“Quase Feliz” é a série mais triste do ano

Texto por Manoel Magalhães

“Quase Feliz”, o título da série argentina, disponível no Netflix, pode indicar que o que você vai assistir em dez episódios é apenas mais uma narrativa da vida típica da classe média. Um homem branco de meia idade, divorciado, relativamente célebre e quase feliz. O copo meio cheio de uma vida medíocre já vendeu muitos produtos audiovisuais, mas este não é o caso da comédia soturna escrita e estrelada por Sebastián Wainraich, que mesmo bebendo de influências óbvias de outros comediantes judeus com uma queda pela autoficção, como Larry David e Woody Allen, consegue encontrar espaço para ser um pouco mais fatalista do que estamos acostumados.

Conhecido na Argentina por apresentar o programa de rádio Metro y Medio, Wainraich traz para “Quase Feliz” seu alter ego, personagem que carrega o mesmo nome e profissão, e que se vê atropelado pelas mudanças inevitáveis da passagem do tempo. O fim do casamento, a velhice dos pais, a falta de conexão com os filhos e os jovens do trabalho, tudo parece ser um grande soco nas esperanças de uma vida continuamente afortunada. O vazio e o declínio da meia-idade com frequência são apartados dos produtos audiovisuais, seja pelo recurso batido do final feliz ou pelo brilho mais atrativo das narrativas jovens, onde a esperança ainda não foi corroída pelo conformismo. A juvenilidade é a tônica em uma safra de boas séries recentes como “Sex Education” e “Normal People”.

O protagonista de “Quase Feliz” confunde na cabeça do expectador um tema central para a construção de dramaturgia audiovisual no século 21. O tribunal online dos comportamentos não pode condená-lo. Sebastián não se comporta com inadequação sexual, não é rude com as mulheres, nem ególatra. Não cabe no estereótipo de conquistador ou irresponsável. Não pode ser cancelado facilmente porque o seu pecado é o mais normal entre os banais: a acomodação. Um desvio que é comum também a todos os que costumam julgar desvios alheios. Preso na dificuldade de expressar sentimentos, por medo e passividade, ele permite que as coisas aconteçam e quase nunca reage. É incapaz de lutar pelo o que deseja e não pode culpar ninguém por isso. Ser demasiadamente apático é uma culpa facilmente reconhecível, em maior ou menor grau, em cada um de nós.

A busca pela felicidade é um dos temas centrais da psicanálise. Em “O Mal-estar na Civilização” (1930), Freud discute a opressão do indivíduo na vida em sociedade e destaca a dificuldade dos seres humanos em lidar com o principal objeto da existência. “Eles buscam a felicidade, querem se tornar e permanecer felizes”, ele diz e parece confirmar que a jornada de Seba é uma representação do que procuramos individualmente, mas que sempre falhamos coletivamente em realizar. “Aquilo a que chamamos felicidade, no sentido mais estrito, vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno episódico”, acrescenta o médico austríaco para destacar a efemeridade inevitável do contentamento humano.

Para Freud, a fonte fundamental de felicidade é o sexo. Não por acaso, é irônico que Sebastián tenha tanta dificuldade para concluir qualquer relação sexual durante a série. O desconforto com a vida erótica dos pais também é outro ponto abordado nesse sentido.

A impossibilidade prática de experienciar constantemente os desejos gera a angústia que paira nas frustrações cotidianas. Carl Jung argumentava que sem o lado escuro, sem o contraponto da insatisfação ou do sofrimento, não existiria o próprio conceito de felicidade. A psicanálise não teria exatamente a função de auxiliar na construção de uma vida essencialmente feliz, mas atuaria ajudando cada indivíduo a suportar com mais consciência e maturidade seus traumas e períodos difíceis. Em entrevista à Folha de São Paulo no final de junho, Wainraich afirmou que observa o comportamento do protagonista em muitos homens de sua faixa etária e justificou a abordagem da série em expor a fragilidade masculina como o desdobramento de uma sociedade argentina muito psicanalisada. O que acontece ao analista de Seba logo no segundo episódio é mais um dos símbolos do enredo psicanalítico implícito.

Para além do subtexto, “Quase Feliz” também surpreende nos detalhes e referências. A escolha do grupo de electropop Miranda! para a canção tema, com o verso síntese do espírito do programa “algo sobre mim não é totalmente feliz”, retoma a cada episódio a atonia oculta no cotidiano. A série também conta com participações que representam o universo afetivo de Wainraich e a cultura pop argentina.

Hernán Guerschuny, diretor da série, faz uma ponta como motorista de Uber, a atriz de telenovelas Leticia Siciliani participa como funcionária de um cartório, e a própria esposa de Sebástian na vida real, Dalia Gutmann, aparece como a apresentadora Romina Castro, companheira na roubada que o personagem se mete ao topar participar de um evento patrocinado por uma marca de televisores. Os melhores amigos são interpretados pelos amigos da vida real do criador e o programa salpica ainda uma seleção de bons atores do cinema argentino como Julieta Díaz e Gustavo Garzón.

É irônico que uma série de comédia trivial seja tão sem esperança. Na prateleira do principal serviço de streaming do mundo, onde é comum que tudo seja capitalizado para melhorar o algoritmo, “Quase Feliz” surge como uma nota estranha, um suspiro dissonante e latino-americano no jeito de retratar uma obsessão coletiva. Fugindo da repetição de platitudes do universo da autoajuda, sublinhando a melancolia de envelhecer, rindo da própria apatia. Ser quase feliz é ser triste sem parecer.

– Manoel Magalhães (@manoelmagalhaez) é músico e jornalista. Vive no Rio de Janeiro.

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