Entrevista: Alessandro Andreola (Editora Barbante)

por Marcelo Costa

Trabalhar com qualquer coisa relacionada com cultura nestes anos inacreditáveis não é só um ato de coragem, mas, principalmente, um ato de amor, uma maneira de devolver ao mundo um pouco da paixão que a cultura nos deu – e em muitos casos, nos salvou para que, também, pudéssemos salvar alguém. Nesse quesito, é difícil pensar em algo mais bonito do que ter uma editora em 2020, fazer das tripas coração para colocar um livro na rua, esperando que aquelas palavras e imagens impressas em papel possam fazer por outros um pouco do que fazem por nós.

Fruto da paixão de um casal de jornalistas, Alessandro Andreola Paola Marques, a Editora Barbante nasceu em 2016 com um livro sobre música (“Música do Dia”, que é “uma coletânea de textos que contam a história de várias canções e álbuns, além de reunir alguns perfis que vão de Hendrix e Phil Spector a Poly Styrene e Jarvis Cocker”, explica Alessandro) e outro sobre fotografia (“Wadad”, em que o fotógrafo Eduardo Macarios reconta a trajetória da avó, que veio do Líbano para o Brasil nos anos 1950, num misto de diário e acervo fotográfico familiar).

“De lá para cá, a luta tem sido para que a editora se firme como nossa atividade principal, o que não é uma tarefa fácil”, conta Alessandro em conversa por e-mail, explicando que a Barbante segue o modelo de “slow publishing mesmo, e com ênfase no slow. São poucos títulos, com tiragens pequenas”. Para ele, “o que tem quebrado um pouco esse ecossistema (de editoras independentes) não é nem esse momento político lamentável, acho, mas a pandemia. Sem feiras para vender seus materiais, as editoras pequenas sofrem muito”.

Na conversa abaixo, Alessandro fala sobre “Música do Dia” e também sobre “Ouça Este Livro: 20 Playlists Surpreendentes”, de Cassiano Fagundes, além dos dois livros da série Sound+Vision da editora, que aprofundam o olhar sobre os discos “Lost In The Dream”, do The War on Drugs, e “Corredor Polonês”, da Patife Band, ambos aprofundados no formato faixa a faixa. Andreola também conta como foi a experiência de ter uma livraria de rua em Curitiba, e avisa que a Livraria Barbante logo ganhará um endereço online. Fique atento.

http://www.editorabarbante.com.br   –  https://www.facebook.com/editorabarbante/

Como surgiu a ideia de criar a Editora Barbante e como é para vocês manter uma editora num momento da história do país em que a cultura é tão vilanizada?
A editora nasceu porque eu tinha decidido me autopublicar — no que viria a ser o “Música do Dia” — ao mesmo tempo em que a Paola Marques, que além de minha sócia na editora é também minha esposa, trabalhava na edição de um fotolivro chamado “Wadad”, que conta a vida de uma imigrante libanesa no Brasil. Tanto eu como a Paola somos jornalistas e ambos já tínhamos trabalhado marginalmente com a edição de livros, mas esses dois projetos eram os primeiros em que a gente tomava à frente. Então coincidiu disso estar acontecendo simultaneamente, e quando vimos que tínhamos esse dois livros nas mãos olhamos um pro outro e falamos “bom, parece que agora temos um editora”. Isso foi 2016.

De lá para cá, a luta tem sido para que a editora se firme como nossa atividade principal, o que não é uma tarefa fácil. Obviamente não ajuda muito que o governo seja ocupado por esses caras inacreditáveis, em muitos aspectos a coisa é realmente catastrófica. Por outro lado, acho que são nesses momentos que se formam as resistências, e eu vi isso de perto, porque logo depois da eleição do Bolsonaro parece que houve uma proliferação de novas editoras e feiras de publicação — a gente mesmo se aventurou a abrir uma livraria só de independentes aqui em Curitiba, que teve vida curta, mas foi uma experiência super legal. O que tem quebrado um pouco esse ecossistema não é nem esse momento político lamentável, acho, mas a pandemia. Sem feiras para vender seus materiais, as editoras pequenas sofrem muito.

