Selo Scream & Yell: Baixe “¡Estamos! – Canções da Quarentena”

por Leonardo Vinhas 

Estamos em um momento que nunca vivemos antes. É desnecessário dar qualquer contexto. Todos estamos vivendo isso, só que cada um a seu modo. O que é comum a todos nós é que nossos “mundos presumidos” – nossas perspectivas de vida a médio prazo – faliram. As ações para conter pandemia mudaram tudo o que nós sabíamos sobre nossa rotina, nosso sistema econômico e até nossa organização social e política. Tudo está sendo questionado, revisto e muita coisa está deixando de ser para nunca mais voltar ao que era.

E onde entra a música nessa história? Em tudo, como sempre entrou. A música é anterior à fala – os pássaros já cantavam antes de o primeiro idioma ser inventado, já havia ritmo nos ruídos da natureza, muitos aprendem a assobiar ou balbuciar melodias antes de falar. Se existe uma forma de comunicação que pode ser universal, essa é a música.

Por isso, pedi a 25 artistas de diversos países que traduzissem esse momento em canções. Podiam ser próprias ou alheias, o importante é que fossem registradas em casa, com os recursos que tivessem à mão, e que as letras trouxessem seus sentimentos sobre o momento. A ideia inicial era mostrar que “estamos” juntos, unidos pela música, nesse momento. Porém, isso se transformou de uma forma inesperada.

Propositalmente, dei pouco tempo para gravarem as faixas. Era essencial captar o momento, sem dar espaço para maiores polimentos no registro. Mas mesmo nesse curto intervalo, muita coisa aconteceu. Três dos convidados não conseguiram participar, por questões de saúde que acometiam a eles ou seus familiares. Um quarto se viu impossibilitado por estar completamente assoberbado com demandas que o confinamento lhe trouxe.

Nesse meio tempo, eu mesmo me vi, por força do trabalho como jornalista, investigando os mecanismos do luto que todos estamos vivendo. Sim, porque o fim dos “mundos presumidos” leva ao luto. Ele não se manifesta apenas no falecimento, mas sempre que perdemos algo.

E todos perdemos muito. E, enquanto eu me dava conta disso, dois amigos perdiam as mães para o Covid-19, e minha companheira atravessava um problema de saúde que também quase lhe custou a vida. Escrevo essas linhas com a tranquilidade de saber que ela está fora de perigo e não tem sequelas, mas ainda sob o impacto de ter presenciado algo quase fatal e que me privou de qualquer certeza sobre “garantias” que me restassem.

Em paralelo a isso, alguns funcionários do entretenimento brasileiro (me recuso a chamá-los de “artistas”) começaram a fazer transmissões ao vivo de seus shows. Não só eles, mas também companhias e empresas que querem lucrar com a pandemia, começaram a usar a primeira pessoa do plural em suas comunicações. Sempre dizendo que “somos”.

Tudo isso me fez repensar o conceito e o propósito desse álbum. Ser é muito definitivo. Na primeira pessoa do plural, torna-se também ufanista e adesista. Por isso, o único “somos” que me soa bem é “somos humanos”. De resto, união é necessária, uniformidade é violência. E neste momento, não “somos”. Estamos.

Estamos guardados. Estamos confinados. Estamos em nossas casas, convivendo com nossas escolhas, as sensatas e as estúpidas. Mas estamos vivos, estamos criando, e decididamente estamos levando isso para fora das jaulas, gaiolas e celas. Cada qual no lugar onde escolheu viver, usando os recursos que têm.

Por isso um disco. Irregular na qualidade técnica dos registros, excessivo no número de faixas para esses tempos de pouca paciência com coisas longas. Mas um disco pensado pelo e para o momento. Que não vai ganhar versão em plataforma de streaming, porque cada músico, ilustrador, engenheiro e produtor que fez esse álbum parou tudo que estava fazendo para transformar o que estava sentindo em algo que você pode ouvir e talvez sentir junto, sem ficar usando a função “skip” a toda hora.

Então baixe esse álbum. Pare um pouco. Nesses dias, já pudemos nos recordar que música não é mero acessório. Faça um CD-R até, se quiser. Mas ouça com atenção. Porque estamos aqui, e estamos vivos.

