Entrevista: HQ “Pandemonium” – Autores falam dos desafios no lançamento independente

entrevistas por João Paulo Barreto

O mercado editorial dos quadrinhos independentes, distantes da realidade de gigantes como a editora Panini e sua extensa gama de edições que variam entre simples brochuras a luxuosos (e caros) encadernados, respira em um ritmo diferente de sobrevivência. Também há exemplos de sucessos com editoras que surgiram como projetos independentes de amigos, leitores e colecionadores (como é o caso da bem sucedida “Pipoca&Nanquim”), mas há diversos outros artistas do lápis e escritores entusiastas dessa representação cultural. Tais artistas seguem em uma luta constante no escalar dos infernos atrelados a conseguir produzir, imprimir e levar ao público leitor (e colecionador) de quadrinhos um material de qualidade dentro do nicho da literatura de gênero do terror e do fantástico.

Uma analogia (um tanto gratuita, verdade) a Alighieri nessa linha anterior apenas para que seja possível traçar uma ponte entre os escritos infernais de Dante e, assim, pode falar de John Milton e seu “Paraíso Perdido”. Lá, o palácio do rei das trevas era chamado na obra do século XV de “Pandemonium”. O nome, bastante apropriado, diga-se de passagem, batiza o quadrinho tocado por alguns autores da Bahia. “Pandemonium”, coletânea de histórias que caminha entre o fantástico, o terror gore e slasher, bem como o psicológico, com inserções de noir e ficção pós apocalíptica, está em financiamento coletivo pelo Catarse (https://www.catarse.me/pandemonium) e delineia um mercado editorial na Bahia e no Brasil que encontra um público cativo e ávido por histórias dentro do gênero abordado.

Idealizado pelo coletivo Quadrinhos de Emergência e pelo grupo por trás da Mostra Cine Horror, Pandemonium tem como autores Alex Lins, Alix, Damião Santana, Dino Galeazzi, Hector Salas, Hélcio Rogério, Ítalo Silva, Giulia Lagrotta, Ricardo Cidade, Ricardo Martins, Rob Saint, Rodrigo Vinicius, Rogério Rios, Romeu Martins, Saul Mendez Filho e Valmar Olivreira.

Aqui, Valmar, artista gráfico responsável por parte das artes da HQ, analisa a questão da barreira financeira para trazer a esse público obras criativas e impactantes dentro dessa proposta. “A parte financeira é um grande problema. Como uma publicação independente, temos o preço do papel e das gráficas que sempre varia. O financiamento coletivo é uma forma de pré-venda na qual contamos com os interessados em adquirir o produto. Nós, assim, só imprimimos a quantidade realmente necessária. Mas tem outro fator que é a divulgação para que as pessoas tenham conhecimento do projeto. Como existem vários quadrinhos sendo planejados e lançados, temos um grande trabalho para aparecermos e nos destacarmos. Sem a devida divulgação, não temos como alcançar nosso público alvo, e, por consequência, não teremos como alcançar o objetivo de lançar nossa publicação”, explica Valmar.

Outro aspecto a ser destacado dentro dessa dificuldade reside na resistência de algumas linhas editoriais em enxergar o potencial dos quadrinhos dentro da proposta do terror e do fantástico. Seja isso por medo de uma patrulha virtual, tão comum na era dos “cancelamentos”, ou por não acreditarem que tais publicações possam gerar retorno em vendas. Roteirista presente em “Pandemonium”, Saul Mendez Filho destaca que, para algumas editoras, “é mais difícil apostar hoje em algo novo que possa ser linchado virtualmente do que em uma franquia estabelecida, ainda que a mesma seja considerada “incorreta” em diversos sentidos. Existem marcas e personalidades que sempre estarão livres de ataque, e outras não”.

