Memória: Novos Baianos ao vivo em Fortaleza

Texto por Daniel Tavares
Fotos por Rubens Rodrigues

O Brasil teve mais um motivo para se entristecer neste 2020 terrível. Não bastasse o fantasma da Covid-19 tomando conta do mundo inteiro, enquanto alguns líderes irresponsáveis e cegos põe populações sob um risco desnecessário, uma morte súbida também nos levou a arte de um dos maiores nomes da Música Popular Brasileira. Antônio Carlos Moreira Pires faleceu na segunda, 13 de abril, vítima de um infarto, em sua casa no Rio de Janeiro. Começou Chorare. Relembrando a sua arte, republicamos aqui a resenha do show dos Novos Baianos na Praça Verde do Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, em 21 de outubro de 2017.

O público de Fortaleza teve que esperar um pouco mais para ver o tão sonhado reencontro dos Novos Baianos. Devido a um problema de saúde de Moraes Moreira em agosto, o show protagonizado por ele mesmo e por Pepeu Gomes, Baby do Brasil, Paulinho Boca de Cantor e Luiz Galvão, inicialmente marcado para o dia 12 daquele mês, foi remarcado para o sábado, 21. A espera maior, no entanto, apenas se refletiu em uma maior ansiedade e entusiasmo do público, que, com uma troca de ingressos muito tranquila, lotou a Praça Verde do Dragão do Mar para, mais que presenciar, participar daquele encontro histórico.

“Acabou Chorare – Os Novos Baianos se Encontram” é o nome da turnê que trouxe os cinco ícones para Fortaleza. E esse encontro começou um pouco depois das 11 da noite, com imagens de arquivo mostrando no telão a cambada de bichos-grilo que revolucionou a música popular brasileira. Quando eles entram, alguns já senhores, outros ainda tentando manter o estilo de 40 anos atrás (destacando Pepeu no melhor estilo astro do hard-rock e Baby com cabelo da cor da roupa – ou roupa da cor do cabelo), a gritaria em meio ao público é imensa. Ali, entre as pessoas, estavam não só fãs da banda dos anos 70, mas também ilustres nomes da música, de estilos variados, gente que tem seus próprios fãs e que bebeu na fonte dos baianos, como o paulistano Arnaldo Antunes e os cearenses do Selvagens a Procura de Lei, gente que também poderia ser um novo baiano, caso tivesse nascido mais abaixo do Equador, como Fausto Nilo, e até músicos de bandas de rock mais pesado, como Facada e Obskure.

E por falar em anos 70, é a canção com este nome que dá início ao show. Luiz Galvão fica em uma mesinha no centro do palco, marcando presença, mas sem cantar ou tocar um instrumento. Ele se levanta e vem ao microfone dizer que a razão de estarem todos ali (e da vida) não é só amar, mas também a sua poesia. O momento é seguido de Baby, que era Consuelo, cantando “Infinito Circular”, e Paulinho Boca de Cantor cantando, acompanhado de todo o público, o rockão “Dê Um Rolê”.

Segue o show com os músicos se revezando em clássicos do “Acabou Chorare” (1972), muito bem merecidamente elencado pela Rolling Stone como o melhor disco já lançado em terras tupiniquins. “A Menina Dança” tem uma Baby ainda menina (mesmo aos seus 65 anos) e Pepeu Gomes fechando com um solo arrasador. Já “Preta Pretinha” tem Moraes Moreira homenageando Patativa [do Assaré], Raquel [de Queiroz] e João Cabral [de Melo Neto], entre outros, e botando todo mundo pra dançar ao som do mais famoso pot-pourri brasileiro de uma música só. Sua voz, ultimamente maltratada pelo tempo inclemente, não está tão ruim. Uma razão para isso pode ser o fato de que ele não tenha que cantar todo o show. Muitas canções bem conhecidas em sua voz são cantadas por Paulinho Boca de Cantor, tendo o colega gravado ou não a versão original. Na sequência, do “É Ferro na Boneca” (1970), disco de estreia da banda, vem “Colégio de Aplicação”, cantada por Pepeu, com Didi Gomes conduzindo seu baixo com seriedade e mão de ferro, o momento mais roqueiro e lisérgico do show. Os Gomes são, sem sombra de dúvida, feras do hard rock, um verdadeiro power trio, complementado por Jorginho, dentro de uma banda maior. Nem mesmo uma corda arrebentada na guitarra de Pepeu, em meio a uma canção, é capaz de parar a locomotiva dos Gomes.