BAIXE “¡ESTAMOS!” GRATUITAMENTE CLICANDO AQUI (MEDIAFIRE)

Ficha técnica:
Coordenação e curadoria: Leonardo Vinhas
Masterização: Rodrigo Stradiottto
Capa: Bruno Honda Leite
Agradecimentos: Rodrigo, Bruno, Pablo Hierro, Cesar Sanguinetti, Bruno Capelas, Andrés Correa, Jota Wagner, Duda Victor, Caio Cruz, Veridiana Mercatelli, Nelson Barceló, Pedro Dalton, Edu Schmidt, Juan Olmedillo, Ana Elisa Soares, Juliana Trindade, Marcelo Costa e Helena Brigido.

Faixa a faixa – ¡Estamos! – Canções Inspiradas pela Quarentena
por Leonardo Vinhas

01) “Realidad”, Andrés Correa.
“Realidad” foi originalmente gravada como um jazz de tons pop no álbum “Aurora”, de 2014. Fernando Rosa, do Senhor F, diz que é uma das melhores canções da década, e eu concordo. Por isso sugeri a Andrés que a regravasse para esse projeto, o que ele fez em uma versão totalmente despojada. Quando me enviou a gravação, só disse: “quedó com mucho sentimiento esa versión”. E nada mais precisa ser dito.

02) “El Magnetismo”, Lucia Tacchetti.
“Foi a canção com a qual descobri o El Mató a Un Policia Motorizado e foi amor à primeira audição. Desde esse momento se transformou em uma espécie de hino para mim”. Assim a argentina Lucia Tacchetti apresentou o embrião dessa versão em sua página do Instagram. O registro final foi feito para a coletânea e é uma surpreende recriação synth pop de uma canção que nasceu cheia de ruídos e guitarras. O verso que faz às vezes de refrão é a pergunta que muitos se fazem nesses dias: “ei, quem vai cuidar de você?”. O arremate – “nesse mundo perigoso, temos que estar juntos” – vem pra encantar. Ou derrubar.

03) “Todo por Decir”, Catalina Ávila
Catalina Ávila é uma das joias mais injustamente ocultas do tesouro que é a música colombiana contemporânea. Sua música, ainda que inspirada pelo cancioneiro local, não encontra definição fácil. “Todo por Decir” foi escrita, arranjada e gravada para integrar esse projeto. A faixa em breve ganhará nova versão, a qual contará com participação de Fernanda Takai.

04) “Juro que Não Morro”, Tiago Cavaco
Inspirado diretamente por Belchior, o português Tiago Cavaco compôs esse tema há mais de um ano, mas abandonou os arranjos roqueiros que vinha tentando para fazer um registro “o mais seco, directo e limpo possível”, conforme ele mesmo definiu. Com essa intenção e a soma do piano de Nando Frias, alcançou um resultado final delicado e sentido, que, mesmo econômico nos versos, honra seu muso inspirador.

05) “Ese Rayo”, Nicolás Molina
Seguindo em sua carreira solo, o músico uruguaio continua a expandir seus horizontes. “Ese Rayo” fará parte de um vindouro EP, mas foi antecipada para esse disco. “Tirei meu Nick Cave de dentro – sem ofender ao mestre”, confidenciou Molina. Gravando todos os instrumentos, a canção revela-se um passo adiante no caminho aberto por “Querencia”, sua estreia solo.

06) “Covid-19 Quarantine”, The Blank Tapes
“Olha só, eu estava trabalhando exatamente nisso”, me disse o californiano Matt Adams, que já gravou mais de 10 álbuns sob o nome The Blank Tapes. Com um vasto equipamento em casa, Adams fez o registro mais “profissional” – no sentido de acabamento de estúdio – deste álbum, trazendo a quarentena para seu universo pop de inspiração sessentista e psicodélica.

07) “Moro no Interior do Mundo”, André Prando
O músico capixaba entregou uma nova canção, “Dharma”, uma preciosidade composta em parceria com Luiz Gabriel Lopes. Mas vários motivos fizeram com que eu e ele concordássemos em deixar a faixa inédita para uma outra ocasião, e acabamos resgatando a demo desta canção, que ganhou uma versão bastante modificada no álbum “Voador” (2018). Em tempos de elite truculenta e governo indigente e autoritário, ela se torna ainda mais atual e triste…

08) “A Palavra Certa”, Meio Amargo
Meio Amargo é a alcunha escolhida para as gravações do paraense Lucas Padilha. Decidido a gravar uma versão no projeto, o músico me pediu sugestões, e não demorou muito para chegarmos até “A Palavra Certa”, uma belíssima composição de Herbert Vianna presente no álbum “Santorini Blues” (1997). A versão mantém muito da melodia original, mas traz outros efeitos e detalhes que, somados à voz de Lucas, honram o original e ressignificam a canção para o momento.