O co-autor traz um exemplo preciso ao abordar as diferentes mídias em análise de uma obra mundialmente conhecida como “Lolita”. “Ainda hoje se assiste ‘Lolita’, filme de Kubrick, nos círculos cinéfilos, sem qualquer comentário que não seja elogioso. Ao mesmo tempo se cancela Nabokov e sua obra literária, ainda que o livro possua mais questionamento e culpa em seus milhares de caracteres em relação às aplaudidas linhas de roteiro que foram confeccionadas pelo próprio autor para o filme. Kubrick nunca será criticado, porque isso se tornou um padrão. Da mesma forma, criticar alguns nomes específicos – como Woody Allen – se torna um padrão, e a sensação de participar na internet de um grupo que concorda é sempre fantástica. Em grupo, se abate quem pensa diferente com muita maestria”, compara Saul.

Para essa entrevista, o Scream & Yell contou com depoimentos, além de Valmar Oliveira e Saul Mendez Filho, de Romeu Martins e Hector Salas, que trouxeram mais impressões acerca dos desafios de se firmar dentro do nicho do terror gráfico na arte sequencial com referências diversas a obras consagradas das década pregressas. Confira o papo.

https://www.catarse.me/pandemonium

Dentro de um mercado de quadrinhos dominado por publicações oriundas de gigantes como Marvel e DC, vemos o cenário independente resistir, com projetos de lançamentos realizados através de financiamentos coletivos e editoras que, mesmo sem o poder de gigantes como Panini, ainda conseguem se firmar. Para o Coletivo Quadrinhos de Emergência e vocês do Cine Horror Bahia, além do aspecto financeiro, quais as principais dificuldades nesse adentrar em um mercado como este?
Valmar Oliveira – A parte financeira é um grande problema. Como uma publicação independente, temos o preço do papel e das gráficas que sempre varia. O financiamento coletivo é uma forma de pré-venda, na qual contamos com os interessados em adquirir o produto, e só imprimimos a quantidade realmente necessária. Mas tem outro fator que é a divulgação, para que as pessoas tenham conhecimento do projeto. Como existem vários quadrinhos sendo planejados e lançados, temos um grande trabalho para aparecermos e nos destacarmos. Sem a devida divulgação, não temos como alcançar nosso público alvo, e, por consequência, não teremos como alcançar o objetivo de lançar nossa publicação. Lembrando que temos que chamar a atenção enquanto independentes e ainda lutar contra a grande maquina publicitária das grandes e médias editoras, que geralmente trabalham com muitos atrativos para o grande público.

Saul Mendez Filho – Existe público para todos os nichos e subcategorias que as grandes empresas não abrangem, mas o difícil é chegar até ele. E conseguir a confiança deles no projeto: no financiamento coletivo a pessoa não sabe com exatidão o que vai receber, não existe ainda um produto impresso lançado, com resenhas em sites e canais do YouTube. A única base que se tem é a descrição do produto, poucas imagens e um histórico dos realizadores. Mas, ao mesmo tempo, é uma experiência que remete à boa surpresa de comprar uma revista lacrada na banca, como antigamente. Acompanhar a porcentagem de apoios e ver a mesma se desdobrar em novos brindes e conteúdo também é uma experiência única, e, felizmente, tem funcionado no país.

Abordar temas do fantástico e do terror é um desafio maior do que outros tipos de temáticas abordadas pelos quadrinhos atuais?
Romeu Martins – O fantástico, principalmente na sua vertente do terror, é um gênero que tem leitores bastante fiéis entre os apreciadores dos quadrinhos. Prova disso é a aceitação de outro projeto que tenho em parceria com o Val, para uma pequena editora chamada Skript. Estamos adaptando contos do escritor de horror H. P. Lovecraft para o formato de graphic novels e a primeira delas, baseada em “A Cor que Caiu do Espaço”, ultrapassou em mais de 300% a meta estabelecida pela editora no Catarse. Há leitores ávidos por tais temas, portanto.

Valmar Oliveira – No nosso caso, o desafio maior é tentar ser o mais criativo possível. O gênero fantástico pode ser trabalhado de varias formas, abordando os mais variados temas, inclusive podemos tratar de tudo usando o horror e a ficção cientifica, como alegorias para diversos assuntos. O fantástico pode ser usado para discutir temas sensíveis, pois não deve ser preso a dogmas, convenções e ciclos temporais.

