Cinema: Alan Parker e os filmes amigos

texto por Ismael Machado

A passagem do tempo sempre foi um tema recorrente na arte. Penso nisso ao divagar sobre as marcas dessa transição em minha própria existência. Ultrapassar a marca dos cinquenta anos e ir caminhando sem pressa aos sessenta impõe algum tipo de reflexão. É inevitável.

Vamos, nesse tic tac do relógio empoeirado acumulando perdas. De referências, sonhos, amizades e muitos etc. Aqui e ali somos surpreendidos – cada vez menos, é verdade – com notícias de mortes de pessoas que possuem peso em nossa trajetória.

Alan Parker me é um desses nomes.

Mesmo sem a badalação ou o respaldo em torno da importância de sua obra, percebo que poucos diretores assinam obras que tenham me impactado tanto como o desse cineasta.

Eu era ainda um recém iniciado na adolescência quando “Fama” (1980) foi lançado. Vi na televisão. O filme despretensioso sobre o sonho de jovens em serem artistas me atingiu em cheio. Eu vi e revi. Perdi a conta. Durante muito tempo a canção ‘It’s Okay If I Call You Mine’ foi trilha para solidão de amor juvenil em minha vida.

Alan Parker dirigindo Bob Geldof em cena de “The Wall”

Algum tempo depois, eu já me via transformado em um adolescente roqueiro e cabeludo quando “The Wall” (1982) chegou às telas do cinema. Na época, podíamos pagar um ingresso e assistir a quantas sessões quiséssemos. Eu via uma, duas, três… aquilo me dizia respeito. Aquilo fazia parte de minha trilha sonora pessoal. E a mensagem me alcançava. Uma rebeldia antissistema, seja lá o que eu entendia por sistema. Mas era um grito. Lembro quando uma turminha de amigos meus decidiu ousadamente exibir em videocassete no salão paroquial do pequeno e conservador distrito em que eu morava, na Região Metropolitana de Belém. Foi um choque para outros adolescentes de um inominável Gente Jovem Semeando Cristo.

Num domingo de manhã, numa sessão de arte no Cinema 3, em Belém, assisti a “Asas da Liberdade” (1984). Aquele filme era meu. Tudo bem, havia o nome de Alan Parker no cartaz, mas ele havia me roubado o filme. Não era possível. Até hoje a história de amizade entre dois jovens, um que sonhava ser pássaro, fraturados e alienados socialmente pós trauma do Vietnã, permanece sendo o meu filme preferido de Alan Parker.

Mas ele ainda faria coisas como “The Commitments, Loucos pela Fama” (1991), um dos melhores filmes ligados ao universo da música já feitos. Eu tinha passado por uma experiência de ter minha própria banda de rock, que morreu muito antes das primeiras braçadas em direção à praia. Eu entendia aquela história. Eu me identificava plenamente com tudo aquilo. A banda que sucumbe no seu início, sem ter a chance de ir mais adiante. Um sonho juvenil que é devorado pela realidade, como poderia muito bem cantar Guilherme Arantes em “Brazilian Boys”.

Alan Parker dirigindo Mickey Rourke em cena de “Coração Satânico”

E o que dizer de “Coração Satânico” (1987)? Saí eletrizado do cinema, com a atuação de Robert de Niro como o próprio capeta que vem cobrar uma dívida. E, sim, naquela época eu jurava que Mickey Rourke era o novo Marlon Brando. E havia Lisa Bonnet, por quem me apaixonei instantaneamente.

“Mississípi em Chamas” (1988) me chamou a atenção ao racismo, aos conflitos e violência, muitas vezes encobertos ou mitigados. E “Expresso da Meia-Noite” (1978) era denso demais. Com uma trilha sonora impactante.

Alan Parker pode até não ter a grife de tantos cineastas mais ou menos talentosos que ele. Não importa. Quando o tempo vai deixando marcas em nosso corpo, quando os pequenos vincos surgem, e os anos que virão certamente serão menores que os ainda por vir, são as coisas que marcaram nossas vidas a se tornarem mais importantes, independentemente de qualquer outra coisa.

A esse diretor de cinema que partiu ficam apenas meus mais profundos agradecimentos. A vida continua. Nem sempre mais leve, mas também nem sempre mais amarga. Alan Parker a deixou melhor para mim e para muitos.

– Ismael Machado é jornalista, escritor e roteirista. Lançou o livro “Sujando os Sapatos – O Caminho Diário da Reportagem”.