Boteco: Seis países, doze cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo uma série de cervejas e países com duas cervejas dinamarquesas. A primeira é da Harboes Bryggeri, responsável pela linha Bear Beer, que agora têm também uma American IPA em seu portfolio, que estreou primeiro no Brasil e no Chile. De coloração âmbar caramelada com creme branco espesso de boa formação e retenção, a Bear Beer IPA apresenta um aroma que combina muita sugestão herbal com malte caramelo. Na boca, essa Caramel IPA dinamarquesa traz herbal no primeiro toque seguido de um leve floral e então caramelo e bastante doçura, tudo isso barrado num muro de amargor que deve bater os 50 IBUs. A textura é leve querendo ser suave com discreta picância de álcool (apenas 5.6%, mas eles dão as caras sobre a língua). Dai pra frente, o que o bebedor encontra é uma Caramel IPA não tão entregue ao caramelo, devido ao herbal intenso e ao álcool fora da casinha. No final, amargor e herbal. No retrogosto, mais amargor, mais herbal e leve caramelo numa proposta interessante de custo / beneficio para uma lata 500 ml – ainda que esteja longe de uma “real” American IPA.

A segunda dinamarquesa é mais uma da mítica Mikkeller, que produz suas cervejas, essa It’s Alive inclusa, na fábrica da De Proefbrouwerij, em Lochristi, na Bélgica. Trata-se de uma Belgian Strong Golden Ale fermentada com Brettanomyces numa homenagem dos dinamarqueses a também mítica cerveja Orval. De coloração âmbar com traços avermelhados e creme branco de boa formação e retenção, a Mikkeller It’s Alive apresenta um aroma que entrega atividade de Brett (azedume suave e também rusticidade) ao lado de percepção de malte, de biscoito, de caramelo e de notas herbais. Na boca, doçura caramelada no primeiro toque seguida de azedinho suave, biscoito, caramelo e um tiquinho de frutas escuras. O amargor, baixo, é soterrado pelo azedume e pelo caramelo. A textura é suave e levemente picante (de 8% de álcool). Dai pra frente, uma Belgian Golden Strong Ale arisca e com características de Sour, delicinha, ainda que comportada. No final, caramelo e azedinho. No retrogosto, caramelo, biscoito, herbal e azedume suave.

Da Dinamarca para Altenkunstadt, na Alemanha, cidade de pouco mais de 5 mil habitantes que abriga, desde 1887, a cervejaria Leikeim, que retorna ao site desta vez com sua Schwarzbier, uma cerveja de coloração marrom escura (bastante escura) e creme bege claro espesso de ótima formação e retenção. No nariz, as notas tradicionais do estilo sugerem café, pão preto, chocolate levemente amargo e derivados de torra. Na boca, uma combinação de chocolate e café chega junta no primeiro toque, mas sem remeter a cappuccino, são os dois mesmos, bem definidos e não sugerindo uma terceira nota. Há, ainda, presença assertiva de torra. O amargor é marcante, ainda que nada excessivo (30 IBUs). A textura, por sua vez, é leve desejando ser suave, mas quase lá. Dai pra frente, uma autentica Schwarzbier alemã, com notas e sabores que não deixam o bebedor no escuro: está tudo ali, para ser devidamente apreciado. No final, um amarguinho e notas de torra. No retrogosto, café, pão preto e chocolate. Muito boa no que se propõe.

