Entrevista: Mike Watt fala dos 25 anos de “Ball-Hog or Tugboat?”

entrevista por Leonardo Tissot

Em 1995, Mike Watt lançou seu primeiro álbum “solo”, após anos de batalha como baixista dos Minutemen e do fIREHOSE. As aspas se fazem necessárias porque, apesar do artista radicado na Califórnia assinar “Ball-Hog or Tugboat?”, o disco contou com a participação de nada menos que 48 músicos, muitos deles no auge de suas carreiras.

Dave Grohl, Krist Novoselic, Eddie Vedder, Evan Dando, Flea, Frank Black, Mark Lanegan, Gary Lee Conner, Kathleen Hannah, Thurston Moore, Lee Ranaldo, Nels Cline, J. Mascis, Dave Pirner, Henry Rollins, os Meat Puppets e os Beastie Boys são apenas parte do dream team formado por Watt para colaborar no que chamou de “disco da luta livre”.

Nesta conversa com o Scream & Yell, o músico — eleito um dos 40 maiores baixistas de todos os tempos pela NME — relembra as gravações do disco clássico 25 anos depois de seu lançamento, assim como a turnê realizada pelos Estados Unidos e suas passagens pelo Brasil. E avisa: “Estive em São Paulo e no Rio e gostei muito. Mas ainda preciso conhecer o resto do país. Adoraria voltar para conhecer mais”.

Em 2020, comemoramos o 25º aniversário do seu primeiro álbum solo “Ball-Hog or Tugboat?”, lançado em fevereiro de 1995. Não parece que faz tanto tempo, parece?
Bem, eu estou com 62 anos. Então, na época eu ainda estava nos meus 30 e poucos… Mas lembro bastante dessa época. Quando eu penso nesse disco, realmente foi como uma mudança de ares na minha vida. Antes desse álbum, basicamente eu fui membro dos Minutemen e do fIREHOSE. Então, fui fazer esse disco — que é bem curioso que seja chamado de “disco solo”, já que tem 48 pessoas tocando nele… Tem 17 músicas e 17 bandas diferentes ali. Com o D. Boon [guitarrista e vocalista dos Minutemen, falecido em 1985 em um acidente automobilístico], eu levava todas as minhas músicas pra ele. E com o Edward [Crawford, guitarrista e vocalista do fIREHOSE] eu fazia a mesma coisa. Eu me lembro de mostrar “Piss-Bottle Man” para o Edward e ele disse: “Acho que essa música não é para a nossa banda”. Foi aí que eu comecei a pensar no “Ball-Hog or Tugboat?” e na ideia de um baixista ser o cara que conhece todas as músicas e aí ter outras pessoas participando. Em geral, o baixista é o último elemento a entrar na jogada, a não ser em estilos como R&B e funk. Então, é daí que o título do álbum vem: eu seria o cara que une todos os elementos, ou seria tipo um guitarrista solo fake, mas tocando baixo? Não queria seguir esse caminho, porque penso que o baixo não é isso. O baixo tem cordas como uma guitarra, mas está muito mais próximo da bateria, na minha opinião. Especialmente as notas, que ficam lá embaixo, como os tom-tons e o bumbo.

[Nota: “ball-hog” é uma gíria similar a “fominha”, alguém que não passa a bola para ninguém no basquete e resolve as jogadas sozinho, enquanto que “tugboat” é uma espécie de embarcação rebocadora que ajuda barcos maiores a ancorar]

Você também usou uma ideia de “luta livre” durante o processo de gravação do disco. Como foi isso?
Eu usei a metáfora da luta livre, como se o estúdio fosse um ringue e eu pudesse chamar meus amigos pra luta. Foi algo que fizemos em três cidades diferentes, de forma bastante espontânea e rápida. Queria que o disco parasse de pé sozinho, sem criar um hype a respeito dos nomes que participariam do álbum. Nem falei com o empresário de ninguém, simplesmente liguei pra cada um deles e os convidei. Olhando para trás, foi um disco bem importante para mim, um trabalho que me trouxe para o que faço até os dias de hoje.

Quando você escreveu músicas como “Against the 70’s” por exemplo, fez isso pensando em colocar o Eddie Vedder cantando? Ou “Chinese Firedrill”, foi feita para o Frank Black cantar, só para citar dois exemplos?
Não, claro que não. Eu não sabia quem estaria disponível. Praticamente não ensaiamos, foi tudo feito muito espontaneamente no estúdio. Eu tinha algumas músicas e pensei: se o baixista sabe tocá-las, qualquer um pode vir e tocar guitarra, bateria ou cantar. Então eu mostrei as músicas para cada um deles na hora, já no estúdio.