No catálogo de vocês é possível encontrar livros sobre música e fotografia. Como vocês escolhem o que lançar? Como é feita essa curadoria para publicação?
A verdade é que nós temos mais ideias do que damos conta de realizar. Como a editora é basicamente eu e Paola, não existe hoje uma estrutura para dar vazão a tudo o que gostaríamos de lançar. Então, até por força das circunstâncias, o nosso modelo é de slow publishing mesmo, e com ênfase no slow. São poucos títulos, com tiragens pequenas. Nós tentamos sempre pensar um pouco à frente, mas o que realmente é publicado depende de uma série de fatores, que incluem tempo, grana e um bocado de sorte também. Mas de modo geral tentamos nos concentrar nessas duas áreas, mesmo que eu não goste muito da ideia de ficar refém desses assuntos. Pode ser que hora dessas a gente resolva publicar um livro de cinema, um infantil ou de outra área qualquer.

O que te motivou a escrever sobre o “Lost In The Dream”, do The War on Drugs? É um livro que se encaixaria maravilhosamente bem na série “O Livro do Disco” (33 ⅓), mas acho importante a ideia de você lançar de maneira independente, por sua própria editora. Essa série, Sound+Vision, é pensada para isso: livros sobre discos?
Sou um super fã da 33 ⅓ e acho que a Cobogó, que publica a série aqui como “O Livro do Disco”, faz um trabalho excelente, inclusive com os títulos sobre discos brasileiros. Mas de início o meu livro sobre o The War On Drugs não foi feito pensando nesse formato — pelo menos não conscientemente. O que aconteceu é que sou um grande fã do “Lost In The Dream”, ouvi muito quando ele saiu em 2014. Três anos depois, por nenhuma razão específica, voltei a escutar e a ler muito sobre o disco. E praticamente todas as matérias e entrevistas falavam sobre o tal colapso nervoso que levou o Adam Granduciel a compor o álbum. Comecei a ter muitas ideias, ao ponto de ficar obsessivo, e decidi escrever uma espécie de ensaio bem solto, como uma espécie de terapia. Eu queria tirar aquilo do meu sistema antes que eu também tivesse um colapso. O formato faixa a faixa veio naturalmente, era um jeito fácil de organizar a coisa toda. Quando ficou pronto, eu pensei que aquilo dava um pequeno livro, uma coisa de fã para fã, mas também me pareceu algo que poderia agradar qualquer pessoa interessada em processos criativos. Convidei esse talento imenso que é o André Ducci para ilustrar cada uma das faixas do disco e fizemos então uma tiragem minúscula — 80 exemplares, com capa dura em serigrafia e lombada de tecido, uma coisa muito caprichada. Esgotou meio rápido, e aí veio essa nova versão em brochura, já dentro da Sound + Vision. Que é nada mais do que uma releitura pessoal da 33 ⅓ — no nosso caso, a ideia é que todos os livros sigam essa estrutura de faixa a faixa, sempre com um artista convidado para dar sua representação visual dessas canções, seja por meio de ilustrações, fotos, colagens, o que for. Além disso, a preferência é por álbuns não tão conhecidos, apesar disso não ser uma regra.

Gostaria que você falasse um pouco sobre os livros “Música do Dia”, que você escreveu (e que tenho usado como um livro da sorte: abro aleatoriamente numa página e acabo mergulhando no universo sonoro depois), e “Ouça Este Livro”, do Cassiano Fagundes.
Os dois livros têm origens parecidas. Tanto o Cassiano como eu trabalhamos por um bom tempo como curadores de um serviço híbrido de streaming e notícias chamado Power Music Club (é sério), mantido pela finada GVT. Lá, escrevemos literalmente milhares de textos, que incluíam notinhas, colunas, críticas de discos e um monte de outras coisas. O diabo é que quando a GVT foi vendida, e o serviço consequentemente desativado, todo esse material foi para o limbo da internet. Simplesmente sumiu. Felizmente eu tinha o hábito de salvar cópias do que saía, então consegui recuperar grande parte do material.

