Soundtracks da Quarentena #07: “Don’t Delete The Kisses”, Wolf Alice

Soundtracks da Quarentena #07, por André Takeda
“Don’t Delete The Kisses”, Wolf Alice

Hoje recebi tua mensagem e pensei foda-se, fiquei esperando a noite inteira por um oi, um olá, esse momento é especial, então deixei a curiosidade de lado, caminhei devagar até a cozinha, preparei o meu café e decidi te ler aqui, na sacada do meu quarto, com a minha caneca favorita, aquela que ganhei no primeiro dia do antigo trabalho, com meu nome escrito em letras infantis e de mau gosto, eu já deveria saber que uma empresa capaz de criar uma caneca horrível assim só poderia demitir metade da equipe na primeira pandemia que aparecesse, enfim, de tão feia essa caneca acabou me conquistando, assim como as selfies que tu me manda, não que tu seja feio, longe disso, é só que tu não sabe nada de fotografia, enfim, estou fugindo do assunto como sempre, o que eu queria dizer é que tomei meu café e decidi acender um cigarro depois de meses e meses sem fumar só para acrescentar um pouco de drama e, finalmente, te li: um beijo. Um beijo, caralho, só um beijo, ontem à noite praticamente agi como uma adolescente correndo para o fim do mundo, mandando mensagens de voz como se eu fosse a única bêbada em uma festa organizada só para mim, com todos meus amigos rindo das minhas piadas por obrigação, e eu nem aí porque o cara que gosto está rindo comigo, veja bem, ele não está rindo de mim, está rindo comigo, e não sei se tu percebeu mas esse cara é tu, tu que está em todas as páginas do meu diário imaginário, querido diário, hoje ele me disse que gosta de arroz doce, querido diário, hoje ele me disse que está com dor nas costas porque limpou o banheiro, querido diário, hoje ele me mandou um beijo, apenas um beijo, um beijo e nada mais, um beijo aqui nessa tela sem graça do telefone, mesmo com toda a resolução de três mil reais em doze vezes sem juros, querido diário, um beijo aqui não vale nada, fico com vontade de terminar o meu último cigarro da vida, e dessa vezes estou falando a verdade, é o meu último cigarro e depois quero furar a quarentena para cobrar esse beijo na tua casa, mas sou responsável, decido ficar em casa e te pergunto: tá, um beijo, mas onde? Dois minutos e quarenta e seis segundos depois, sim, entre o final do meu café e o último suspiro do cigarro eu cronometrei o tempo e foram exatamente dois minutos e quarenta e seis segundos, tempo suficiente para eu pensar em todos os lugares que vou te levar quando tudo isso acabar, para sonhar com cardápios e paisagens e travesseiros e saídas à francesa de festas e jantares, dois minutos e quarenta e seis segundos de quase gritar para os vizinhos que conheci um cara como tu, de repente, o sofrimento acaba e vejo aquela mensagem ridícula que agora me faz sorrir: (inserir teu nome aqui) digitando.

E já não importa a tua resposta, eu vejo sinais de uma vida inteira, tu até eu morrer.

Você encontra “Don’t Delete The Kisses” no álbum “Visions of Lie” da banda Wolf Alice.

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André Takeda (siga @andretakeda) é autor dos livros “O Clube dos Corações Solitários” (2001), “Cassino Hotel” (2004) e “A Menina do Castelinho de Jóias” (2011). É colaborador de primeira hora do Scream & Yell (leia a série “Um Adolescente nos anos 80” na primeira versão do site) e já liberou para download no site a coletânea de textos “Ao Vivo” em PDF. Baixe aqui.

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