Você convidou todos os músicos que participaram do disco ou algum deles te procurou pra fazer parte do projeto? Imagino que muitos já eram seus fãs.
Não, foi tudo ideia minha. Era meu disco e eu os convidei. A única que me procurou foi a Kathleen Hannah [vocalista do Bikini Kill], quando o disco já estava quase pronto. Ela ouviu a respeito do projeto e perguntou se poderia entrar. Foi um ano estranho, 1994. O fIREHOSE acabou nas primeiras semanas do ano, e foi o primeiro ano em que eu não tinha uma turnê para fazer desde a época dos Minutemen. Então, foi meio inusitado. Daí surgiu a ideia do disco, mas não planejava sair em turnê para divulgá-lo, porque tinha muita gente tocando junto. De qualquer forma, acabamos saindo em turnê. Foi ideia do David [Grohl, ex-baterista do Nirvana, então começando a tocar com os Foo Fighters], ele me ligou e disse que ele e Ed [Vedder, vocalista do Pearl Jam] seriam a minha banda. Eles tinham bandas próprias que poderiam abrir os shows [além do Foo Fighters, o projeto paralelo Hovercraft, de Vedder, foi uma das bandas de abertura da turnê]. Mais uma vez, tudo muito espontâneo, não tinha estratégia ou plano algum por trás daquilo. Pensamos que seria algo como os velhos tempos do bebop — as pessoas simplesmente faziam jams juntas, sem grandes expectativas e concepções do que aquilo deveria ser.

Vocês tiveram alguns problemas na turnê, com parte do público jogando moedas, principalmente no Eddie Vedder. Como vocês lidaram com isso na época?
Isso já tinha acontecido comigo antes, quando os Minutemen abriram pro Black Flag e, mais adiante, quando toquei abrindo pro Primus. Mas acho que você se refere ao pessoal jogando dinheiro no Ed e tal. Não eram meus fãs, eram fãs do Pearl Jam! Você sabe como essas merdas são. Como é o nome do cara que atirou no John Lennon?

Mark David Chapman.
Isso, Mark David Chapman. Esses caras são assim. É uma coisa de amor e ódio, é tão esquisito… Quando eu vi esse garoto jogando dinheiro no Ed, e a camiseta dele dizia “Foda-se, Eddie”, eu só ficava pensando: “qual é o seu problema?” Você nunca veio num show meu antes, não é meu fã. Você só quer contar pros amiguinhos da escola a besteira que fez na noite anterior. Esse é o tipo de coisa com a qual eu nunca tive que lidar antes, porque venho de uma cena menor, mais underground. Mas fazer o quê? Eles simplesmente vêm aos shows. São uns cuzões.

É interessante ouvir isso, porque pela forma como essa história era contada, parecia que eram fãs seus reagindo ao fato de você estar tocando com rockstars, caras de bandas populares.
Nada disso. OK, eles eram mais famosos que eu na época, mas não é como se eles fossem o New Kids on the Block. O Dave estava começando com a banda dele na época, e o Eddie estava tocando com essa banda esquisita e experimental que ele tinha, na qual ele era o baterista. Ele não estava fazendo aquilo pelo qual ele era famoso. E mesmo quando tocava comigo, ele praticamente só tocava guitarra. Então, esses caras não estavam fazendo o que geralmente fazem. Quando entra esse papo de hype e falsidade, realmente, isso é terrível. Mas quer saber? O Dave já tinha tocado numa banda chamada Scream e o Eddie em uma banda chamada Bad Radio. Então eles sabiam que essas coisas rolavam nos shows. Mas você está certo, tinha esse lance de eles estarem em bandas populares. Eu acho isso uma merda, parece papo do Hitler. Foi algo que eu não pude prever, porque nunca tinha lidado com esse nível de fama antes. Mas te garanto, aquele não era nenhum fã de Mike Watt! Espero que nenhum fã meu faça coisas idiotas como aquela.

Voltando ao disco, um dos músicos que se faz presente em mais faixas é o guitarrista Nels Cline. Ele provavelmente não era tão conhecido na época, mas depois de entrar pro Wilco, mais gente pôde se familiarizar com seu trabalho. Ele também tocou com você na segunda parte daquela turnê. Vocês ainda tocam juntos de vez em quando?
Vou te contar uma coisa… Jeff Tweedy é o chefe do Wilco. Ele era baixista de uma banda de St. Louis, que se chamava…

Uncle Tupelo.
Isso, Uncle Tupelo. Eles até tinham uma música chamada “D. Boon”.

