Faixa a faixa: “Corpo sem juízo”, Jup do Bairro

Introdução por Renan Guerra

Foram mais de 10 anos de preparação até que Jup do Bairro trouxesse à vida seu “Corpo Sem Juízo” (2020). Seu primeiro EP solo é um passeio por suas vivências, transformadas aqui em canções de sobrevivência, que falam de amor, de esperança e de luta. Produzido através de um crowndfunding, “Corpo Sem Juízo” conta com participações de Rico Dalasam, Linn da Quebrada, Mulambo e Deize Tigrona; e é produzido por Badsista, com colaboração de Felipa Damasco e Pininga.

Conhecida por suas performances ao lado de Linn da Quebrada, Jup também é apresentadora do programa “TransMissão”, exibido pelo Canal Brasil. Em entrevista aqui no Scream & Yell, Jup deixou claro que esse é um disco de muito orgulho: “Esse trabalho é muito lindo e muito honesto, e inclusive, quando me pego mais pra baixo, ouço e parece que me dá uma injeção de ânimo, porque são coisas que preciso ouvir, eu falo sobre esse momento, parece que toda minha vida e toda minha trajetória eu estava me preparando para esse momento”.

“Corpo Sem Juízo” é um passeio por diferentes gêneros: música eletrônica, rock e rap se misturam para que Jup do Bairro cante sobre seu corpo, sua liberdade sexual, seus amores e todas as dores que atravessam sua existência. São menos de 30 minutos em que Jup constroi um dos trabalhos mais fortes do ano. Para explicar melhor a importância dessas canções, a própria artista destrincha faixa a faixa o seu “Corpo Sem Juízo”. Confira:

Corpo Sem Juízo, por Jup do Bairro

“CORPO SEM JUÍZO” é como se fosse uma extensão de mim, a possibilidade de imortalizar as minhas memórias, o meu corpo. É pessoal, mas não termina em mim. É honesto com uma dignidade construída. Talvez seja a coisa mais importante que já fiz na minha vida e pela mesma.

Palavras em canções escritas desde 2007, quando começo a compor e decompor quem eu já não era mais até hoje, descobrindo as potências das minhas dores e delícias. Sinto que sou a criadora e a criatura do que me tornei hoje, do que venho me tornando e a capacidade do que ainda não conheço em mim, mas quero descobrir.

Esse EP passa por três fases de um corpo: nascimento, vida e morte… Não necessariamente nesta ordem pois eu sinto que já nasci e morri tantas vezes. Essa materialização também é sobre as mudanças e explorações de mim mesma. Foi um processo dolorido e, muitas vezes, incompreendido: mas foi a única forma de me sentir pertencente, pelo menos a mim mesma.

“TRANSGRESSÃO” é um dos nortes possíveis que encontrei de iniciar esse trabalho. Narro meus trânsitos e transições como um processo de crisálida. Um corpo que renasce de uma outra forma, assim como antecede a metamorfose de uma borboleta; ovo, larva e pupa. Em tantos momentos tudo esteve tão escuro pra mim, tão quente, tão frio…

Mas ao enxergar uma luz, uma possibilidade, vi que era capaz de reinventar um lugar/plano/espaço para alcançar voos maiores, como sonhos nunca imagináveis. Fazendo de flores e amores curtas moradas, ao voar primeira vezes, tentarei ficar por cima do solo o máximo que eu puder.

As questões de gênero e sexualidade sempre são impostas enquanto performance antes mesmo de nascermos e registro isso em “o que pode um corpo sem juízo?” questionando esse lugar que amplifica-se ao decorrer de nossas vidas.

“PELO AMOR DE DEIZE” marca o momento em que a vida acontece permeando a narrativa de uma pessoa preta, sob o signo feminino, pobre, marginalizada e sem juízo. Um corpo suspenso a depressão, ansiedade e desgosto. Conto com a parceria de Deize Tigrona ao criar a possibilidade de uma nova narrativa para nossos corpos que não seja a cavidade de nossas camas, como um despertador. O heavy metal, presente nas minhas referências de infância em adolescência, é a trilha que acompanha esse apelo criando uma sonoridade massiva e encorpada. É um clamor de urgência, agilidade e resinificação.

A vida também nos trás prazeres, desejos, afetos… E é aí que nasce “ALL YOU NEED IS LOVE”. Com um tom sarcástico e malicioso, componho essa canção justamente com Rico Dalasam e aciono Linn da Quebrada para o time de intérpretes para falarmos de amor. Mas não se engane achando que “ALL YOU NEED IS LOVE” é uma canção única e exclusivamente para sua playlist de sexo. É a transformação do amor, do que é amar, protagonizado por três corpos pretos, muitas vezes indignos desse sentimento em sua versão ocidental, embranquecida pelo eurocentrismo e cisheteronormativa criando novos sentidos tão plurais quanto o que pode ser o amor.

“O CORRE” conta uma parte da minha história de uma maneira tragicômica. Com referências do rap nacional dos anos 90 na melodia, marca uma memória nostálgica de como Sueli, minha mãe, me fortaleceu nessa caminhada e também como me virei até conquistar meu “malote”. Uma letra divertida, ácida e cheia de referências presentes na infância de uma jovem da periferia. Como um epitáfio que viaja no tempo pra narrar esse conto que não é de fadas.

A última faixa do EP é “LUTA POR MIM”. Em parceria com o cantor e compositor Mulambo, a canção serve como uma espécie de manifesto e desabafo sobre nossos corpos pretos. Produzido pelo Pininga, a “balada sonora 80s” é um dos elementos que contemplam esse trabalho. Uma triste análise que poderia ter sido escrita hoje, agora, neste momento que escrevo esse texto. Mas há uma profetização sobre esses corpos. A faixa termina com “eu não vou morrer”. E não vamos.

– Renan Guerra é jornalista e escreve para o Scream & Yell desde 2014. Também colabora com o Monkeybuzz.

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