A ideia de compilar alguns dos melhores textos em livro era uma coisa que já me passava pela cabeça quando eu ainda trabalhava por lá — porque, naturalmente, o que o cliente do serviço queria não era ler sobre música, mas ouvir. E além disso os artistas mais executados eram Ivete Sangalo, Jorge e Mateus, coisas muito populares. Nesse sentido, publicar um texto sobre Serge Gainsbourg ou Elvis Costello era quase uma molecagem. A gente fazia, porque tinha muita liberdade editorial, mas a verdade é que eram textos que não estavam encontrando seus leitores. E eu achei que o livro era um caminho para isso, então aí nasceu o “Música do Dia”, que é uma coletânea de textos que contam a história de várias canções e álbuns, além de reunir alguns perfis que vão de Hendrix e Phil Spector a Poly Styrene e Jarvis Cocker.

No caso do Ouça Esse Livro, o lance é que o Cassiano sempre foi muito bom de playlist — ele é desses sujeitos que têm um grande repertório e muita facilidade tanto com nomes e datas, assim como para concatenar coisas que aparentemente são completamente díspares, mas que juntas acabam fazendo sentido. Nós resgatamos alguns textos dele com o critério de escolher as coisas mais curiosas e bizarras, e aí eles fez playlists exclusivas para o livro. É bem legal pra quem gosta de curiosidades do pop/rock.

O lançamento mais recente da Barbante é o livro sobre o “Corredor Polonês”, álbum clássico da Patife Band, com texto do Marcelo Dallegrave e da Melissa Medroni. É um disco muito conhecido no underground, mas pouco ouvido, assim como a própria Patife. Como foi pra você ler a versão final do livro? Novidades? Surpresas?
Eu confesso que, até editar o livro, conhecia muito pouco a Patife e a cena do Lira Paulistana. Sabia do status cult do álbum, mas acho que tinha ouvido uma ou duas vezes, se muito. A história do livro é que o Marcelo Dallegrave tinha lido o War On Drugs e me disse o quanto tinha gostado e como ele gostaria de fazer algo parecido, mas não tinha uma ideia. Falei pra ele escrever sobre o “Corredor Polonês”, que é um disco que ele adora. E falei meio da boca pra fora, eu não imaginava que ele ia fazer de verdade. Pois bem: seis meses depois ele me aparece com o livro, que ele escreveu junto com a Melissa depois de entrevistar todos os envolvidos com o álbum que eles conseguiram encontrar. Eu acho comovente que o livro não seja uma biografia super detalhada sobre a Patife, algo que a rigor talvez só me causasse um interesse antropológico, mas sim uma espécie de carta de amor, que ronda alguns temas específicos. E, em essência, ele se parece em muitos aspectos com o que eu fiz no War On Drugs, apesar de ter uma pegada um pouco diferente. Caiu como uma luva para a coleção, tenho muito orgulho de ter editado.

Por fim, gostaria de saber como foi a experiência de ter uma livraria de rua. A Livraria Barbante fechou as portas no final de dezembro passado, certo? E como foi, para vocês, viver essa experiência?
Curitiba tem meia dúzia de livrarias de rua, fora os sebos. E desde que começamos a nos envolver com esse universo das publicações independentes começamos a acalentar a ideia de ter um espaço exclusivo para esse tipo de material — não somente livros, mas também zines, prints e outros objetos inclassificáveis, além de ser um espaço aberto para discussões a respeito dessa cena. No segundo semestre de 2018 surgiu uma espécie de tempestade perfeita para tirar a ideia do papel, e fomos em frente. Durou 15 meses em que acredito termos ajudado a movimentar um cenário que infelizmente é um pouco modorrento. O que eu posso dizer é: ter uma editora é difícil às vezes, mas ter uma livraria é muito mais. É aí que se sente mais na pele como há esse certo desprezo pela cultura, que você me perguntou lá em cima. Mas, por mais que a livraria nunca tenha dado lucro, e que no seu ciclo final tenha começado a dar prejuízo mesmo, o grande motivo de termos fechado as portas foi, digamos, “extracampo”: nossa filha nasceu e logo ficou claro que não dava para manter uma editora e uma livraria enquanto estávamos criando uma bebê. Entre a livraria e a editora, optamos pela editora. Foi a coisa mais sensata a fazer. E agora que demos um tempo, a livraria deve voltar em breve, só que dessa vez online. Logo aparecem novidades.

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell desde 2000 e assina a Calmantes com Champagne

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