A segunda alemã vem de Stolberg, cidade do distrito de Aachen, na fronteira de Alemanha e Bélgica, que abriga a interessantíssima cervejaria Freigeist, especializada em recriar estilos cervejeiros alemães esquecidos. Nesta receita, uma Eisbock (que surge do congelamento de uma doppelbock, momento em que a água congelada é removida visando concentrar sabor e álcool) que recebe adição de morangos e alcança os 15.5% de álcool. De coloração âmbar turva acastanhada com creme bege de baixa formação e retenção, a Freigeist Strawberry Eisbock Forever exibe um aroma que combina doçura maltada intensa com delicada presença de morango (sugerindo geleia) além de percepção sutil de álcool lá no fundo. Na boca, o morango se faz mais presente no primeiro toque, e permanece destacado na sequencia, ainda que a doçura caramelada e o álcool queiram tentar protagonismo. IBU aqui é algo tipo – 25 (sim, bastante doçura) e a textura intensamente picante de álcool tanto quanto aveludada. Dai pra frente surge um licorzinho para ser bebido calmamente, até combinado com uma sobremesa. No final, morango e caramelo. No retrogosto, calor alcoólico, morango e caramelo.

Da Alemanha para Witney, na Inglaterra, cidade próxima de Oxford que abriga a cervejaria Wychwood, que marca presença aqui com sua (English) IPA, uma cerveja de coloração entre o dourado e o âmbar claro, que apresenta um creme branco de ótima formação e permanência. No nariz, uma deliciosa paleta aromática que combina uma doçura sútil de mel com uma pancada sútil (bem modo inglês) de notas cítricas, com toranja em destaque. Na boca, doçura cítrica rápida no primeiro toque (com traços de mel) seguida de uma pancadinha de amargor que soa até exagerada para o modo inglês de produzir IPAs (50 IBUs), mas resulta em conjunto bastante saboroso. A textura é leve (desejando ser suave) e dai pra frente o conjunto segue apostando na combinação deliciosa de mel sútil, bastante frutado cítrico sem doçura (toranja) e amargor caprichado resultando em um conjunto que agrada e refresca. No final, melzinho e toranja. No retrogosto, leve resina, amargor, cítrico e, por fim, mel. Curti.

Ainda na Inglaterra, mas saindo de Witney e partindo para a cidade de Wolverhampton, próxima de Birmingham, que abriga a cervejaria Marston’s (após diversas mudanças de nome) desde 1834, com a 61 Deep Pale Ale, uma cerveja que apresenta uma coloração dourada com creme branco de ótima formação e longa retenção. No nariz, uma combinação equilibrada de notas cítricas bastante suaves com herbal sutil e doçura maltada no nível. Na boca, herbal levemente à frente, mas sem comandar a experiência, abrindo espaço tanto para o frutado cítrico e para a doçura maltada, que tornam o conjunto bastante agradável. O amargor é o tradicional ingles, na média dos 20 IBUs (carregados de herbal). A textura é leve (desejando ser suave) e, dai pra frente, o conjunto resulta numa Pale Ale bastante agradável, com herbal tomando o destaque das mãos do cítrico e seguindo em frente. No final, sensação de chã e toque herbal. No retrogosto, refrescancia herbal.

Saindo da Inglaterra para Piracicaba, no interior paulista, para encontrar mais um rótulo da Dama Bier, a Catharina (Fruit) Sour com Maracujá e Tamara, uma cerveja de coloração amarela turva, tal qual um suco de caju, com creme branco de média formação e rápida dispersão. No nariz, bastante doçura combinada com bastante fruta, o que quase chega a sugerir uma geleia de maracujá. No entanto, há uma leve remissão a frutado artificial. Na boca, doçura marcante no primeiro toque seguida de frutado adocicado tendendo a suco de maracujá, e absolutamente nenhuma acidez, transformando essa Sour quase que em uma Fruit Beer. Não há amargor (a doçura distribui as cartas), a textura é leve com suave cremosidade. Dai pra frente, a sensação é de uma deliciosa Fruit Beer, na medida, com o maracujá aparecendo no trecho final e rendendo leve adstringência. Ainda assim, o conjunto termina doce. No retrogosto, maracujá e doçura.