Ele é um grande fã seu.
Depois da morte do D. Boon, eles escreveram uma música em homenagem a ele, e foi aí que os conheci. Mas sou extremamente agradecido a Tweedy por ter contratado o Nels Cline para sua banda, porque o Nels sempre fez música experimental e louca, e dessa forma ele pode continuar fazendo isso, enquanto paga as contas trabalhando para o Sr. Tweedy. Isso patrocina o lado experimental dele, saca? Especialmente desde que o Nels se mudou pra Nova Iorque e se casou com a Yuka Honda [multi-instrumentista mais conhecida pela banda Cibo Matto]. Tem uma cena de free jazz experimental muito mais aberta por lá. Ele e o seu irmão Alex tentaram fazer essa cena rolar aqui no sul da Califórnia por muito tempo, mas as pessoas não curtiam. Lá, a cena é realmente grande. Você tem razão, ele passou a receber mais atenção depois do Wilco, mas a primeira vez que ele foi notado foi ao tocar na minha primeira ópera, “Contemplating the Engine Room” (1997). Talvez não tanto pela imprensa, mas por outros músicos. Muita gente me perguntava quem era esse guitarrista. E eu continuo tocando com ele, sim. Agora, com a internet, a gente consegue colaborar mesmo a distância. Nels sempre demonstrou estar muito disponível, ele é um ótimo ouvinte. Um cara muito generoso. Ele é uma das coisas positivas sobre o mundo da música. Tem tanta falsidade rolando, mas aí você conhece alguém como Nels Cline, que é o exato oposto disso.

O disco também tem alguns covers, como “Tuff Gnarl”, do Sonic Youth, no qual você convidou a própria banda pra tocar com você. Por que você escolheu essa música específica da banda?
Porque eu adoro essa música! Precisa de razão melhor? Eu acho que a letra dessa canção é uma das melhores do Thurston [Moore, guitarrista e vocalista do Sonic Youth]. Nessa faixa, eu botei o J. [Mascis, guitarrista e vocalista do Dinosaur Jr.] pra tocar bateria. Mas ele pulou fora na metade! É por isso que você não ouve nenhuma percussão no meio da música. Então, o Steve [Shelley, baterista do Sonic Youth] estava por lá e completou a gravação. Eu também escolhi essa música porque ela é meio sinfônica, e o Nels… Na verdade, eu escolhi a música pro Nels e para a Carla Bozulich [vocalista da The Geraldine Fibbers, entre outras bandas], que sempre quis cantá-la. Pensei que poderíamos fazer uma boa versão e fazer justiça à original, dar um novo significado à canção. Eu acho que o J. foi bem também, tocou num estilo meio Keith Moon. Quer dizer, até ele pular fora… [risos].

Qual a história por trás de “Heartbeat”, especialmente a letra e a participação de Kathleen Hannah?
Essa música seria instrumental, originalmente. Mas eu tinha 45 caras no disco e pensei, “eu preciso colocar mais mulheres nesse projeto”. Então eu chamei a Carla, Petra [Haden, violinista] e suas irmãs cantaram e tocaram violino… Convidei a Tiffany [Anders, vocalista], que era amiga do J., pra cantar também. Na verdade, essa música é uma mistura de uma música do Dos [projeto paralelo de Watt] e de outra canção que escrevi para os Minutemen. Então, a única pessoa que pediu para fazer parte do projeto foi a Kathleen Hannah. Nessa faixa, a Tiffany canta a letra que eu escrevi e a Kathleen recita algumas frases que ela mesma escreveu [na gravação, feita em uma secretária eletrônica, Hannah faz um discurso feminista e finge responder a Watt que não queria fazer parte do seu disco e do seu “Clube do Bolinha”]. A mensagem que ela gravou não era real, pois deixa a impressão de que ela não queria fazer parte do disco — mas ela queria, tanto que me pediu para ser incluída. Claro, o discurso em si tem coisas verdadeiras, ela é desse jeito, mistura ficção e realidade. Mas muita gente me pergunta sobre isso, e a história é essa. Sabe, o marido dela, Mike D. [ex-Beastie Boys] também está no disco, e eles estão casados desde então. Ela já me falou que tenho parte da culpa, mas peraí, eu só estava tentando fazer um disco [risos]. O mesmo aconteceu com o Nels Cline e a Yuka Honda. Geralmente, quando eu faço um disco, as pessoas não se casam umas com as outras, mas às vezes acontece [mais risos].

Também há uma conexão brasileira no disco, com a participação do Mario Caldato, na faixa “Coincidence is Either Hit or Miss”. Como você o conheceu?
Bem, Mario Caldato, ele era o técnico de som dos Beasties. Abri shows para eles em 92, eu acho, na turnê do “Check Your Head”, ainda como baixista do fIREHOSE. Foi na época em que eles voltaram a tocar instrumentos, uma turnê muito legal. Horowitz [Ad Rock, vocalista dos Beastie Boys] tocou com a gente, foi uma de nossas últimas turnês. Também tivemos problemas com gente jogando coisas no palco. É assim que acontece, quando a gente fica “um pouco menos underground”. É uma idiotice.