09) “O Tempo Está Bom”, O Martim
Martim Torres, “O Martim”, estava “a fazer os possíveis e impossíveis para gravar a canção sozinho com a minha filha de 3 anos em casa”. Conseguiu, e trouxe um tema especialmente alegre, porque “achei que seria bom lembrar que nem tudo é mau”. À exceção do baixo, todos os demais instrumentos são gravações MIDI.

10) “Tiempo de Reflexionar”, Liricistas
O primeiro registro desse trio de Maipú (Chile) foi em 2007. Há muito já não são moleques, mas decididamente não perderam o frescor. “Tiempo de Reflexionar” nasceu muito rapidamente após o convite, quase um recorde, e trouxe um flow lento e intimista, adequado a esses tempos em que nem tudo é sombrio mas nem sempre se vê a luz.

11) “Autosuficiente”, Manza (a.k.a. Mariano Esain)
“Autosuficiente” apareceu pela primeira vez em arranjo denso e guitarreiro no álbum de estreia do Valle de Muñecas, “Días de Suerte” (2006). No ano seguinte, apareceu no despojado álbum “Folk” e em 2020 aparece em uma interpretação solo do frontman da banda, o veterano do indie argentino Mariano Esain. Gravando em casa, em um domingo, Manza trouxe uma ambiência mais melancólica para essa composição que traz a relação entre solidão e etilismo que muitos de nós estão experimentando nesse momento de confinamento.

12) “La Caja de Zapatos”, Romina Peluffo
“Obsesa”, de 2018, é a estreia de Romina Peluffo e um dos melhores álbuns entre os ótimos lançamentos da safra mais recente de cantautores uruguaios. “La Caja de Zapatos” é a faixa de abertura e foi a primeira canção composta por ela, quando ainda não sabia sequer tocar um instrumento. Para esse álbum ela enviou primeiro uma linda versão voz e violão, mas poucos dias depois de entregar, ela avisou que o guitarrista Santiago Peralta se ofereceu para agregar uma guitarra. Não se despreza uma oportuniade dessas, e o resultado é essa faixa, a primeira que mixei “profissionalmente” em minha vida.

13) “Vou Te Esperar”, Érika Martins
Presente no álbum de estreia que leva seu nome, essa canção de Érika Martins ganha outro sentido em tempos de isolamento. É uma das canções que reúne o melhor de dois dos mundos que mais influenciaram a artista: a Jovem Guarda e o pop das girl groups. A regravação, que contou com a participação especial do companheiro de banda e de vida Gabriel Thomaz, chegou poucos dias de minha companheira ter sido hospitalizada, o que potencializou seu novo significado no meu universo pessoal.

14) “Más Pronto que Tarde”, Paul Higgs
Apesar do nome de batismo, Paul Higgs é uruguaio e passou uma breve temporada no Brasil no fim de 2019. “Más Pronto que Tarde” é herdeira dessa viagem, tratando da saudade que sente da amiga brasileira Jazzie e do namorado dela – ninguém menos que Tim Bernardes, que também é citado na canção. “Foi por causa deles que visitei o Brasil pela primeira vez, e a primeira coisa que vou fazer logo que isto termine é voltar pra aí”, contou o músico, que prepara um álbum solo ao mesmo tempo em que lança novos singles com sua banda Algodón.

15) “Defamed”, John Drake.
“Vocês têm um problemão com esse porco racista pairando sobre suas cabeças… Toda minha solidariedade à causa. Bolsonazi no pasarán”. Palavras de John Drake, baixista da banda grega The Dirty Fuse, agremiação que passou pelo Brasil em 2017 e que conta com um brasileiro entre seus fundadores (o guitarrista Duda Victor, do Terremotor). “Defamed” é um punk folk cheio de raiva e que se recusa à resignação, uma pequena pérola de resistência à uniformidade de pensamento.

16) “La Memoria”, Camila Vaccaro
A fúria continua, agora em uma história direta sobre solidão e opressão. A cantautora chilena entregou uma jarana mexicana em uma das interpretações mais cruas e viscerais desse álbum. Como seus conterrâneos Liricistas, também compôs e gravou em pouquíssimo tempo, o que ajudou a garantir a força notável que se escuta.