Permanecendo ainda no interior paulista, mas saindo de Piracicaba em direção a Várzea Paulista, na fábrica da Dádiva, local em que as meninas da Japas Cervejaria produziram essa Black Daruma, uma potente Russian Imperial Stout que recebe adição de suco de caqui Fuyu e que apresenta uma coloração marrom bastante escura, praticamente preta, com creme bege de ótima formação e retenção. No nariz, chocolate amargo bem leve e cacau em primeiro plano, café discreto, sugestão de baunilha e calda de ameixa bastante suave. E nada entrega que essa RIS tem 11% de álcool. Na boca, doçura achocolatada no primeiro toque abrindo para leve presença de frutas vermelhas (bem leve mesmo), café ainda discreto, torra, defumado sutil e nada dos 11% de álcool (ok, um pouquinho só, como se fosse uns 6% – hehe). O amargor é equilibrado e não chega perto dos 62 IBUs (soa a metade disso) antecipados pela cervejaria. Já a textura é suave, querendo ser licorosa, com os 11% de álcool bastante sutis. Dai pra frente, uma RIS para enquadrar de tão deliciosa, (aparentemente) leve e saborosa. No final, calda de ameixa e amargor bem leve. No retrogosto, ameixa, frutas vermelhas e chocolate. Uau.

De Várzea Paulista para La Coruña, na Espanha, com uma pequena parada em Nova Odessa, no interior de São Paulo, onde foi produzida essa Red Lager da Estrella Galicia que recebe adição de jabuticaba. De coloração âmbar levemente avermelhada com creme branco de boa formação e retenção, a Estrella Galicia Jabuticaba apresenta um aroma que tenta combinar a doçura caramelada do malte com o frutado marcante da jabuticaba, bastante presente e facilmente perceptível. Na boca, doçura maltada dá as cartas no primeiro toque, mas perde espaço na sequencia para a jabuticaba, que toma toda atenção do bebedor até que o amargor (25 IBUs) varra tudo garganta abaixo e traga consigo as notas de uma red lager clássica num jogo meio confuso de variações em que doçura e frutado pouco aparecem juntas. A textura é leve e, dai pra frente, a sensação é meio estranha, pouco valorizando a jabuticaba (devido ao amargor, que, ainda que baixo, pareça mais excessivo do que é em contraste com a fruta). No final, amargor e maltado. No retrogosto, mais amargor e maltado caramelado.

A segunda espanhola é uma da cervejaria Domus, de Toledo, em colaboração com os portugueses da Letra, de Vila Verde, que atende pelo nome de Catedrale e trata-se de uma Imperial Red Ale que recebe adição de zimbro (juniper). De coloração âmbar levemente turva com creme bege claro de média formação e boa retenção, a Domus Letra Catedrale apresenta um aroma com bastante presença de sugestão de caramelo levemente tostado, de pão doce, açúcar mascavo e um tiquinho de herbal. Zimbro? Praticamente nada. Na boca, doçura caramelada intensa no primeiro toque abrindo-se na sequencia com leveza e sugestão de açúcar mascavo além de um discreto toque herbal. O amargor é baixo perto da intensidade da doçura maltada, os 8.5% de álcool estão bem envolvidos na receita, e a textura é suave e picante. Dai pra frente, uma Imperial Red Ale com zimbro distante, quase imperceptível, mas muito saborosa. No final, caramelado. No retrogosto, mais caramelo e herbal bem leve.

De Toledo para Grand Rapids, no Michigan, para a primeira de duas cervejas made in USA: Founders Doom, uma Imperial IPA envelhecida em barris que antes maturaram Bourbon. De coloração âmbar acobreada com creme branco de boa formação e retenção, a Founders Doom apresenta um aroma que traz doçura maltada envolvente, bastante madeira, sugestão de uísque, de frutas cristalizadas, de baunilha, pinho e damasco, além de leve resina. Na boca, doçura alcoólica no primeiro toque, e são 12.4% de graduação, mas a sensação que aparece é extremamente agradável. Na sequencia, uísque, amadeirado, frutas cristalizadas, baunilha e amargor potente, que honra os 100 IBUs que a casa diz entregar – ainda que ele parece mais duradouro do que profundo. A textura é absolutamente licorosa sobre a língua, com o álcool dando as caras violentamente. Dai pra frente, notas maltadas e doces dançam ao lado de sugestões amadeiradas, de uísque e de frutas cristalizadas, com álcool mais perceptível, mas ainda agradável. No final, amargor potente, resina e doçura. No retrogosto, frutas cristalizadas, mel, amargor, madeira e uísque. Bela.