Saul Mendez Filho – Isso varia de época para época. No momento, acredito que não, pois vivenciamos um alto interesse dos brasileiros no gênero de horror. As temáticas de representatividade racial e feminina, que vem sendo o parâmetro guia até para a confecção dos conteúdos de super-heróis, também veio chamando atenção para o cinema de horror como expressão de crítica social (embora isso já existisse há muito tempo) e muito do frisson atual com o gênero vem daí, com nomes como Jordan Peele, Robert Eggers, Ari Aster, Jennifer Kent, sendo constantemente citados e exaltados em canais dos mais populares, em meio às notícias dos próximos filmes dos universos de herói. O desafio é pular essa fileira do público que está interessado apenas por conta do momento e por essas demais motivações, e atingir o público que gosta do gênero por si mesmo e em todas suas nuances.

Temos, nos quadrinhos, dentro desse estilo de histórias calcadas no fantástico, uma série de nomes como Alan Grant e John Wagner (“Raça das Trevas”), John Bolton, Dan Spiegle (“Hellraiser”), ambas sob consultoria de Clive Baker. Essas duas são as que me vieram à mente por conta de estarem na estante desde a adolescência. Mas o próprio material de divulgação de “Pandemonium” traz outros nomes de publicações marcantes, tais quais Kripta, Spektro, Heavy Metal, dentre outras, que trouxeram uma diversidade enorme de quadrinhos. Vocês poderiam trazer mais aspectos de como essas influências se manifestam no trabalho que o leitor acessará nesse lançamento?
Valmar Oliveira – Somos todos leitores e fãs de quadrinhos. A maioria do grupo tem uma predileção pelos quadrinhos antigos, mas sem deixar de apreciar os mais atuais. No caso, tentamos trazer quadrinhos que têm uma pegada voltada para o bizarro, o obscuro, sem ter medo de tratar de temas que hoje em dia podem ser considerados “incorretos” e “não aceitáveis”. O horror e a ficção não devem ser limitados, mas devem ser feitos sem se tornar algo gratuito. Horror, ficção, fantasia e suspense, humor negro e nonsense, são abordados em nossas HQs com um estilo mais voltado para o que era publicado nos anos 1970 e 1980, mas sem soar datado.

Saul Mendez Filho – A estética geral se assemelha às antigas coletâneas de quadrinhos alternativos consumidas nos anos 80. Simplesmente são revistas que não existem mais. As principais histórias possuem uma narrativa direta, com foco em contar uma trama básica ou acompanhar uma sequência de ação, às vezes com a presença de pouco texto e foco na ambientação. Tudo isso é herança dos quadrinhos de horror dos anos 50, e foi muito consumido até o fim do século passado, até desaparecer das prateleiras. Ao mesmo tempo, a revista é permeada de histórias mais curtas que apostam no sarcasmo e num experimentalismo que lembra a produção nacional de uma Chiclete com Banana. Essas influências mistas compõem, literalmente, um pandemônio. É natural nesse tipo de revista que o leitor se apegue mais ao traço de um ou outro artista, à narrativa ou ao tema de um ou outro autor. O ganho está justamente na liberdade do formato e na aposta de um produto que não se encontra mais. Nesse quesito, quanto mais volumes forem realizados, maior a chance de se produzirem pérolas curtas do quadrinho nacional.

Em relação à junção entre a narrativa escrita e a arte sequencial, vocês poderiam falar um pouco desse processo de construção? Nesse conjunto de desenhistas e escritores, há como descrever esse passo a passo na criação?
Hector Salas – Cada autor tem seu método, sendo que alguns desenham e escrevem seus próprios roteiros, e outros desempenham apenas uma destas funções. As HQs podem nascer de um argumento, às vezes até mesmo de um rabisco. O quadrinho mais autoral difere do quadrinho mais “industrializado” onde cada artista desempenha uma função específica – roteiro, desenhos, arte final, cores, letras. Isso não tem demérito algum. Grandes obras são feitas de ambas as formas.