Moraes Moreira volta ao microfone com “O Samba da Minha Terra”. Aqui, todo mundo que acaso estivesse ocioso vira percussionista, Baby, Paulinho e até Didi. Depois, o show volta a ser de Baby, com sua simpatia “tinindo” e voz perfeita em “Tinindo, Trincando”.

Mas não são só os cinco principais músicos que tem seus momentos de protagonismo. Chamada de “A banda dos Novos Baianos”, Gil Oliveira, o Giló (filho de Paulinho), na percussão, o já citado Didi Gomes (irmão de Pepeu) no baixo, Dadi Carvalho (d’A Cor do Som), revezando-se entre baixo e guitarra, e Jorginho Gomes (também irmão de Pepeu), na bateria, também tem os seus momentos. Especialmente em “Um Bilhete Pra Didi”, canção em que este último assume o cavaquinho para a canção que ele próprio compôs. Alguns outros ritmos aparecem, sertanejo, baião… E quando Jorginho volta pra bateria, Pepeu transforma tudo em rock, com direito a solo de Didi no baixo. E o mais excepcional é que, nesta hora, Dadi também estava lá pra rivalizar com Didi numa impressionante jam. Não resta a Pepeu alternativa a não ser tocar ainda mais rápido. E é isso que ele faz num momento absolutamente memorável.

Mas não era ainda o bastante. O público ainda cantou junto com Paulinho Boca de Cantor o “Swing de Campo Grande”, canção que fala como fugiam das blitz na época da ditadura (um olhava pra cara do outro e entravam num universo particular, despistando os guardas), seguida do sambão, “Batucada de Bamba (Na Cadência do Samba)”.

A parte lírica dos Novos Baianos teve sempre Luiz Galvão como principal mentor. Tanto que a instrumental “Um Bilhete Pra Didi” é a única de “Acabou Chorare” que não o tem nos créditos. E o senhorzinho, com seus oitenta anos, Galvão volta ao palco para declamar sua poesia “CPI das Espingardas e Badogues” (texto abaixo), a qual o público respondeu com insistentes gritos de “Fora, Temer”.

Mesmo que reúnas
Todas as árvores e pássaros em revoada
Para a matutina alvorada
E exija-lhes silêncio
Falando alto acima dos decibéis
Ou suave pluma
Como um beija-flor Parado no ar
Não conseguiras calar
Tão afinados bicos
Porque árvores e pássaros
Não cantam por vaidade, profissão
Nem para males espantar
O fazem apenas pelo prazer
De estar em sintonia
Com a alegria
Do dia ao alvorecer
Ainda que tivessem
A fala, a flor da língua
Aves e pássaros não contariam
O que queres tu saber
E até se acuados por cães ferozes
rowtivailers , Pitibus e Buldogues
“Au-au-au”
e submetidos a CPI
Das espingardas e badogues
Não soltariam uma só palavra
Por suas cabeças
Não passam pensamentos
E não têm nada a ver
Com julgamentos
Nem com os badalados
Pingos nos is
Não sabem quantas penas têm no corpo
Nem quantas unhas no pé
Por isso suas penas lhes aquecem ao frio
Bem diferentes das tuas
Que ardem, queimam e te consomem
Essas tuas penas também são minhas
Pois as conheço “ipse lítere”
E além pele-pele-pele Pelé
Mas mesmo assim
Saúdo-as e saldo-as
Uma a uma
Na boca do caixa
Trocado em miúdos
No guichê do banco
E como um abnegado jumento
As carrego ao destino e a dor
Levando a carga e o montador
“Ran-ran-ran!“
Mas o providencial canto em dueto
De Asa Branca e Pássaro Preto
Percorre a mesma rota das canções
E chega via ouvidos
sãos nossos corações
E nós se andássemos não sobre
Mas nos trilhos
Poderíamos ser melhores pais e filhos
E saberíamos acima de tudo
Amar

A poesia continua com “Amar-te”, primeiro declamada, depois cantada por “Moraes Moreira. Ele continua dono do palco para cantar o sucesso de João Gilberto, “Chega de Saudade”. “Esse é o momento em que homenageamos os dois pilares da nossa música. Primeiro Tom Zé, depois João Gilberto”, disse o também pilar. E não foi o público que cantou junto com Moraes Moreira, foi Moraes Moreira que cantou junto com o público. Um belo momento de se ouvir, mas, principalmente, de se ver.