Existem sobras das sessões de gravação do disco?
Só o que saiu nos lados B dos singles. Foram três singles, com lados B que não estavam no álbum, “Dominance and Submission”, “The Big Bang Theory” e “Amnesty Report”. Não tenho planos de relançar o disco, acho que não seria certo. Ele ainda está à venda. Claro, acabamos fazendo uma edição em vinil, já que na época só saiu em CD. Fizemos um disco duplo, em vinil azul. Acho que é uma edição suficientemente de luxo, não há mais o que fazer a respeito sem se tornar uma exploração. A melhor forma de recriar a experiência foi lançando o disco ao vivo que saiu há alguns anos, “Ring Spiel Tour ‘95”, com o show que fizemos em Chicago. Tocar com aqueles caras, depois de ensaiar por dois dias apenas… Acho que fizemos algo realmente incrível. Pat Smear, quer dizer, Jesus Cristo! Pat Smear era um herói dos Minutemen desde os tempos em que ele tocava no The Germs. O que eu acho mais interessante é que esses caras tocavam pra caralho. Em dois dias montamos uma turnê inteira e, apesar dos problemas que tivemos, sabe, acho que foi uma turnê muito bem-sucedida. Eu fiquei impressionado, especialmente vindo de onde eu vinha. Também rolou uma gripe na época. Quer dizer, cada banda tinha sua van, como sempre se faz nesses casos, mas muitos ficaram doentes. Eu não fiquei, por alguma razão, nunca fico doente. Ainda assim, eles foram verdadeiros soldados, tocaram bem pra caralho. Já tinha uma fita dessa apresentação de Chicago rolando há alguns anos, porque no Chicago Metro eles gravam todos os shows. Então, quando a gravadora me perguntou sobre lançar o disco ao vivo, perguntei pro Dave, pro Ed e pro Pat e eles liberaram. Quando escutei novamente, achei que teria muito mais erros do que tinha realmente. Sou muito agradecido a eles.

Você tocou com 48 músicos diferentes nesse disco e muitos mais durante toda sua carreira. Tem alguém com quem nunca tenha tocado, mas que gostaria de fazer um projeto?
Sim, Bob Mould [ex-guitarrista do Hüsker Dü e do Sugar, atualmente em carreira solo].

Uau!
Sempre quis fazer algum lance com o Bob.

Sim, seria incrível.
Tem o outro Bob também. Bob Pollard.

Uau!!
Do Guided by Voices, tá ligado?

Isso seria demais!
Esses dois caras, eles têm uma visão própria. Sabe, em vez de relançar o disco da luta livre, eu queria fazer outro, Leonardo.

Sim, por favor, faça.
Só que eu convidaria apenas caras de Cleveland. Sabe, a cidade de onde o Pere Ubu vem. Eu realmente queria fazer isso. Com caras do Pere Ubu, como Tom Herman e Scott Krauss, e também o John Petkovic, do Cobra Verde. Tem vários músicos de Cleveland com quem eu adoraria fazer uma versão miniatura de “Ball-Hog or Tugboat?”.

Você poderia abrir uma exceção pro Bob Pollard, já que ele é do mesmo estado…
É, ele teria que vir nos visitar. Eu o adoro, acho ele um gênio, é tão prolífico, meu Deus… Sabe, ele tocou no centro de Los Angeles na véspera de Ano-Novo. Ele tocou 100 músicas, o show durou cinco horas.

Ele provavelmente tocou todas as músicas que compôs naquela semana.
Naquele dia! [risos] Ele é incrível.

Para finalizar, você veio ao Brasil algumas vezes, certo? Quais suas lembranças do nosso país?
Fui três vezes ao Brasil, duas delas com os Stooges.  Uma na versão com o James Williamson na guitarra (no Festival Planeta Terra 2009), e outra na versão com o Ron Asheton (no Claro Que é Rock 2005 – Mike gravou o álbum “The Weirdness” em 2007 com os Stooges). Da outra vez, fui ao país com Mike Watt and the Missingmen. Estive em São Paulo e no Rio e gostei muito. Mas ainda preciso conhecer o resto do país. Rio e São Paulo são cidades bem diferentes uma da outra, mas ficam bem próximas, né? Adoraria voltar para conhecer mais.

– Leonardo Tissot (www.leonardotissot.com) é jornalista especializado em comunicação corporativa e produção de conteúdo

2 thoughts on “Entrevista: Mike Watt fala dos 25 anos de “Ball-Hog or Tugboat?”

Deixe uma resposta para Tim Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.