Romeu Martins – No caso de minha contribuição na revista, era um conto que mostrei a Val assim que ele me falou sobre a proposta da volta de uma revista de antologia com histórias curtas. Ele leu, aprovou, e ainda me sugeriu um final de maior impacto na trama, sugestão que adotei imediatamente assim que fiz a adaptação para o formato de roteiro. Enviei o texto com uma previsão de dez páginas para um desenhista de minha cidade, o Pawlick, que, por sua vez, pediu para ampliar a HQ em uma página a mais, para que sua narrativa visual fluísse melhor. Este é um bom exemplo da interação entre o roteirista primeiramente com o editor e, depois, com o desenhista, pois nós somos a parte que faz um processo intermediário neste processo colaborativo que é uma história em quadrinhos.

Saul Mendez Filho – Seguimos o processo padrão, mas definimos qual roteirista trabalhará com cada desenhista de forma muito livre. Basicamente apresenta-se um argumento, e caso o desenhista visualize seus interesses e referências pra desenvolver aquele projeto, se forma uma dupla de trabalho. As novas tecnologias contribuem pra que isso possa ser feito completamente à distância. Depois, é questão de como afinar a relação de trabalho, até porque existem roteiristas mais específicos no resultado visual que se pretende alcançar e roteiristas que contam com muito com a criatividade do desenhista tanto na paginação quanto na criação visual dos personagens e cenários. Li recentemente uma entrevista com Jean-Claude Mezières e Pierre Christian, criadores de Valerian et Laureline, onde eles discutem justamente esses limites entre o desenhista e o roteirista e como eles se expandem ora para cá, ora para lá, o que é bem comum se tratando de quadrinhos.

Ao ler alguns trechos de “Pandemonium”, observei uma grande variedade de estilos. Traços que remetem ao noir no jogo de luz e trevas da história homônima desenhada por Hélcio Rogério; ao mangá, com o traço de Giulia Lagrota; ao aspecto apocalíptico do traço de Valmar Oliveira em “Monstros”. Minha pergunta é sobre esse processo de escolha de estilos dentro das possibilidades que a arte sequencial oferece. Como se dá esse processo de escolha dentro da linha editorial proposta por vocês?
Valmar Oliveira – Algumas vezes o estilo do artista vai de encontro com o roteiro. Um complementa o outro, em outras é justamente o contrário. A arte cria um contraste com o texto. No caso da Giulia, o traço dela é fofinho e faz esse contraste com um texto mais pesado. Os traços mais estilizados como o do Rob Saint, Rodrigo Vinicius ou do Damião Santana servem como contraste ao texto e as situações grotescas que ele apresenta. Mas alguns artistas tem um estilo mais definido e já trabalham com temas específicos. O ideal é que cada um tenha a liberdade para trabalhar com o seu estilo, e acho interessante a diversidade de traços.

Saul Mendez Filho – Existe muita liberdade nesse aspecto. Como falei, é sempre o resultado de uma discussão entre roteirista e desenhista, para aquele argumento em específico. A linha editorial, pelo formato, prevê a variedade que resulta dessa liberdade.

Em conversa prévia com Valmar Oliveira, foi abordada questão de negativas oriundas de editoras quanto à publicação de material de quadrinhos de terror, com um foco em situações de violência. O mercado está mais conservador? Qual a opinião de vocês quanto a essa caretice relacionada ao tipo de abordagem proposta por “Pandemonium”?
Valmar Oliveira – Creio que parte do mercado está mais conservador, ou tem medo da reação por parte do público. Em momento algum deixei de falar que nossa publicação seria algo feito para adultos e com inspiração em quadrinhos antigos. Tivemos criticas em relação ao nome, que diziam ser uma alusão à pandemia, criticas à nudez na capa e ao conteúdo de algumas historias. O nome da revista é referencia ao clássico “O Paraíso Perdido” (1667), de John Milton, e é o nome do palácio de Lúcifer. A nudez é algo clássico nas revistas de horror e ficção das épocas que nos inspiram e parecia lógico usar a incrível arte do Hélcio Rogério, ilustrador baiano premiado. Hoje, em plena democracia, não podemos ter medo de nos expressar livremente. Liberdade é a base de toda democracia. A intolerância não pode vir por parte de quem deveria, justamente, defender a liberdade de pensamento e a pluralidade de ideias. Queremos, sim, abordar temas polêmicos com responsabilidade, ter liberdade de desenhar e escrever o que queremos. Não estamos fazendo apologias a violências de qualquer natureza. Se alguém não gostar de nossa publicação, é só não ler. A arte tem que ser livre, e ser libertária. O artista não deve ser limitado. Existe espaço para todos. E como diria o filósofo Voltaire: “Posso não concordar com uma única palavra do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-la”.

