Artistas brasileiros revisitam álbum de Brian Eno, 45 anos após seu lançamento

por Marcelo Costa

O mês de setembro marca os 45 anos do lançamento do álbum seminal “Another Green World” (1975), do músico e produtor inglês Brian Eno. Produzido pelo artista e Rhett Davies, o terceiro disco solo de Brian Eno contou com contribuições de vários músicos convidados, incluindo Robert Fripp, Phil Collins e John Cale, e marcou uma transição do rock que marcou seus lançamentos anteriores para uma sensibilidade minimalista que daria rumo a uma nova fase em sua carreira.

Se você ainda não ouviu esse disco, talvez venha a conhecê-lo a partir de uma nova roupagem – ou você também pode ir agora correndo para a sua plataforma de streaming favorita para ouvi-lo antes de dar sequência na leitura dessa matéria; ou então ouvi-lo abaixo, na versão original, ao lado de um tributo em homenagem ao disco que reúne diferentes artistas da cena musical do Rio Grande do Sul convidados pela produtora Luiza Padilha para criarem uma versão revisitada do álbum, 45 anos depois.

“Tudo começou como uma ideia despretensiosa, que acabou tomando uma proporção muito maior do que o imaginado – ainda bem”, comenta Luiza. “Comecei trocando uma ideia com o Carlos Ferreira, produtor e compositor aqui de Porto Alegre que compõe o trio Quarto Sensorial, em que perguntei se ele toparia recriar uma das faixas. Ele topou na mesma hora e a partir dali comecei a falar com outras pessoas e, quando percebi, tinha um álbum completo.”, relatou Luiza.

“Esse projeto tem um mote estético muito forte, pois não tem só o lado de revisitar um álbum seminal, mas por ter sido durante uma pandemia. Não deixa de ser um ‘Another Green World’, mesmo. É quase como se fosse um retrato sonoro”, observa Carlos. O álbum foi gravado por todxs os artistas em suas casas durante o isolamento social e conta com versões de Rita Zart, Bel_medula, Lorenzo Gehlen, Fu_k The Zeitgeist, Carlos Ferreira, Gabriela Lery, Euphorbia, Viridiana, Luciano Zanatta, Solomon Death, Marcelo Henkin, Daniel Lumertz, Zanettini + SVQO e The Rise and Fall of Ice-Pick Lobotomy.

Além do álbum, Luiza também viu no projeto a oportunidade de desengavetar o podcast Bons Albo, lançando um episódio especial dedicado inteiramente ao álbum de Eno (ouça aqui). Você pode ouvir o álbum na íntegra no YouTube ou no Soundcloud, e o podcast está disponível no Spotify. Acompanhe o Instagram do Bons Albo (@bons_albo) para conhecer um pouco mais sobre cada um dos artistas que integraram a versão revisitada de “Another Green World”. Abaixo, você confere o tracking list e Luiza responde três perguntas do Scream & Yell.

Quando surgiu a ideia de homenagear o “Another Green World” e por que vocês escolheram fazer essa homenagem para esse disco em especial? 
Então, foi algo que começou como uma ideia minha e acabou tomando uma proporção bem maior do que eu imaginava. Tudo começou quando eu li sobre a produção desse disco e muitos detalhes me chamaram a atenção – desde entender como esse álbum deu início à transição do Eno pra música ambiente, quanto detalhes técnicos, como nomes que foram dados para determinados instrumentos. Minha ideia inicial era gerar algum conteúdo, mas não sabia exatamente em qual formato. Pensei muito sobre escrever um texto bem elaborado, mas acabei decidindo pelo podcast, já que o Bons Albo tava engavetado há 1 ano e eu tava esperando uma oportunidade de colocar ele no mundo novamente. Aí pensei que seria bacana se eu pudesse chamar uns dois ou três amigues para criarem suas próprias versões das músicas.

Como foi a seleção dos artistas? Como vocês chegaram a esses 14 nomes?
Conectando com a resposta de cima e dando continuidade: eu não sabia muito bem o que pensar sobre essa ideia das versões, aí troquei uma ideia com o Carlos Ferreira pra saber o que ele achava e ele achou muito massa. Aí eu aproveitei o ensejo e já convidei ele, e na sequência já mandei uma mensagem pro Valmor Pedretti. Como eu trabalho bastante com o pessoal da música aqui em Porto Alegre, criei muitas amizades nesse meio, e, na hora de organizar essa seleção, pensei em nomes de pessoas que eu sabia que têm apreço pela obra do Eno e se inspiram nele de alguma maneira. Eu não imaginava que o retorno seria tão positivo e que tantas pessoas abraçariam a ideia, ainda mais nas condições que a gente tá vivendo e toda essa situação de isolamento social. Quando me dei conta, tinha todas as faixas preenchida e pensei “caceta, é isso: vou lançar o álbum inteiro revisitado”. Foi uma sensação muito maravilhosa e só me estimulou a acreditar mais ainda na ideia. O Carlos e o Valmor me deram um apoio enorme durante todo o processo, tanto que o Valmor abraçou a tarefa de cuidar da masterização e o resultado ficou sensacional.

No Scream & Yell já lançamos alguns álbuns tributo e sempre tenho as minhas versões favoritas. Por isso queria saber quais as faixas que mais te surpreenderam no “Another Green World Revisitado” e por que?
Eita, Marcelo, isso não se faz! (hahaha). Pensando na obra dum ponto de vista macro, acho que o álbum ficou coeso e diverso ao mesmo tempo. Todes envolvides no processo trouxeram sua roupagem, trazendo a própria identidade pra dentro da música. Mas, sim, como em qualquer disco, tiveram algumas que me chamaram a atenção – mas eu tenho motivo. Esse álbum é bem especial e, desde a primeira vez que eu ouvi, “I’ll Come Running” já virou a minha faixa favorita e eu tava bem curiosa pra saber como ficaria o resultado final. A Gabriela Lery chegou com uma solução que me surpreendeu muito, tanto que na mesma hora que eu ouvi, pensei “bah, mas essa já é hit!”. O Carlos e o Valmor se juntaram a ela nessa produção e conseguiram deixar com uma sonoridade mais moderna, mas sem perder a essência da música. Ficou uma coisa meio She & Him, sabe? Linda demais! Tiveram outras duas versões que me surpreenderam bastante: a releitura de “Golden Hours”, feita pelo Solomon Death, trouxe um ar que mescla ares soturnos com ares de doçura – o que, pra mim, tem muito a ver com o Ron. A solução que ele apresentou me deixou com os olhinhos suados quando ouvi pela primeira vez, de verdade – essa, inclusive, é a minha segunda faixa favorita do álbum de 1975. A segunda foi a versão da Viridiana, que, além dos beats que nunca deixam a desejar e sempre emocionam, fez uso da voz para recriar “Sombre Reptiles”. Inclusive, ela já comentou que, junto com o lançamento do álbum, vai lançar um vídeo explicando todo o processo de produção e criação dessa versão, lá no Instagram: @viridiana.music. E eu sempre digo e repito: ela não sabe brincar e sempre, sempre, sempre coloca elegância e sensibilidade em tudo que faz.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne

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