A bela estreia solo de Hayley Williams (Paramore)

por Richard Cruz

“Hayley Williams estava destinada a sair em carreira solo. Foi só por isso que a gravadora contratou o Paramore, pra começo de conversa. Eles foram maquiavélicos e pacientes, mas no fim, conseguiram o que queriam”.

Essas foram as palavras do radialista Zane Lowe (BBC/Apple Music) na abertura da entrevista que fez há cerca de dois meses, em um mundo pré – pandemia, quando Hayley Williams (31 anos, vocalista da banda Paramore) decidiu lançar “Simmer”, o vídeo / single inaugural de “Petals for Armor” (2020), o primeiro trabalho lançado sob o nome da (artista solo) Hayley Williams.

A provocação de Zane Lowe foi respondida com risadas, mas não totalmente desmentida pela entrevistada, que já confirmou em outra ocasião que, no acerto com a Atlantic Records, o único nome de “artista contratado” era o dela.

Aliado a diversos outros fatores (pressão da gravadora, desgaste entre os membros da banda pelo excesso de turnês e até mesmo a misoginia latente no ambiente “emo” em que o Paramore habitava) essa foi uma das razões que quase levaram ao fim da banda, gerando disputas por dinheiro e a saída dos irmãos Josh e Zac Farro – guitarrista e baterista em 2010 – e do baixista Jeremy Davis, em 2015, sendo que Zac acabou retornando à banda em 2017 (a banda segue em atividade).

Só que Hayley está longe de ser uma artista fabricada, tanto que tem o total controle conceitual, musical e visual sobre “Petals for Armor”, mas (espertamente) optou por sair da zona de conforto ao mesmo tempo em que se cercou de pessoas em quem confia e lhe ofereceram o background necessário para evoluir. Parece esquizofrênico sair em carreira solo com toda sua banda envolvida (o baterista Zac Farro dirigiu um dos clipes e o guitarrista Taylor York toca, cuida da produção do álbum e participa da composição de algumas faixas), mas é por isso que o disco soa como uma evolução natural do som mais “adulto” que o Paramore vinha fazendo desde o disco auto–intitulado, lançado em 2013.

A guinada começou com a escolha do produtor daquele álbum: Justin Meldal-Johnsen, que tocou no Nine Inch Nails, trabalhou com Beck e M83 e ainda chamou o colega de NIN, Ilan Rubin, pra gravar as baterias, já que, na época, Zac Farro tinha saído do Paramore. Apesar da sonoridade ligeiramente mais pesada (Hayley sempre diz que uma de suas bandas preferidas é o Deftones, com quem já dividiu o palco várias vezes), foi a funkeada “Ain’t it Fun”, que com seu coral gospel, ganhou o Grammy de Melhor Canção de Rock em 2015 e mostrou pra onde iria o som da banda a partir dali.

Já no lançamento seguinte, “After Laughter”, de 2017, o Paramore abandonou de vez a animação “pop punk” que o levou à fama em discos como “Riot”, de 2007, e apostou em uma sonoridade totalmente oitentista, mistura de synthpop e new wave, com pitadas de reggae, influências de Talking Heads e Blondie e letras depressivas. Dando o respaldo da comunidade indie, os dois últimos álbums foram inseridos pelo site Pitchfork na lista dos melhores discos da década de 2010.

Tudo isso leva a “Petals for Armor” (que inicialmente seria usado para titularizar o projeto, já que Hayley relutava em usar o próprio nome como artista), um álbum maduro, resultado de crises de depressão, pensamentos suicidas, um divórcio e estafa provocada pela vida na estrada. Porém, tempos difíceis deram origem a um disco de letras esperançosas e pessoais, composto de maneira despojada (entre taças de vinho e fatias de pizza na sala de sua própria casa), mas de produção cuidadosa.

Escrito quase todo em parceria com Joey Howard (baixista da mais recente turnê do Paramore) com ocasionais colaborações do guitarrista e produtor Taylor York, o álbum é uma colagem de estilos e influências, mas assim como “After Laughter”, soa homogêneo, pois os ritmos sincopados são uma constante, influenciados principalmente pela fase pós “Kid A” do Radiohead, o “Debut” de Bjork, o afrobeat de Fela Kuti e o neo soul de Solange (sim, a irmã de Beyoncé).

Entram ainda no caldeirão songwritters femininas recentes e admiradas por Hayley (como o indie pop de Soccer Mommy e as meninas do Boygenius) e nomes conhecidos do soul. “Eu estava ouvindo Sade e Erykah Badu”, disse em recente entrevista.

O nome “Petals for Armor”, além de ser um trecho da letra do single “Simmer”, vem da crença de que “a melhor maneira de se enfrentar a realidade e se proteger é se mostrando vulnerável”, como explicou à rádio BBC.