Romeu Martins – Não tenho a menor dúvida de que o Brasil está mais conservador e retrógrado hoje do que foi há vinte, trinta anos. E isso parte não apenas de uma única parcela da nossa sociedade, infelizmente, há muito moralismo que se pretende progressista. E há também um problema grave de avaliação nas editoras, que aparentemente escolhem para avaliar material de terror quem não está habituado com o gênero. Se Álvares de Azevedo tivesse que passar por tal crivo hoje, a obra visionária que ele criou em nosso país com “Noite na Taverna” provavelmente não seria impressa. Com isso perdem todos, artistas, editoras e público.

Saul Mendez Filho – É preciso lembrar que tudo passa sempre por uma análise reversa e extremamente múltipla. As dicotomias só existem como uma grande fantasia abraçada neste novo século. Um exemplo da multiplicidade de perspectivas: no universo dos movimentos estudantis, nas faculdades, existem os “conscientizados” e os “não-conscientizados”, mas no universo de uma faixa do empresariado o que existe na verdade são os “normais” e os que “sofreram lavagem cerebral”. Em meio a isso, pode ter certeza que vão coexistir diversas outras dicotomias moldadas dentro dessa perspectiva. Eu poderia dizer que existem as editoras “caretas” e as “não-caretas”, as “conscientizadas” e as “não-conscientizadas”, talvez até as “pseudo-conscientizadas”. Mas isso seria, sempre, uma análise muito pessoal. Para muitos conhecidos eu sou quase um comunista; para outros, eu represento um dos males da classe média. A realidade sempre existe em algum espaço extremamente líquido que permeia os elementos dessas dicotomias. Existem fragmentos de verdade em toda uma multiplicidade de olhares. Por isso mesmo, acho que não cabe julgar. A “Pandemonium” é uma questão de escolha para o leitor, assim como o é para uma editora. Mas em algum momento, em meio a toda essa onda de cancelamento que tende a moldar a multiplicidade a uma só perspectiva do real, haverá de caber o auto-julgamento, se seguiram o melhor caminho de fato. Chegarão até eles também julgamentos reversos completamente esdrúxulos e inesperados por parte dos consumidores. As editoras não estão livres disso. O melhor é sempre a sinceridade consigo mesmo e com seu próprio projeto. Ninguém é algum “…ista” só porque decidiram.

Em um ano no qual lançamentos como os da editora Pipoca&Nanquim, nos quais a violência gráfica encontra espaço nas páginas de, por exemplo, “Tartarugas Ninjas” e “O Maskara”, é perceptível que há espaço para esse tipo de literatura no mercado editorial. Essas negativas são casos isolados?
Valmar Oliveira – Há um espaço para quadrinhos com temática mais adulta. Recentemente tivemos a volta do “Necron”, do artista italiano Magnus, pela Tai Editora. Uma HQ recheada de humor negro, necrofilia, sexo e violência, antes publicada na saudosa “Animal” e até pela L&PM Editores. Há espaços para todos, mas alguns temas, eu acho que são sensíveis para algumas linhas editoriais. Resta ao autor tentar lançar de forma independente, visando um público específico.

Romeu Martins – Havendo profissionalismo em todas as etapas, da criação e da avaliação, com certeza há espaço para todo tipo de história.