17) “El Dinosaurio Anacleto”, Moral Distraida
A canção apareceu pela primeira vez cantada pelo “Dinosaurio Roberto”, um personagem da série “31 Minutos”, exibida pela TVN, do Chile. Nasceu com um riff inspirado por Tom Petty (!) e foi regravada em uma versão “infantil-psicodélica” de Ximena Sariñana (!). Aqui, reaparece em uma versão acústica e delicada da crew Moral Distraída, que já colaborou com Emicida, Sem poder juntar toda a banda por motivos óbvios, os irmãos Camilo e Abel Zicavo se desdobraram e fizeram uma releitura singela, ligando os temas da canção (extinção, solidão, sanha consumista, ilusões da fama) ao momento atual.

18) “Uma Canção Desesperada”, Guilherme Cobelo
Homem de frente da banda Joe Silhueta, o brasiliense Guilherme Cobelo lança aqui seu primeiro registro solo. “Uma Canção Desesperada” é uma canção concebida sob a luz de Sérgio Sampaio e pede o serenamento dos ânimos dos amantes que vêem “o mundo ruindo lá fora”.

19) “Sétimo Continente”, Lila May
Em paralelo à sua atuação como cantora e compositora, essa artista paulistana também tem um trabalho que combina investigação espiritual, musicoterapia e cura. De uma maneira sutil, esses universos se cruzam nessa canção inédita, registrada em voz e violão na Casa Japuanga, um espaço de coabitação e criação coletiva em São Paulo.

20) “Suerte y Amor”, Melanie Williams
O uruguaio Gustavo Pena, “El Príncipe”, lançou apenas dois discos em vida, mas alcançou fama e reconhecimento após sua morte, em 2004. “Suerte y Amor” é uma de suas composições mais queridas, e trata de reencontrar uma pessoa querida após um largo período sem vê-la. Essa foi uma das razões pela qual a argentina Melanie Williams optou por gravá-la, em um registro mais lento e lo-fi, adequado às suas influências indie.

21) “Un Día a la Vez”, Películas Geniales
Películas Geniales é uma one man band mexicana, feito pelo músico e criador de cachorros (!) “Rufis”. Ok, talvez ele tenha uma outra identidade… Seja como for, o homem gosta de alternar barulho e beleza, e é nessa toada que vem “Un Día a la Vez”, que, em letra e arranjo, encaixa perfeitamente como o encerramento deste álbum.

CATÁLOGO COMPLETO DO SELO SCREAM & YELL

SY01 – “AoVivo@Asteroid”, Walverdes (2011)
SY02 – “Ao vivo”, André Takeda (2011)
SY03 – “Projeto Visto: Brasil + Portugal” (2013)
SY04 – “EP Record Store Day”, Giancarlo Rufatto (2013)
SY05 – “Ainda Somos os Mesmos”, um tributo à Belchior (2014)
SY06 – “De Lá Não Ando Só”, Transmissor (2014)
SY07 – “Espelho Retrovisor”, um tributo aos Engenheiros do Hawaii (2014)
SY08 – “Projeto Visto 2: Brasil + Portugal” (2014)
SY09 – “Somos Todos Latinos” (2015)
SY10 – “Mil Tom”, um tributo a Milton Nascimento (2015)
SY11 – “Inverno”, Marcelo Perdido (2015)
SY12 – “Caleidoscópio”, um tributo aos Paralamas do Sucesso (2015)
SY13 – “Temperança” (2016)
SY14 – “Primavera Punk”, Gustavo Kaly e os Hóspedes do Chelsea feat. Frank Jorge (2016)
SY15 – “Ainda Há Coração”, um tributo à Alceu Valença
SY16 – “Brasil También Es Latino” (2016)
SY17 – “Faixa Seis” (2017)
SY18 – “Sem Palavras I” (2017)
SY19 – “Dois Lados”, um tributo ao Skank (2017)
SY20 – “As Lembranças São Escolhas”, canções de Dary Jr. (2017)
SY21 – “O Velho Arsenal dos Lacraus”, Os Lacraus (2018)
SY22 – “Um Grito que se Espalha”, um tributo à Walter Franco (2018)
SY23 – “A Comida”, Os Cleggs (2018)
SY24 – “Conexão Latina” (2018)
SY25 – “Omnia”, Borealis (2019)
SY26 – “Sem Palavras II” (2019)
SY27 – “¡Estamos! – Canções da Quarentena” (2020)

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