Teatro em tempos de pandemia

por Marilia Gouveia

A pandemia do novo coronavírus obrigou o mundo a se recolher. Artistas de todo canto viram salas de teatro, de cinema, e tudo que envolve aglomeração, serem fechadas a fim de conter a disseminação do vírus. Diante disso, a situação da classe artística brasileira, que já vinha enfrentando problemas de público e incentivo cultural por parte do governo nos últimos anos, encontra-se em um momento bastante delicado.

Logo com o primeiro anúncio de quarentena e distanciamento social no Brasil, artistas e funcionários do teatro, que dependiam da renda das bilheterias, foram deixados ao léu. O Ministério, que hoje é uma Secretária da Cultura vinculada ao Turismo, comandada atualmente pelo ator Mário Frias, não apresentou propostas para a problemática. Além das famosas casas teatro com grande alcance, grupos e artistas independentes que complementavam suas rendas com a arte, estão observando um futuro desesperançoso em que não se vê a valorização da profissão.

Em janeiro deste ano, o portal OGlobo publicou uma matéria sobre a redução da verba do Fundo Nacional da Cultura. Em 10 anos, ela foi de R$ 344 milhões para menos de R$ 1 milhão. Para muitos artistas da área, a redução reafirma ainda mais a falta de incentivo à cultura.

Segundo o coordenador dos Centros Culturais e Teatros Municipais de São Paulo, Pedro Granato, a Secretaria da Cultura têm se mostrado ineficaz em suas últimas gestões durante a pandemia. “Além das declarações [dos secretários especiais] serem terríveis, apontam claramente para um caminho de censura, de dirigismo, e de uma verdadeira catequese cultural com uma interferência direta de uma moral religiosa”, comenta o coordenador.

Enquanto a curva dos números de infectados pelo vírus não diminui, em especial no Estado de São Paulo, que se tornou o novo epicentro da doença, o teatro migrou para dentro das casas dos artistas. As telas do Zoom e do Skype dão espaço aos espetáculos que haviam sido cancelados, e as salas de estar dos artistas são os novos cenários de personagens ‘confinados’. As lives e vídeos compartilhadas do Instagram são palco para shows musicais, apresentações de dança e bate-papos com recorde de audiência. E o drive-in, sucesso nas décadas de 50 e 60, ressurge com a possibilidade da volta do cinema e teatro enquanto as salas estão fechadas. Já o Spotify, que mais é conhecido pelas playlists e podcasts, é espaço de reinvenção das radionovelas tão amadas na década de 20. Conheça algumas opções:

“Caso Cabaré Privê” – via Zoom, por Pedro Granato

O musical “Caso Cabaré Privê” é dirigido por Pedro Granato, que, além de coordenador dos Centros Culturais e Teatros Municipais de São Paulo, é diretor, ator e professor. Inicialmente planejada para os palcos com direito à plateia lotada, a peça precisou passar por diversas mudanças e ganhou decoração nova: a casa dos atores do grupo Núcleo Pequeno Ato. Cada artista em seu “quadrado”, online via Zoom, a exibição é interativa e convida os espectadores a escolherem o rumo da narrativa.

O enredo, escrito por Tainá Muhringer e Felipe Aidar, nasce com uma morte logo no início. O filho do presidente é encontrado morto em um cabaré privativo e o público é convidado a investigar a morte antes que o caso se torne público. Com as interrogações comandadas por um delegado, os espectadores invadem a intimidade das cabines privê, interrogando os personagens suspeitos.

“Eu sempre foquei nesse lado imersivo, pois ele não é só imersivo como te traz para dentro da situação. O espectador não está olhando pelo buraco da fechadura, ele faz parte da história, ele é um personagem da história (…) Então, vejo que utilizar esta ferramenta dentro do Zoom é prosseguir o modelo, inovar. E por um lado é interessante porque abriu uma nova frente de como fazer um espetáculo interativo-imersivo online”, comenta Granato.

Apesar da mudança repentina dos cenários e migração virtual dos ensaios e apresentação, o diretor afirma estar feliz com o resultado e por ter a oportunidade de experimentar e aperfeiçoar este estilo de interatividade em um formato novo, que se não fosse pela quarentena obrigatória, provavelmente ficaria no campo das ideias. “Fazemos este Cabaré como uma noite que possui registros pelo celular, e cada sala [quadrado individual dos atores] é interrogada ao vivo pela plateia”, acrescenta. Os ingressos entre R$20 a R$50 por sessão.

“Macha, Morte” – via Spotify e Youtube, por Gabriel Claudino

A áudio série sobre a história de uma jovem e um mundo em vertigem, “Macha, Morte”, é escrita, dirigida e editada por Gabriel Claudino da Silva, 25 anos. Ator e dublador formado pelo Teatro Escola Macunaíma de São Paulo, Claudino é apaixonado por arte desde menino e decidiu traduzir a história de Macha para os players do Spotify como forma de aguçar em seus ouvintes a projeção do que é sugerido pelos sons. “É como se o espectador pudesse sair um pouco da pandemia e brincasse com os elementos da história usando só sua mente, preenchendo com as suas próprias cores os detalhes da composição”, comenta Gabriel.