Saul Mendez Filho – É uma maioria. Tenho certeza que é mais difícil apostar hoje em algo novo que possa ser linchado virtualmente do que em uma franquia estabelecida, ainda que a mesma seja considerada “incorreta” em diversos sentidos. Existem marcas e personalidades que sempre estarão livres de ataque, e outras não. Por isso mesmo ainda hoje se assiste “Lolita”, de Kubrick, nos círculos cinéfilos, sem qualquer comentário que não seja elogioso; enquanto ao mesmo tempo se cancela Nabokov e sua obra literária, ainda que o livro possua mais questionamento e culpa em seus miles de caracteres em relação às aplaudidas linhas de roteiro que foram confeccionadas pelo próprio autor para o filme. Kubrick nunca será criticado, porque isso se tornou um padrão. Da mesma forma criticar alguns nomes específicos – como Woody Allen – se torna um padrão, e a sensação de participar na internet de um grupo que concorda é sempre fantástica. Em grupo se abate quem pensa diferente com muita maestria. O caso da Pipoca&Nanquim, assim como o de outras editoras como a Darkside, é claro: tudo que elas imprimirem se tornará uma obra a elogiar e a relevar qualquer falha, pois para os grandes grupos de consumo do país esse interlocutor é alguém com quem sempre se concorda. Dessa forma, eles têm muito mais liberdade editorial do que editoras menores, ainda que produzam material supostamente polêmico. “Ranxerox” foi produzido no Brasil. Ninguém critica “Ranxerox”. Existe sempre uma bola da vez.

Em quanto, em termos de dificuldades para se concretizar um lançamento, o formato físico dos quadrinhos é uma barreira financeira para lançamentos? Pergunto isso não como um entusiasta da mídia digital, esclareço. Para mim, não há outra forma de se acessar uma HQ se não no papel. Mas, pensando mercadologicamente, há consumo significativo em um lançamento digital?
Valmar Oliveira – As dificuldades de um lançamento físico são os de sempre, a parte financeira, para custear as impressões, a divulgação do produto e a distribuição. Essa última é uma das mais complicadas, pois as saudosas bancas de revistas têm sumido. Restam comic shops, livrarias e sites como Amazon. No caso do nosso projeto financiados pelo Catarse, nós ficaremos encarregados das postagens dos exemplares aos apoiadores. Oferecemos, também, a opção de cópia digital, mas, felizmente, a grande maioria dos fãs de quadrinho preferem as edições impressas.

Saul Mendez Filho – Para os livros, o consumo digital tem se tornado uma realidade muito presente, com o leitor Kindle da Amazon fazendo sucesso. Mas até nesse mercado, o que mais empolga na compra do aparelho é a possibilidade do consumo das obras pirateadas, ainda que exista uma boa quantidade de consumo quando a oferta do e-book se mantém dentro de uma faixa pequena de preço. O Brasil não é para amadores. No caso dos quadrinhos, lidamos por um lado com o publico colecionista, que tem poder de consumo, e por outro lado com um público estudantil de baixo ou pouco poder de consumo. Esse público está acostumado a baixar quadrinhos escaneados e ler gratuitamente, mas não se prevê que venham a se acostumar com a compra de uma HQ digital. Então, basicamente, para a faixa de preço e a proposta, a perspectiva é toda focada no público colecionista, no material impresso, que é sempre (e cada vez mais) caro.

Localmente, pensando em Salvador como uma cidade que possui uma cena relevante dentro da produção de quadrinhos (lembro agora de nomes como Vitor Sousa, Hugo Canuto, para citar apenas dois), quais os entraves encontrados para encontrar parceiros comerciais que viabilizem projetos?
Hector Salas – No nosso caso em específico, a natureza do projeto pode ser um entrave ao patrocínio. Não estamos fazendo nada fofinho ou pretensamente educativo. Porém, de uma maneira geral, Salvador é uma cidade pobre com nichos de riqueza que não parecem se interessar no financiamento de quadrinhos.

Saul Mendez Filho – Acredito que a realidade seja a mesma em qualquer capital do país. Quando se trata de um produto de entretenimento, o empresariado tem os dois pés atrás para investir. O brasileiro tem se acostumado a consumir cultura hoje mais do que em outras décadas, mas, ainda assim, não exatamente a produção nacional. Outros países hermanos possuem uma melhor perspectiva de produção e consumo da própria literatura. No Brasil é mais difícil vender um livro ou uma HQ de um autor brasileiro “desconhecido” do que de um autor internacional, e os empresários sabem e levam isso em conta. É preciso ter dados, números, realidades concretas para apresentar, mostrar que o público existe e contar com uma mesma visão de objetivos por parte da empresa. Contar com quem compreende que nem sempre a intenção imediata é o lucro e que é preciso colocar nas prateleiras do país mais do que biografias de youtubers.

