Livro: “Sing Backwards and Weep”, a dolorosa biografia de Mark Lanegan

por Janaina Azevedo

Mark é um menininho que quase se chamou Lance. É o filho mais novo de uma mãe abusiva e um pai ausente e vive em Ellensburg, cidade suburbana do estado de Washington. Desde cedo, aprende que precisa ferrar com as pessoas antes que ferrem com ele. Será um menor infrator. Bebidas e drogas vão ser os seus principais interesses, junto com uma terceira opção: a música.

Graças a ela, vai acabar se aproximando de dois irmãos, com quem vai criar uma banda. Sem maiores perspectivas, vai apostar nela pra deixar a cidadezinha e ir atrás de cada vez mais bebidas, drogas e mulheres, outro interesse que irá crescer com o tempo.

Vai conhecer o sucesso, mas também vai ficar cara a cara com a miséria. O horror. O medo. A desesperança. Terá como amigos os caras mais famosos do momento, e também vai levar junkies que moram na rua para viver em sua casa. Vai ultrapassar a juventude, os primeiros anos da idade adulta e a chegada aos 30 cada vez mais obcecado e afundado nas drogas, especialmente uma, a heroína. Mark acredita que só ela poderia salvá-lo de morrer por consequência do alcoolismo. Que ideia mais estúpida.

Não sei que tipo de milagre manteve Mark Lanegan vivo. O fato é que ele sobreviveu para contar a própria história, e o fez em 300 e poucas páginas de um livro que a editora White Rabbit pediu e Anthony Bourdain incentivou. A gente conhecia as histórias de Mark Lanegan mais pelos seus amigos do que por ele, um dos caras que menos fala na cena musical.

“Sing Backwards and Weep” (2020) ganhou o nome de um trecho de “Fix”, canção do disco “Field Songs” (2001), e saiu em abril no mercado exterior. Foi minha leitura de quarentena, quase um mês mergulhada em suas páginas. Uma jornada dura, indigesta. Mas que eu precisava ler para finalmente entender o que está por trás do artista que mais ouvi nos últimos 10 anos da minha vida.

Está lá a comentada história das ligações que Kurt Cobain fez a Mark antes de se matar, e que ele não quis atender. Que os dois foram grandes amigos já era conhecido, mas a biografia amplia a narrativa com detalhes, como o show do Nirvana na biblioteca de Ellensburg, onde os dois se conheceram ainda adolescentes, ou o dia em que Mark e Dylan Carlson flagraram pela janela o momento em que Kurt quase teve uma overdose, mas não puderam ajudá-lo, pois não conseguiram entrar na casa.

Muitas pessoas sofreram na mão de Lanegan, na medida em que ele evoluía de um jovem quieto e autocentrado para um adulto desagradável, agressivo e cada vez mais obcecado em conseguir drogas.

Mark relata suas próprias histórias horríveis com honestidade. Admite que praticava bullying com os irmãos Van Conner, seus companheiros de Screaming Trees (Gary falou sobre sua relação com Mark em uma reveladora entrevista ao Scream & Yell), que tirava do seu caminho qualquer coisa que ameaçasse seu hábito com as drogas, e tira sarro de si mesmo ao relembrar o episódio de Roskilde, quando quebrou equipamentos e tentou bater na equipe do palco, irritado com falhas no som. O vídeo é, realmente, vergonhoso (a partir de 30 minutos).

Entendemos a jornada difícil e sem esperança de um homem que atingiu o fundo do poço pouco depois dos 30 anos, quando o Screaming Trees já dava seus suspiros finais. Incapaz de viver sem a heroína, Mark Lanegan amargou dias horríveis na Europa, onde não tinha contatos para obter a droga, e voltou para Seattle para virar traficante nas áreas degradadas na cidade.

A cada passagem de tempo, se torna mais amargo. Confrontado com uma piadinha babaca de Liam Gallagher durante um festival, Mark o ameaça e deixa claro que, se não fosse pelos seguranças, teria partido pra briga. A história parece ainda o deixá-lo furioso, porque ele a dedicou um capítulo inteiro na biografia, e pouco após o lançamento, os dois ainda trocaram farpas no Twitter. É a parte mais chata de “Sing Backwards and Weep”.

Como narrador da própria história, Lanegan passa a limpo um caminhão de mágoas. Tenho a impressão – ou talvez fosse uma expectativa alta minha – de que ele falou pouco sobre música. “Sing Backwards and Weep” não é um livro para conhecer a fundo detalhes de criação de sua obra com o Screaming Trees e seus dois primeiros discos solos, que estão dentro do período relatado.

Ele também não escreveu o livro sozinho: teve ajuda do escritor Mishka Shubaly. Responder não parece ter sido uma preocupação da dupla: “Sing Backwards and Weep” deixa mais perguntas do que respostas. O que está por trás de tanto ódio na vida de um homem? Até que ponto a relação com a mãe problemática causou danos que Lanegan levou para a vida? Como ele sobreviveu a uma geração que hoje conta os mortos? O que teria acontecido se tivesse atendido ao telefone?

Mark é um homem de 55 anos. Vive com a esposa em Los Angeles, e lança disco após disco: já são 12 na carreira solo (o mais recente, “Straight Songs of Sorrow”, saiu em 2020 inspirado pelo livro), mais colaborações com Greg Dulli, Duke Garwood e Isobel Campbell e uma centena de colaborações com nomes como QOTSA, Unkle, Moby, Slash, Mad Season, The Twilight Singers, Eagles of Death Metal, Mike Watt e Soulsavers. Conquistou fãs e respeito após viver anos de inferno. Parece saudável, mas não perdeu o ar transtornado da criança abandonada dentro da própria família. Todos ficam assombrados com sua voz. Eu mesma fiquei nas quatro vezes que o ouvi ao vivo (escrevi sobre a última aqui).

Agora tem sua história contada no livro mais doloroso dos últimos tempos.
Que bom que ele sobreviveu.

– Janaina Azevedo (www.facebook.com/janaisapunk) é jornalista e colabora com o Scream & Yell desde 2010.

Leia também:
– Mark Lanegan em São Paulo (2010): uma apresentação completamente visceral (aqui)
– “Last Words: The Final Recordings”: o último suspiro do Screaming Trees (aqui)
– “Adorata”, The Gutter Twins: eis um disco recehado de covers inusitadas (aqui)
– “Bubblegum”, de Mark Lanegan: um dos melhores discos da carreira do cantor (aqui)
– Mark Lanegan e Greg Dulli ao vivo em uma festa de interior… na Bélgica (aqui)
– “It’s Not How Far You Fall”, Soulsavers: guitarras estridentes, teclados climáticos (aqui)

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