A trama começa com Macha acordando em uma cama de hospital sem se lembrar de como chegou lá, até que é surpreendida por uma neblina que a leva para estranhos lugares em que pessoas estão prestes a morrer. Durante a jornada, Macha conhece outros personagens tão surpreendentes quanto o destino a levou até eles, e com o propósito de fazer com o que ela se questione sobre o seu papel neste mundo, a viagem permite que ela descubra mais sobre o seu próprio passado.

Lançada pela primeira vez em formato de história em quadrinhos no Instagram em 2018, a história da personagem Macha foi finalizada na época com 30 capítulos. Entretanto, para Claudino aquele formato não era o ideal. Por isso, após um mês do lançamento, engavetou os desenhos como forma de revisita-los em outro momento e adaptá-lo para um romance.

Para a elenco responsável por dar voz aos personagens, Gabriel escolheu amigos que conheceu em seu curso de teatro e também em sua formação acadêmica. “Minha intenção desde o começo era estar com pessoas que tivessem vontade de participar, aprender e se arriscar numa expressão interpretativa que poderia ser nova. Não importava o nível de experiência com atuação, éramos um grupo e iríamos nos aperfeiçoando e nos desenvolvendo juntos ao longo das gravações”, contou. “Macha, Morte” tem dois episódios inéditos por semana no Spotify e no Youtube. Você também pode conferir novidades no Instagram @machamorte.

Zoo Experiênce – via drive In, por Junior Rangel

Inspirado nos safáris africanos, o musical Zoo Experience é um espetáculo imersivo que instiga, mesmo de dentro dos carros, a participação do público nas cenas e interação com os atores, “quebrando a quarta parede”. Dirigido por Junior Rangel, a peça já viveu edições em cima dos palcos e em espaços abertos, e nesta nova fase, se redesenha para divertir o público dos drive-ins (em cartaz no drive-in do Centro das Tradições Nordestinas, na Zona Norte de São Paulo).

Para criar maior interatividade com os espectadores, o diretor decidiu buscar alternativas que façam com o que plateia ajude a contar a história e sinta-se parte da aventura na Savana. “Comandos para ações no carro como buzina e pisca-alerta serão dados ao longo dos atos e ajudarão a contar a história das personagens”, comenta Rangel.

Com 1h de duração, o musical é formado por 15 atores, bailarinos e circenses, e narra aventuras de animais típicos da savana africana e apresenta suas singularidades. Leões, elefantes, zebras, girafas e entre outros bichos prometem divertir o público e trazer um alívio em meio a pandemia para as famílias. A mensagem do espetáculo é de fé e aproximação com a natureza com um desejo de mudança para as próximas gerações.

Segundo o Centro das Tradições Nordestinas, medidas de segurança estão sendo tomadas em todos os espetáculos drive-ins a fim de garantir a segurança do público, atores e funcionários. São 108 vagas por sessão e com pelo menos 2 metros de distanciamento por carro, sendo permitido até quatro pessoas por veículo e saída autorizada apenas para ir ao banheiro.

O teatro pós pandemia

Quando o cinema surgiu, disseram que o teatro iria acabar. Logo depois chegou a televisão, que este ano completa 70 anos ao ar no Brasil, e ameaçou mais uma vez a existência do teatro. Além de não ter acabado, o teatro segue se reinventando com o mundo e aperfeiçoando a maneira de se fazer arte e se comunicar como público. Entretanto, com a chegada da pandemia, o mercado que depende inteiramente de aglomeração, se viu sem saída.

A atriz Júlia Lemmertz, em entrevista para a TV Brasil, no programa Sem Censura, diz que o teatro já passava por grandes dificuldades, em especial para fazer com que um espetáculo circulasse e atraísse mais público. “Eu estava em cartaz com uma peça antes da pandemia e íamos viajar por cinco capitais, Maceió, Belém do Pará e outros lugares mais distantes que a peça ainda não tinha chegado (…). E agora com a pandemia, parou tudo, e provavelmente a gente não vai conseguir ir pra lá tão cedo”.

Para a classe artística brasileira, olhar para o teatro pós pandemia é algo muito incerto e que não deveria ser discutido agora, já que o país ainda vive um crescente índice diário de infectados. Eduardo Butakka, ator, diretor e professor de teatro, acredita que o futuro é inconstante e é preciso enfrentar o ‘agora’, “Até porque essa é a função do artista, entender e interpretar o seu tempo de forma sensível. (…) Não podemos esperar e querer voltar pro mundo que deixamos lá atrás. Esse mundo já mudou. Negar isso é sofrer, é estagnar. O artista precisa, mais uma vez, ser resiliente e buscar nessa adversidade uma oportunidade de se reinventar. O mundo precisa do artista”, aborda Butakka.

Já do outro lado do mundo, na Alemanha, o Teatro Berliner Ensemble, fundado por Bertolt Brecht, divulgou no final do mês de maio a nova configuração de assentos para reabertura em setembro. Se adequando às novas normas de saúde, o local que antes tinha capacidade total de 678 pessoas, foi reduzido por mais da metade a fim de garantir o distanciamento social.

– Marilia Gouveia (Linkedin) estuda jornalismo na FAPCOM. A foto do Teatro Berliner Ensemble que abre o texto é uma reprodução do Facebook oficial do teatro.

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