Selos editoriais locais são vias concretas que conseguir materializar um projeto?
Saul Mendez Filho – É um caminho. Normalmente a editora local tem essa visão diferenciada. Busca o lucro, porque ninguém se sustenta sem isso, mas objetiva desde sua criação dar visibilidade e voz para os autores regionais, esse é o combustível que alimenta a criação e o desenvolvimento da empresa. Eu acredito no potencial desse olhar. Mas nem tudo são rosas.

Em relação a incentivos oriundos da Secult, como são vistas as possibilidades de viabilização? Já houve, por vocês, tentativas de incluir projetos de quadrinhos em inscrições de editais?
Hector Salas – Há uma dificuldade em obter estes recursos por conta do grande número de inscritos e, também, por conta de alguns entraves burocráticos. No caso específico de nossa publicação, nem mesmo cogitamos em seguir por esta via. Outros artistas já obtiveram sucesso com editais, outros morreram na praia.

Valmar Oliveira – É complicado e burocrático. Fora que nem todo projeto é aceito. Isso por determinados aspectos que possam divergir não do edital, mas, sim, de quem seleciona. Já tentamos conseguir incentivo para a Mostra de Cinema Cine Horror, e sempre tem algo que impossibilitou. O evento segue totalmente independente, sem recursos, a não ser os oriundos de nós mesmos. O único apoio que o evento tem é por parte da Dimas – Diretoria de Audiovisual da Fundação Cultural do Estado da Bahia, que nos cede a Sala de Cinema Walter da Silveira. E estou falando de um evento voltado para o gênero fantástico, que recebe e exibe produções do mundo inteiro, de países tão diferentes quanto Dinamarca e Irã.

Saul Mendez Filho – Eu, nunca. Não acredito que um material como a “Pandemonium” se enquadre em algum edital do governo do Estado. Tenho outros projetos, mas não acredito que qualquer deles se enquadre nos objetivos primordiais do financiamento estatal. Participei de banca avaliadora do edital FUNCEB 2012, na área de Culturas Digitais, e conheço os parâmetros que fundamentam o trabalho da Secretaria de Cultura. Penso que há, sim, a possibilidade de realizar um material do gênero horror que englobe muito da cultura baiana. Conheço o “Contos dos Orixás”, do Hugo Canuto, que fez um trabalho incrível ao desenvolver um quadrinho de heróis totalmente “Kirbyano” com deuses da cultura africana. Ficou muito bom. Mas acredito que para um projeto nesse aspecto do terror, caberia abordar uma urbanidade soteropolitana que vai além dos africanismos pra chegar em um “je ne sais quoi” muito mais característico, na personalidade própria de uma grande amálgama. A Bahia é única em suas apropriações e cria em tudo seu próprio jeito. Até na violência. Seria uma HQ que talvez se assemelhasse a uma mistura entre Quintanilha, Jack Ketchum e Adonias Filho. Mas com traços de um Carybé reinventado.

Neste aspecto, Valmar Oliveira citou a possibilidade de criação de um selo próprio a partir desse lançamento. Em que estágio esse desenvolvimento se encontra? Poderiam falar mais sobre esse processo?
Saul Mendez Filho – No estágio das ideias. Tudo depende desse primeiro financiamento coletivo, dos apoiadores e do público leitor. E é sempre preciso ir por partes. Pra não virar um pandemônio.

Hector Salas – Não sei ao certo dizer se vale para todos. No nosso caso, parecia ser o mais viável, pois tenho uma empresa há muitos anos, e uma das atividades é justamente atuar como editora. Vamos ver o que acontece.

– João Paulo Barreto é jornalista, crítico de cinema e curador do Festival Panorama Internacional Coisa de Cinema. Membro da Abraccine, colabora para o Jornal A Tarde e assina o blog Película Virtual.

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