Três livros: “Uma Mulher no Escuro”, “Raul Seixas: Não Diga Que a Canção Está Perdida” e “Filhos de Sangue e Osso”

Resenhas por Adriano Mello Costa

“Uma Mulher no Escuro”, Raphael Montes (Companhia das Letras)
Em 31 de maio de 1998 uma criança de quatro anos teve toda a família assassinada dentro da própria casa, sendo que como única sobrevivente – por motivos óbvios –, cresceu de maneira angustiada e 20 anos depois trabalha como atendente em um café, mora sozinha em lugar não muito sadio da cidade maravilhosa, passa por sessões de terapia com frequência e foge de qualquer tipo de contato pessoal um pouquinho mais intenso seja por medo, por raiva ou por falta de confiança. Esse é o mote de “Uma Mulher no Escuro”, livro do escritor carioca Raphael Montes, autor que completa 30 anos em 2020 e já tem uma lista bem interessante de obras na carreira, como o ótimo “Jantar Secreto” (2016). Com publicação da Companhia das Letras em 2019 e 256 páginas, esse novo suspense do autor possui o ritmo ditado em um thriller psicológico apreensivo onde a protagonista é arremessada dentro de um túnel escuro repleto de segredos, mentiras e mais violência. O grande destaque é a personagem principal, Victoria Bravo, que a duras penas tenta se preservar com sanidade para encarar os desafios da vida depois de ter passado por uma provação tão gigantesca. Quando parece que as coisas estão melhorando pelo menos um mínimo que seja, a personagem se vê confrontada novamente com o pavor e paralelamente com sentimentos de paixão e desejo que desconhecia até então, o que não a impede de ir definitivamente de encontro ao perigo para colocar as coisas enterradas no passado de uma vez por todas.

Nota: 7 (leia um trecho)

“Raul Seixas: Não Diga Que a Canção Está Perdida”, Jotabê Medeiros (Todavia)
Em 416 páginas, o crítico musical e repórter Jotabê Medeiros (que em 2017 publicou o ótimo “Belchior: Apenas Um Rapaz Latino-Americano”) narra a vida do baiano Raul Seixas, um artista de imensurável talento que ainda hoje é cultuado por uma legião de fãs em todo o país – apesar de ter falecido há mais de 30 anos, mais precisamente em 21 de agosto de 1989. “Raul Seixas: Não Diga Que a Canção Está Perdida”, da Todavia Livros, foi publicado em 2019 e é uma obra para entender um pouco mais da magia, da loucura e dos processos artísticos de um músico de extensão nacional que gravou clássicos e mais clássicos em seus discos. Como uma biografia deve verdadeiramente ser, o livro passa longe de somente afagar o biografado e procura mostrar Raul com todos os defeitos que tinha, além de tocar em pontos bem sensíveis e polêmicas que geram discussão mesmo nos tempos atuais, como a prisão do escritor Paulo Coelho pela ditadura (eram parceiros na época: Jotabê falou sobre esse assunto em entrevista ao Scream & Yell) e as apropriações de músicas estrangeiras como base para as próprias composições. Entre o genial, o místico e o rebelde, Raul carregava dentro de si alguns demônios e vícios que o fizeram sucumbir cedo demais, contudo não sem antes tatuar versos e acordes nos corações de milhares. Como diz um trecho do livro: “agregador e ao mesmo tempo solitário, transitou por variados mundos criativos, selecionando de cada um deles as ferramentas necessárias para compor o seu próprio universo”. Raul era isso mesmo, um carpinteiro. Um carpinteiro do universo.

Nota: 8

“Filhos de Sangue e Osso”, de Tomi Adeyemi (Editora Rocco)
“Filhos de Sangue e Osso” (Children of Blood and Bone) é o primeiro livro da escritora nigeriana-americana Tomi Adeyemi, que após se graduar em literatura inglesa em Harvard veio para Salvador estudar mitologia, religião e cultura africana, o que influenciou na criação desse trabalho. Publicado nos USA em 2018, “Filhos de Sangue e Osso” ganhou edição nacional no mesmo ano pela editora Rocco com 560 páginas e tradução de Petê Rissatti. É o primeiro da trilogia “O Legado de Orïsha” (o segundo já saiu lá fora, mas não aqui) e está sendo adaptado para o cinema. Direcionado para o público jovem adulto, este livro é daquelas obras que ultrapassam as fronteiras que lhe são arregimentadas e alcançam leitores de diversas esferas. “Filhos de Sangue e Osso” é na essência uma fantasia que usa a mitologia iorubá e os orixás como condutores e no seu cerne aborda temas como opressão, preconceito, racismo, abuso de poder, ancestralidade e a coragem de lutar para mudar as coisas de lugar. Temas que são tratados com uma força assombrosa para uma estreia. A jornada de Zélie, Amari e Tzain para tornar o reino em que vivem um lugar mais justo para todas as raças, credos e tipos, brigando com o coração na ponta da espada, do machado e do bastão para remover um tirano do trono é daquelas que acalenta a alma e se torna ainda mais impactante depois que se lê o texto no final que correlaciona a obra com a realidade dura e cruel dos tempos em que vivemos.

Nota: 9

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop ( http://coisapop.blogspot.com.br ) e colabora com o Scream & Yell desde 2009!
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