Do Michigan para a Califórnia com a terceira cerveja da Firestone Walker, de Paso Robles, a passar por aqui (depois de Stickee Monkee e a Double Jack): XXII é um blend anual que a cervejaria propõe em uma competição a produtores locais de vinho para comemorar o aniversário da Firestone Walker. A vencedora de 2018 foi um blend da Thacher Winery e TH Estate Wines com o padeiro Arie Litman que consiste em 44% da Stickee Monkee (uma Belgian Quad maturada em barricas de Bourbon), 22% da Párabola (um dos ícones da casa, uma RIS Oatmeal também maturada em barricas de Bourbon), 22% da Bravo (uma Imperial Brown Ale em Bourbon) mais duas versões da Helldorado: 7% de uma maturada em barricas de Rum e 5% de outra maturada em barricas de Gim. O resultado, de 12.7% de álcool, é uma cerveja de coloração marrom escura, mas translucida nas bordas, e creme bege claro de baixa formação e rápida dispersão. No aroma, assim que a garrafa é aberta, sugestão intensa de Bourbon (são 88% de barricas no conjunto) salta pra fora da taça. Aproximando o nariz da taça, a paleta é sublime com passas, ameixa, coco bem leve, damasco, alcaçuz, chocolate discreto, toque de vinho tinto, de Bourbon, de xerez, madeira e, levemente, de álcool. Na boca, xerez no primeiro toque seguido de doçura, alcaçuz, ameixa, passas, Bourbon e… álcool, muito leve. Há tanta coisa acontecendo aqui! Não há sensação de amargor, apesar de seus 32 IBUS, a sensação é de doçura de calda de ameixa e de chocolate. A textura começa sedosa, vai ficando licorosa e, claro, o álcool bate forte sobre a língua, mas isso não é percebido no trajeto tradicional, e a sequencia só melhora, com a cerveja se aconchegando ainda mais conforme aquece no copo: há mais chocolate, suave, e o Bourbon se encaixa ainda melhor. No final, ameixa, madeira e Bourbon. No retrogosto, madeira, Bourbon, ameixa e chocolate. Um clássico!

Bear Beer IPA
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 5.6%
– Nota: 3.01/5

Mikkeller It’s Alive
– Produto: Belgian Golden Strong Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3.64/5

Leikeim Schwarzes
– Produto: Schwarzbier
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 4.9%
– Nota: 3.21/5

Freigeist Strawberry Eisbock Forever
– Produto: Eisbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 15.5%
– Nota: 3.21/5

Hobgoblin IPA
– Produto: IPA
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 3.33/5

Marston’s 61 Deep Pale Ale
– Produto: Pale Ale
– Nacionalidade: Inglaterra
– Graduação alcoólica: 4.1%
– Nota: 3.33/5

Dama Bier Catharina Sour Maracujá & Tamara
– Produto: Catharina Sour
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 3.09/5

Japas Black Daruma
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 11%
– Nota: 3.89/5

Estrella Galicia Jabuticaba
– Produto: Red Lager
– Nacionalidade: Espanha
– Graduação alcoólica: 5.5%
– Nota: 2.73/5

Domus Letra Catedrale
– Produto: Imperial Red Ale
– Nacionalidade: Espanha
– Graduação alcoólica: 8.5%
– Nota: 3.23/5

Founders Doom
– Produto: Imperial IPA Barreal Aged
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 12.4%
– Nota: 3.96/5

Firestone Walker XXII
– Produto: American Strong Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 12.7%
– Nota: 4.76/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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