Apesar das inspirações distintas, um fator importante na coesão do álbum é a produção do coautor de vários hits do Paramore e amigo Taylor York. Os timbres de guitarra e bateria usados no álbum associam-se a “After Laughter”, último disco da banda. Além disso, as linhas de baixo de Joey Howard, que remetem ao estilo melódico de John Taylor (Duran Duran), permeiam todo o álbum.

Antes do lançamento oficial, em 8 de maio de 2020, os EPs I e II (colocados nas plataformas de streaming em fevereiro e abril, respectivamente) prepararam o terreno. Dois pacotes com 5 musicas cada foram gerando expectativa nos fãs e dando conforto aos ouvintes, nestes tempos de isolamento social. A versão em vinil é um mimo para os colecionadores que compraram o álbum na pré–venda: 3 discos de 10 polegadas, com rabiscos na parte interna feitos pela própria artista.

Agora completo, “Petals for Armor” é um álbum de 15 músicas, que pode ser considerado longo para os padrões atuais. Uma ousadia nesses tempos em que ninguém tem tempo (ou paciência) para ouvir um disco inteiro, de uma só vez. Mas a jornada vale a pena. Principalmente se acompanhada online com os vídeos sombrios e bjorkianos lançados pra acompanhar os singles, que colocados sequencialmente, parecem contar como a vocalista do Paramore literalmente desabrocha e se apresenta pela primeira vez (sozinha) ao mundo.

DESTAQUES

Entre os destaques do álbum estão “Simmer”, excelente escolha para primeiro single. Ritmo sincopado (ecos de ‘Human Behaviour” da Bjork e de discos solo do Thom Yorke), vocais sussurrados e refrão grudento, em que Hayley parece pedir perdão (mercy), mas na verdade está fervendo (simmer).

“Leave it Alone” é suave, climática e etérea. Escrita sobre o medo de perder a avó (que sofreu um acidente doméstico e ficou com problemas de memória devido ao trauma), Hayley canta: “Não me diga que Deus tem senso de humor. Agora que eu quero viver, todo mundo em volta de mim está morrendo”.

“Cinnamon” é uma das faixas mais “animadas” de “Petals for Armor” (cujo vídeo mostra Hayley sendo ameaçada por personagens bizarros dentro de casa e termina com uma dança coreografada envolvendo os mesmos perseguidores) e parece descrever o cotidiano da maioria de nós durante a pandemia: “Eat my breakfast. In the nude. Lemon water. Living room. Home is where I’m. Feminine. Smells like. Citrus and cinnamon”.

“Sudden Desire” é a faixa que encerra o primeiro EP lançado em fevereiro. Segundo a cantora, era uma tentativa de fazer um r&b que terminou numa espécie de “Army of Me”, da Bjork (faixa do disco “Post”, de 95). E é isso mesmo. Hayley começa uma melodia suave, acompanhada do baixo de Joey Howard, descrevendo o “desejo” do título da música (“Just wanna feel his hands go down”), e quando chega ao refrão, a tensão explode no vocal mais agressivo e agudo do álbum.

“Dead Horse” abre o segundo EP lançado em abril com um áudio enviado por Hayley (provavelmente a Taylor, produtor do disco) que fala: “Tudo bem, levei três dias pra te mandar isso, mas eu estava no meio de uma crise de depressão”. A canção é um pop perfeito e tem um dos refrãos mais fortes do disco. Não faria feio ao lado das faixas de “After Laughter”, disco do Paramore de 2017, com seu balanço inspirado no reggae, cheio de teclados e viradas oitentistas de bateria, mas com letra sobre problemas pessoais, no caso, a traição. Hayley canta sobre como seu casamento (com Chad Gilbert, da banda New Found Glory) começou com ela traindo e terminou com ela sendo traída. “I got what I deserved. I was the other woman first”, diz a letra.

“My Friend” é basicamente sobre o amigo Brian O’ Connor, com quem Hayley divide a administração de uma marca de produtos cosméticos (Good Dye Young). Interessantes linhas vocais reforçam a ideia de evolução e esperança impressas nas letras do disco novo. Se o último disco do Paramore tem uma música chamada “No Friend”, em “Petals for Armor” a artista canta: “My friend, when the blood has dried. My friend, instant alibi. You’ve seen me from every side.Still down for the ride”

Já “Over Yet”, mistura baixo distorcido e funkeado com punk eletrônico e um poderoso refrão a la Janet Jackson enquanto mais Bjork surge em “Roses/Lotus/Violet/Iris”, com baixo funkeado e backing das meninas do BoyGenius (grupo indie folk interessantíssimo que grava pelo selo Matador).

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