Subvertendo um tanto o set programado, Moraes Moreira já começa “Acabou Chorare”, canção que dá nome ao disco mais famoso dos baianos, dá mote à turnê e dava alegria à combalida música popular brasileira da época em que foi lançada. Ei, estamos, de novo, precisando urgentemente de uma dessas. Ao fim da canção, chega Pepeu, discretamente, para encerrar com acordes que fazem chorar. Agora é a vez dele, junto de apenas Didi, Giló e Jorginho, tocar, de Ari Barroso, o lamento do amor não correspondido pela baiana, “Na Baixa do Sapateiro”.

Posições ainda se invertem com Jorginho assumindo novamente o cavaquinho em “Farol da Barra” e a volta de Paulinho Boca de Cantor para “Isto Aqui O Que É?”. Há, claro, um tanto de tensão entre os cinco. Não houvesse, estariam juntos até hoje. A Moraes às vezes falta paciência para o entusiasmo exacerbado de Baby. E Pepeu nem sempre se mostra à vontade com a proximidade da ex-esposa. Mas nada que seja tão perceptível sem olho clínico, muito experiente. Muitas vezes, o que fica para o público são as brincadeiras entre eles, a reverência a Luiz Galvão, a irreverência de Baby com todos os outros, o “quer apanhar hoje?” dela para Paulinho Boca de Cantor quando este se derrete em elogios às moças da plateia falando “quanta mulher bonita”. Se é dela o “troféu simpatia” feminino, é dele o masculino. Estão, como grupo, mais coesos no palco do Dragão do Mar que na Concha em Salvador, o primeiro show desde o reagrupamento, ano passado, mas se são de novo os Novos Baianos não são mais baianos novos. “Sugestão Geral”, mais oculta na discografia, até baixa a bola do público, mas “Mistério do Planeta” incendeia tudo novamente na voz de Paulinho, com Pepeu mandando ver em outro solo.

Um dos maiores guitarristas do Brasil jamais poderia ser eclipsado, a não ser que tenha do lado justamente aquela que nos acostumamos a chamar de Baby Consuelo e, sem conseguirmos chamar de Baby do Brasil, chamamos apenas de Baby. No clássico do cancioneiro nacional, “Brasileirinho”, ela abusa dos graves, puxa o tímido Didi pro centro do palco, se livra do pedestal jogando-o para o roadie, é a dona da festa, arruma um jeito de fechar a canção com um “Glória a Deus, aleluia”, deixa o público em êxtase, cantando rouco “Baby, eu te amo”. Paulinho completa: “e nós também”. Se a boca do cantor, uma das bocas dos Novos Baianos diz isso, então, dito está.

O show se aproxima do final, mas a lição já foi dada. Acabou o choro. Nós queremos sambar. “Brasil Pandeiro” e “Besta É Tu” são o ponto e vírgula que apontam para um possível bis. Acabou. Chorare. Choremos. Se a gente chorar eles voltam? Não precisou. Bastou gritar. Assoviar. Pedir mais um. O bis vem com a reprise de “Anos 70”. E tudo acaba como começou. Poderia ser outra, mas aqui a ideia é a continuidade, a promessa de continuidade. Com tanta coisa de gosto duvidoso que se vê por aí, que continuem mesmo. O abraço final é a imagem de uma banda feliz de estar junta novamente. João [Gilberto, provavelmente], John [Lennon, é quase certo] e os Novos Baianos influenciaram a música. É por isso que estavam ali, no meio do público, o nem tão velho e o nem tão novo, o que foi titã e o que é selvagem procurando a lei.

Mas parar não está nos planos de Baby. “Pepeu, posso pedir uma música?” Como assim? Quem é a artista, quem é a fã aqui? Ela está sorridente. É uma fã no dia que ganhou um meet and greet com os artistas que estampam posters em seu quarto de adolescente. Moraes Moreira até já tinha saído, mas ela pede “Brasil Pandeiro”. Ela não quer sair do palco. Aquilo de terminar como tinham começado já não vai funcionar mais. Não haverá ragnarock na música brasileira, mas uma continuidade sem fim. O choro não acabou. Ele e a alegria dos Novos Baianos, seu nêmesis maior, continuam. E estão ali aqueles cinco (e também os outros quatro) pra provar isso.

– Daniel Tavares (Facebook) é jornalista e mora em Fortaleza. Colabora com o Scream & Yell desde 2014.

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