uma delicada cena em que é possível ver as lesões causadas na pele pelo Sarcoma de Kaposi, um símbolo doloroso da epidemia da AIDS nos anos 80 e 90.

“Variações”, no todo, é um filme bem formal, no sentido de que conversa com a maioria das cinebiografias de músicos feitas nos últimos 10 anos – tanto as norte-americanas quanto essas que vemos aqui pelo Brasil. De todo modo, isso não é negativo, já que essa estrutura quase careta é o que consegue expandir a história do filme para outros espaços e isso é extremamente importante, quando se pensa que António Variações é naturalmente um personagem forte e que confronta as expectativas do público médio.

Vale ressaltar ainda que Sérgio Praia, o protagonista, canta em todas as cenas musicais do longa e que a trilha sonora foi lançada em forma de disco. A trilha foi construída por Armando Teixeira e conta inclusive com a inédita “Quero Dar Nas Vistas”, que estava nas fitas cassetes originais de António, as quais a produção do filme teve acesso total – essas fitas aliás aparecem no filme, como objetos de cena. Essa trilha sonora se transformou num show, que foi apresentado no festival NOS Alive, em Portugal, com grande sucesso.

No final das contas, “Variações” é um bom ponto de partida para o resgate da figura do artista português. Ele transforma António Variações em assunto novamente e isso é bom demais, visto que estética e sonoramente, ele ainda segue extremamente moderno e interessante. Por isso o que deve ser dito agora é: vejam “Variações”, ouçam Variações, mergulhem em Variações.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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