Três discos: Lobo Mau, Pedro de Tróia, André Henriques

Resenhas por Pedro Salgado, de Lisboa

“Na Casa Dele”, Lobo Mau (Edição de autor)
O Lobo Mau, um projeto que reúne David Jacinto e Gonçalo Ferreira (antigos integrantes do TV Rural) com Lília Esteves, demarca-se do rock direto que os dois músicos faziam na sua anterior banda. Concretamente, “Na Casa Dele” (2020), o álbum de estreia do trio, é influenciado pelo folk, pelo indie rock e pela canção portuguesa, com algumas referências internacionais. Outros aspectos que marcam o trabalho são a sua lírica poética e uma temática centrada nas histórias pessoais, nos sentimentos e na visão do mundo dos seus integrantes. Por essas razões, o disco apresenta uma diversidade de soluções, que são valorizadas com a presença de convidados como Manuel Pinheiro (percussão), Bernardo Barata (baixo elétrico), João Pinheiro (bateria) e António Quintino (contrabaixo), entre outros. Na faixa “É Delicado”, onde brilham as vozes de David e Lília, o grupo lisboeta investe sem medo no experimentalismo. O pop “A Grande Proeza” representa o momento mais agradável do álbum e o folk “Se Ela Soubesse” retira o seu encanto dos efeitos sonoros e da intensidade lírica que acompanham a música. Globalmente, o Lobo Mau cria o seu próprio estilo e sonoridade através dos vários caminhos seguidos no disco, resultando numa estreia positiva.

Nota: 7 (Ouça)

“Depois Logo Se Vê”, Pedro de Tróia (Azul de Tróia)
Como vocalista e letrista dos lisboetas Os Capitães da Areia, Pedro de Tróia foi o mensageiro do pop tropicalista que marcou a estreia da banda (no álbum “O Verão Eterno D’os Capitães Da Areia”, 2011) e em 2015 a sua visão estética contribuiu para o alargamento dos horizontes artísticos do grupo por via de um disco conceitual e cósmico (“A Viagem dos Capitães da Areia A Bordo do Apolo 70”). Passados cinco anos, no seu álbum de estreia solo, Tróia aposta numa forma confessional de abordar as suas histórias pessoais, que exprimem dúvidas, inquietações e desejos. “Depois Logo Se Vê” (2020) é um trabalho igualmente marcado pela melancolia e pela tentativa de sugerir uma maior amplitude sonora e no qual Pedro de Tróia concilia adequadamente a frontalidade interpretativa com a reflexão temática. O primeiro single (“Embaraçado”) sugere um ambiente nostálgico comum aos Capitães da Areia, enquanto o seu sucessor, “Nunca Falo Demais”, recorda bem o eletropop dos anos 80, enquanto a acústica “Rés do Chão” destaca-se pela forte carga emotiva que lhe está associada. Em “Depois Logo Se Vê”, Pedro de Tróia exibe a sua maturidade artística por inteiro e abre novas possibilidades musicais.

Nota: 7,5 (Ouça)

“Cajarana”, André Henriques (Sony Music Portugal)
André Henriques, vocalista do Linda Martini, edificou em março o seu álbum de estreia solo (“Cajarana”), cujo título foi retirado de um apelido de André na adolescência, a partir de algumas canções compostas durante dois meses, para outras pessoas, e que seriam abandonadas posteriormente. No trabalho, produzido por Ricardo Dias Gomes (da banda brasileira Do Amor e cujo currículo conta com colaborações com Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto e Jesse Harris), André incorpora personagens femininas e mistura aspectos pessoais com a ficção, abordando o amor, a paternidade e o trabalho. Ao longo do disco, sobressai a forma como o realismo das letras e a dinâmica instrumental dão corpo a ambientes marcados pelo dramatismo. “Cajarana” define-se igualmente pelo registo vocal intimista de André Henriques e pela alternância entre a exuberância e a solenidade sonoras que acentuam a emotividade das canções. Os pontos altos do trabalho são o single “E de Repente”, que sugere eficazmente um clima de suspense, “As Melhores Canções de Amor”, pelo desencanto e proximidade aos blues, e “O Seu Melhor Chapéu”, que completa o lote com imaginação, aludindo aos filmes policiais. No geral, “Cajarana” reflete a urgência da mensagem de André Henriques e confirma o seu talento como escritor de canções.

Nota: 8,5 (Ouça)

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.

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